Meus mortos

Dança no cais

Hugo Simberg, 1899

Quando eu nasci eu tinha muita gente em volta, mas elas foram sumindo

Eu tinha avós, tios, tias, mãe e pai

Minha bisavó morreu em 94

Minha avó materna em 2003

Minha tia favorita em 2004

A mãe biológica do meu pai (que eu vi poucas vezes) em 2005

Minha mãe em 2006

Minha avó paterna adotiva em 2008

Meu tio que também era meu padrinho em 2012

Meu avô em 2016

O Alzheimer vem levando meu pai há uns 10 anos, e hoje em dia eu nem sei se ele ainda conta como meu pai se ele não se lembra de que é

E aí tem as pessoas que foram se afastando mas é como se tivessem morrido também

A família sobrevivente da minha mãe é de um próximo distante, tem um fosso entre nós que a gente não consegue pular direito

A família adotiva do meu pai nos traiu de uma forma inesperada e é como se tivesse morrido pra nós

Da minha família original sobramos só eu e minha irmã, e tentamos aí sobreviver bem entre os nossos escombros

Da família anexada tem o Lucas, meu marido, que é o que me segura nessas perdas todas

Eu tenho amigos, e uma comunidade que eu formo principalmente escrevendo

E ironicamente falar dos meus mortos me consegue a companhia de uns vivos

A morte pra mim já é uma velha conhecida, se ela passar eu aceno e acho que ela até acena de volta, enquanto eu espero que ela siga outro caminho

Eu não tenho mais tanto medo, e parte de quem eu sou agora foi moldada por ela também

Não tenho mais raiva, eu só aceito

E também acho que lembrar que ela existe, e que ela sempre vem, nos faz aproveitar melhor a vida. Viver é precioso demais pra gente perder tempo com o que não importa

A escritora Scholastique Mukasonga, sobrevivente do genocídio em Ruanda, diz que o que ela faz é uma mortalha de papel pros seus mortos que ficaram à mercê de tudo e nunca puderam ser identificados

Meus mortos têm sepultura, eu sei onde eles estão, mas eu sinto que é isso que eu faço também. E eu me sinto feliz em fazer aqui

Lembrar de quem a gente perdeu é lembrar que muito amor existiu, e eu acho que nunca é demais lembrar desse amor que carregamos pra sempre, mesmo que as pessoas que nos amaram não estejam mais aqui.

Meu comecinho
Minha mãe e eu, meu aniversário de 4 anos
Meu pai e eu na casa da minha avó
Minha avó Safira, minha mãe e minha tia Lucineide (e Rosa lá atrás, que tá bem viva)
Meu casamento em 2010, meu pai e minha irmã nos cantos

Eu não sou uma estrangeira no país das histórias

Scholastique Mukasonga