Você não me ensinou a esquecer

Graças ao meu pai eu cresci tendo uma boa memória, o que torna mais irônico ainda o Alzheimer que ele tem agora. Na minha família a gente guardava rancor como quem guarda documento por cinco anos. Exceto que a regra do rancor era guardar a vida inteira. Ninguém ganhava uma briga sem lembrar de várias coisas pra passar na cara, e era o tipo de situação em que não dava pra consultar anotações.

As brigas do meu pai com a minha mãe seguiam um roteiro muito bem estabelecido, e eram até tediosas quando a gente observava por muitos anos. Mas a convenção era responder uma ofensa com outra ofensa, e pra isso era preciso manter um extenso catálogo mental mesmo em épocas de paz.

As minhas brigas com meu pai eram parecidas, exceto que eu não caía nas mesmas armadilhas que a minha mãe. As raríssimas brigas que eu tinha com a minha mãe eram completamente diferentes, a ofensa era “você é igual ao seu pai” e a apelação era “mas eu sou sua mãe, eu sei”.

Não tinha tanta coisa assim pra jogar na cara da minha mãe, e pra ser sincera eu nem lembro direito como essas brigas acabavam. Com meu pai elas terminavam com coisas que não tinham nada a ver com a briga original, como ele dizer “eu não deveria ter nascido”. 

Essa era outra característica do meu pai, ele misturava culpas. Jogava pra mim coisas que a minha mãe tinha feito, pra minha mãe coisas minhas e da minha irmã, e pra todas nós a raiva que ele tinha da mãe biológica. Essa última só foi resolvida quando a mulher finalmente morreu em 2005.

Curioso é que ao que tudo indica meu pai e a mãe biológica dele nunca brigaram de verdade, apesar de ele saber quem ela era desde criança e de ela ter tentado forçar a barra da maternidade em várias ocasiões.

Talvez seja por isso que meu pai pareça tão pacífico hoje, quando a única pessoa de quem ele se lembra é da mãe adotiva, que morreu em 2008. Ele não tem mais lembranças, então também não tem mais culpas a atribuir. É como o contrário do Funes, o memorioso, aquele do conto do Borges que se lembrava de absolutamente tudo e não conseguia nem raciocinar nem viver direito.

A minha memória também já não é a mais a mesma. Foi muita coisa que chegou depois da doença do meu pai, e cada uma foi ocupando partes privilegiadas do meu cérebro. Eu já não durmo como antes, passei a ter pânico, fibromialgia, depressão recorrente. Até os remédios que eu tomo podem estar chegando pra piorar tudo. 

Uma das histórias mais antigas que contavam sobre mim era a de eu ter memorizado os logotipos de todos os bancos quando eu tinha uns dois anos. Um feito muito fácil de entender quando a gente aprende que a primeira infância é a fase em que as conexões neurais estão mais ativas. Mas as pessoas ficaram encantadas e isso ajudou a fortalecer a imagem de Camila como a pessoa que se lembra. 

Eu aprendi a ler cedo, sempre estava entre os primeiros lugares nas escolas onde eu estudei e passei em direito com 17 anos. Isso ajudou a construir uma outra imagem, a de Camila como a pessoa que sabe.

Quem sou eu sem essas duas imagens? Como dar conta das perdas cognitivas que eu venho tendo e ainda com a ameaça de perdas muito piores?

Não tem como lidar com um diagnóstico de Alzheimer precoce na família sem pensar que ele também pode ser o seu no futuro. Essa era uma preocupação que eu trazia constantemente pro meu psiquiatra, pra minha neurologista e até pro neurologista do meu pai.

O meu psiquiatra disse que o meu esquecimento era normal pra uma pessoa que passou por um trauma. E se eu esqueço de uma coisa e me lembro depois, então isso não é Alzheimer.

A minha neurologista disse que não tem como o meu cérebro ser o mesmo de antes depois de tudo que eu passei. E não é que eu tenha perdido capacidade cognitiva, mas o meu cérebro aprendeu a concentrar esforços em outras áreas. Por isso ele interpreta tantos estímulos como dor, e tantas situações como ameaças. 

Mas quem realmente me acalmou foi o neurologista do meu pai. Existe um tipo de Alzheimer que depende de um único gene, é o que aparece no filme Simplesmente Alice, e basta um alelo pra ser game over pra você. O do meu pai não tem como ser esse porque ninguém mais na família biológica dele tem ou teve Alzheimer, mesmo as pessoas muito idosas. E eram 13 os irmãos biológicos do meu pai, deu pra testar bastante. 

O Alzheimer do meu pai é provavelmente resultado de muitas coisas, talvez uma tendência genética, um ou mais genes envolvidos, e fatores ambientais. Meu pai bebia (bastante), nunca tratava depressão quando ela aparecia e não fazia exercícios físicos. Ninguém sabe direito o que provoca a maioria dos casos de Alzheimer, ainda mais precoces, mas isso que eu apontei aparece sempre nas correlações.

O neurologista do meu pai disse pra eu parar de me preocupar com isso, meu corpo não é o do meu pai, minha vida não é a do meu pai, e nossas trajetórias são distintas demais pra que as mesmas condições favoráveis pra doença possam se repetir. Não é impossível que eu tenha Alzheimer precoce, mas também não é provável. 

Hoje eu imagino o cérebro do meu pai meio como o Titanic. A água vai invadindo compartimento por compartimento, assim como as placas de proteína beta-amilóide vão matando o cérebro pouco a pouco. As pessoas tentam fugir da água como o cérebro também tenta driblar os caminhos interditados usando as conexões que ainda existem, mas em algum momento vai tudo afundar. A diferença é que no caso do meu pai não vai sobrar nenhum sobrevivente, nem ele. 

O meu cérebro é como uma cidade no meio de uma tempestade. Os vôos estão atrasados e os carros têm que andar com cuidado nas estradas. Mas ainda existem vôos e estradas, e nem a tempestade dura pra sempre. Mesmo com muita chuva ainda existem dias de sol.

Como a minha energia mental se reduziu bastante eu não dou mais tanta importância ao que não tem importância. Não insisto em relações que não valem a pena, fujo de conflitos e não tenho a menor vergonha de abandonar o que não tem funcionado. Acho que a minha versão do passado não ia ficar muito satisfeita de saber que eu larguei um curso de filosofia no início e um de letras quase no fim, mas eu também não devo mais satisfações pra ela.

Quem diria, existem outros jeitos de manter a memória ativa sem a necessidade de brigar com ninguém. Principalmente tendo um marido que ainda alega ter uma memória pior que a sua, e portanto sendo uma pessoa incapaz de guardar rancor. 

E olha, se a essa altura eu ainda odeio alguém, eu nem me lembro. Acho que é até melhor assim.


Esse post faz parte do Estação Blogagem, projeto criado por Aline Valek e Gabi Barbosa pra dar aquele pontapé gostoso no renascimento dos blogs tais como eram outrora. Cada semana desse mês o tema é um negócio de tarô, e eu vou tentar participar de todas as quatro.

O naipe de espadas diz sobre algo que acontece no plano mental: a racionalidade, a ideologia, a verdade. Mas também fala sobre os problemas que só existem na nossa cabeça, que tanto nos pressionam e criam grandes conflitos internos. Que tal falarmos mais sobre isso?