A morte e a vida levam à Finlândia

Eu nem pensava em ir pra Finlândia antes de conhecer o Hugo, mas agora virou um desejo tão forte que eu até sonhei com isso. Hugo no caso é Hugo Simberg, pintor simbolista finlandês que viveu entre o fim do século XIX e início do XX e é considerado o grande artista do seu país, apesar de ser tão pouco conhecido nos outros.

Ele é meu pintor favorito desde o fim de semana passado, quando eu vi uma das suas obras numa conta sobre coisas vitorianas que eu sigo no Twitter. Em tese nem seria uma coisa vitoriana, já que não era inglesa, mas estava lá O Jardim da Morte de 1896, e eu nunca mais consegui desviar. As artes visuais como a pintura têm uma mágica que a gente não consegue ter com outras formas como a literatura ou o cinema, essa sensação de que o tempo parou.

Claro que o tempo não parou, e de repente até dá pra conseguir esse efeito com um poema curtinho ou visual, mas você me entendeu.

Por esses instantes de tempo suspenso eu estava lá no jardim da morte, vendo aquelas caveirinhas fofas cuidando de um jardim de plantas pra mim desconhecidas. A morte estava cuidando da vida, e com tanta dedicação e amor. Diz pra mim que você não olha pra essa caveirinha do meio e diz “ohhhhhh”.

Representações da morte como caveirinha, ou o ceifador, o Grim Reaper, não eram novidade no século XIX obviamente. Já se tinha a danse macabre do fim da Idade Média, que é isso mesmo que você está pensando, a morte dançando com outras representações de morte, ou com vários tipos de vivos, como a dizer que todo mundo se julga muito importante mas hahaha vão todos morrer.

A Dança da Morte, Micheal Wolgemut, xilografura, 1493

E tinha o memento mori, aquele negócio que a gente encontra nas igrejas de Ouro Preto ou nos anéis de nobres renascentistas. De novo, era aquela caveirinha marota pra lembrar a gente de que nosso tempo aqui é contado e a areia já tá caindo, vê lá o que você vai fazer com a sua vida.

Mas com o Hugo era diferente, era uma morte carinhosa, como quem diz segura aqui na minha mão, vamos juntos ver o que tem no outro lado. Talvez nem tenha nada do outro lado, mas com uma companhia simpática é bem mais fácil aceitar a ideia de desaparecer.

Quando eu era criança eu gostava muito da Dona Morte do Penadinho, sempre tão desastrada, com problemas de gente comum e com uma lista imensa de tarefas pra cumprir, como todos nós. E tinha também a morte que aparece no segundo filme do Bill e Ted, que jogou bastante com eles, (assim como a morte de O Sétimo Selo) mas depois tava lá brincando de Twister e fazendo guitarra imaginária com os protagonistas.

Nunca vou perdoar a pandemia por me impedir de ver o novo Bill e Ted no cinema, e eu vi no trailer que até a Morte vai aparecer de novo.

E a versão da danse macabre que eu conhecia era a dança das caveirinhas do Silly Symphonies da Disney, que tinha num VHS de Halloween que eu vi de novo e de novo e de novo. Eu amava essa parte, e achava tocante a forma como aqueles feixes de ossinhos arrumavam novas formas de fazer música e novas coreografias num cenário tão limitado como um cemitério.

A danse macabre do Hugo Simberg é meio diferente de tudo isso, ao menos a que eu gosto, Dança no Cais, de 1899, porque eu já vi uma outra que parece mais com o conceito original. Desculpe a minha falta de exatidão, mas não tem nem uma semana que eu passei a gostar desse homem, ainda não consegui saber de tudo da vida dele.

Tem umas caveirinhas num cais, e tudo parece tão etéreo, como naquela hora mágica do pôr do sol. As pessoas parecem estar com medo, como quem treina aquele movimento bombástico de Dirty Dancing, de pular nos braços do Patrick Swayze e acreditar que não vão cair. As caveirinhas tão lá pra dizer, confia em mim, você não vai cair, você só vai atravessar. Sabe-se lá pra onde, mas eu estou aqui com você.

(I’ve had) The time of my life, canta comigo

O Hugo Simberg tem outras obras, coisas realistas, chiques, a óleo. Essas duas que eu mostrei são de aquarela e guache. Inclusive a obra mais famosa dele, O Anjo Ferido, é tipo a Monalisa lá do Ateneum, o museu de Helsinki onde estão todas as obras do Hugo. Porque outra grande vantagem de ser um quase um desconhecido no resto do mundo é que suas coisas podem ser encontradas todas juntinhas no mesmo museu, ao invés de exigir uma caça ao tesouro pelos museus do planeta como acontece com o Van Gogh.

O Anjo Ferido é uma pintura muito boa, não me leve a mal, o olhar inquisidor daquela criança é perfeito, e como as interpretações podem ser muitas, pra mim a criança tá julgando quem olha pelo que aconteceu com o anjo. Talvez seja sobre trabalho infantil, ou mortalidade infantil, sei lá, tenho certeza de que dá pra pensar em várias coisas se você tiver tempo pra reparar bem nos significadinhos todos lá escondidos.

Mas pra mim isso não tem o mesmo apelo das caveirinhas. Veja, eu sou uma discípula da Emily Dickinson e da Catherine Doughty, cresci amando Elvira, a rainha das trevas e as personagens góticas problemáticas da Winona Rider. Meu negócio mesmo é morte, antes mesmo de ela vir pessoalmente levar pessoas da minha família uma por uma.

Eu sinto muita falta de visitar museus, galerias, ser arrebatada por uma obra de arte e nunca mais conseguir ser a mesma pessoa. Foi assim quando teve mostra do Kandinski e do Basquiat no CCBB aqui de BH, e também com vários outros desconhecidos que eu esqueci de anotar e agora só tenho uma vaga lembrança da sensação, mas nada de nomes.

Em 2018 eu fui pra Paris e lógico, em sendo Paris a gente acaba tão soterrada em obras de arte que corremos o risco de não sentir de verdade nenhuma. Mas no Louvre eu tive medo da Monalisa e chorei com A Virgem com o menino e Santa Ana (minha favorita do DaVinci). No Museu D’Orsay eu tive uma sensação também forte, mas diferente.

Eu vi as pinceladas do Van Gogh nos quadros dele. Eu soube que ele realmente existiu, e pintou aquelas coisas, e foi uma pessoa, com um braço, e um pincel na mão, e em algum momento da história desse mundo ele fez aqueles movimentos com a tinta. Nós compartilhamos o mesmo mundo em séculos diferentes, somos criaturas da mesma espécie, e eu conseguir me dar conta disso foi tão óbvio quanto incrível.

Se não é o velho Vincent que encontramos aqui

Naquela fase da quarentena em que todo mundo ficou meio como barata tonta sem saber o que fazer nem o que pensar eu pintei aquarelas. Não que eu seja uma grande artista nem nada, na maior parte do tempo eu só fazia reproduções mesmo do que os livros ou os tutoriais de youtube ensinavam. Mas naqueles momentos de molhar o pincel na água, de lutar contra a tinta, e lutar a favor da tinta, e esperar a tinta secar, e se surpreender com o resultado, eu realmente não estava nessa realidade aqui.

Eu me considero escritora, tanto quanto eu possa me considerar como parte de um clubinho das artes. Mas eu amo cinema, e artes plásticas, e qualquer arte, até colagens que uma criança fez pra dar no dia das mães. Parece que é nas artes que realmente podemos nos sentir todos juntos, saindo um pouco das divisórias criadas porque somos muitos humanos e é impossível não criar divisórias.

Foi mostrando a morte que o Hugo Simberg me fez pensar que de repente eu ainda posso ter muita vida. E eu quero ir pra Helsinki, visitar o Ateneum, e sei lá mais o quê que se tem pra fazer em Helsinki. O Hugo também fez afrescos numa igreja lá, e eu queria ir, mesmo já tendo visto as fotos e não achando nada assim Capela Sistina. Desculpe protestantes, mas os católicos ganham esse jogo.

Só que o Hugo fez uma serpente demoníaca no teto da igreja e isso irritou muito os religiosos e se irritou então eu tenho que ir ver. Tipo esses filmes que o Vaticano proíbe, e você fica com vontade de assistir, mas aí pode acabar sendo só uma grande perda de tempo como o Je vous salue Marie do Godard.

Uma amiga que mora na Noruega e está empolgada com o meu renovado interesse lá nos nórdicos disse que temos que ir também no Kiasma, que é um museu de Helsinki com uma arquitetura toda legalzona.

Eu não sei a quantas anda a minha ampulheta, mas eu acho que tem muita areia pra rolar aqui sim. Me espera Hugo, quando essa pandemia acabar, quando eu puder entrar na Europa de novo, quando a gente puder falar desse nosso ano de 2020 como se fosse um sonho, então nós vamos nos encontrar. 

Porque eu sei que você já morreu e tal, já dançou muito com as suas caveirinhas, mas você mesmo mostrou em uma das fotos que tirou: Ars longa, vita brevis. Estamos separados pelos séculos, mas a arte é a nossa mágica, a nossa viagem no tempo e no espaço, o nosso encontro apesar das fronteiras reais e imaginárias.

E quando nos encontrarmos, Hugo você vai ter muito pra me dizer, mas eu também a você, eu também, Hugo, eu também.

Esse é o Hugo
Ele também era fotógrafo, e aqui dá pra conferir todas as fotos

Esse post faz parte do Estação Blogagem, projeto criado por Aline Valek e Gabi Barbosa pra dar aquele pontapé gostoso no renascimento dos blogs tais como eram outrora. Cada semana desse mês o tema é um negócio de tarô, e eu vou tentar participar de todas as quatro.

O naipe de paus está ligado diretamente à energia do fogo e basta pensar no significado dese elemento para a humanidade — nós não vivemos sem ele. É um naipe impulsionador, dinâmico e que fala da nossa criatividade. O que te sustenta? O que te estimula?

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