Porque a morte não parou pra mim

(…)

A lo sonoro llega la muerte

como un zapato sin pie, como un traje sin hombre,

llega a golpear con un anillo sin piedra y sin dedo,

llega a gritar sin boca, sin lengua, sin garganta.

Sin embargo sus pasos suenan

y su vestido suena, callado como un árbol.

Yo no sé, yo conozco poco, yo apenas veo,

pero creo que su canto tiene color de violetas húmedas,

de violetas acostumbradas a la tierra,

porque la cara de la muerte es verde,

y la mirada de la muerte es verde,

con la aguda humedad de una hoja de violeta

y su grave color de invierno exasperado

(…)

Pablo Neruda- Sólo la muerte

Há algumas semanas o andar onde eu moro foi invadido por um cheiro intenso de animal morto.

Ele não começou tão forte, mas foi ficando mais presente ao longo dos dias. Insuportável, desceu pelas escadas, tomou a minha casa, se impôs de uma forma que não dava pra pensar em outra coisa.

Avisamos a síndica, um chaveiro arrombou a porta de um apartamento que eu achava que estava vazio e assim confirmamos o que eu não queria acreditar. Era meu vizinho morto que estava lá, e morto, enfim, já fazia um tempo.

Pensei em mim, na minha mãe que já morreu, no meu pai que vai morrer em breve, e em como esse acontecimento me fez voltar umas dez casas no meu próprio percurso de aceitação do corpo morto. Não da morte, que essa eu sei que sempre vem, mas do corpo, do qual eu sempre fugi.

Tentei fugir do barulho de carros de polícia que tomaram a minha rua, das conversas sobre detalhes da morte do meu vizinho e das pessoas estranhas que entravam no apartamento dele, possivelmente familiares, que tiravam muitas coisas, malas de coisas, quase que pra apagar todo o vestígio de que ele tenha existido.

Nós não éramos próximos, mas eu já tinha conversado com ele algumas vezes. Era um senhor de uns setenta anos, com algum problema mental que eu não conseguia identificar. Mas ele se virava, puxava assunto, reclamava da administração do condomínio e dizia umas coisas sem sentido que não nos davam outra opção além de concordar.

Eu achei que por conta da pandemia ele estivesse com a família, eu soube meio sem querer que ele tinha um filho, e me dava uma certa paz pensar que alguém cuidava dele.

Ter a sua morte descoberta pelos vizinhos por conta do seu cheiro de putrefação é um dos piores cenários de morte que conseguimos imaginar. Ainda que o fim em si possa ter sido pacífico – eu prefiro acreditar que meu vizinho morreu rápido, talvez dormindo.

No meu aniversário deste ano, naquele idílico fevereiro pré pandemia, minha amiga Thaís me deu de presente o livro Para toda a eternidade, da musa da aceitação da morte Caitlin Dougthy. Eu já conhecia essa moça de fama porque ela tem um canal de youtube bem celebrado, Ask a Mortician, onde ela conta seu cotidiano como dona de uma funerária.

Eu fiquei viciada nos vídeos da Caitlin, que conseguiam ser engraçados e respeitosos na mesma medida. Eu me apaixonei pelo primeiro livro dela, Confissões do Crematório, e passei madrugadas insones ouvindo o audiolivro da publicação mais recente, cujo título em inglês é Will my cat eat my eyeballs? Ele foi lançado em português como Verdades do Além-Túmulo.

E sim, seu gato vai comer seus olhos quando a comida dele acabar, e seu cachorro vai comer você até antes, porque ele vai ficar nervoso e não vai saber como lidar.

Eu já vinha me preparando pra fazer o que eu nunca fiz, permanecer ao lado do corpo de uma pessoa querida nas primeiras horas depois de a vida já ter se despedido. Caitlin me convenceu de que isso era bom e reconfortante, e por isso eu pretendia ficar ao lado do meu pai acompanhando o seu fim, sentindo o calor dele indo embora, contemplando o sumir das cores, confirmando que ele tinha mesmo morrido, e não parecia só estar dormindo, como nos faz crer a indústria funerária que transforma os mortos em cera pra contemplação pública.

Espero que isso ainda demore um pouco pra acontecer pra que eu consiga me organizar emocionalmente de novo.

Porque eu não pude parar para a Morte –

Ela gentilmente parou para mim –

Na Carruagem, apenas nós –

E a Imortalidade.

Nós viajamos lentamente – Ela não tinha pressa

E eu tive de pôr de lado

Meu trabalho e meu lazer,

Por Delicadeza –

(…)

Emily Dickinson- Porque eu não pude parar para a Morte

A morte obviamente não parou pra mim, já que eu estou aqui escrevendo esse texto. Não que eu não pudesse já ter escrito antes, ou até depois de morta, como Brás Cubas. Mas o fato é que eu estou aqui bem viva, como você. A morte não parou, mas passou por mim, várias outras vezes, e sem gentileza nenhuma.

Era uma picape com um paredão de som que levantou poeira, buzinou e estacionou na diagonal ocupando duas vagas prioritárias.

Quando eu nasci a família da minha mãe já vivia na sombra da indesejada das gentes. Cinco anos antes, em 1980, um dos meus tios mais novos havia morrido de leucemia. Ele tinha 19 anos. Eu chamo esse rapaz pelo nome mesmo, Eduardo, porque apesar de meu tio ele nunca chegou a ser realmente Tio Eduardo.

A julgar pelo que se falava o único defeito dele tinha sido esse mesmo, o de morrer, porque era a pessoa mais gentil, prestativa e cuidadosa que todo mundo tinha conhecido. 

Quando eu era criança e ia reclamar pra minha mãe que não aguentava mais as brincadeiras idiotas dos meus outros tios ela dizia que eu teria me dado muito bem com Eduardo. Todo mundo se dava muito melhor com Eduardo, várias pessoas choravam só de mencionar o nome dele.

Exceto a minha avó Safira, que jamais tocou nesse assunto comigo.

O que eu acho inacreditável nessa história nem é a aprovação 100% do Eduardo. É o fato de ele ter morrido ignorante de que estava morrendo. Minha mãe disse que ele era desligado pra essas questões de saúde (olha aí um defeito do Eduardo) e o caso dele já era irremediável, o negócio era só esperar pelo fim.

Daí que meus avós resolveram simplesmente não contar.

Ele piorou de uma vez e acabou morrendo mesmo logo depois do diagnóstico, sem reparar nas muitas caras de enterro à sua volta. E a família da minha mãe não era formada por atores muito bons. Mentirosos com certeza, mas convincentes eu acho que não. Eduardo que devia ser fácil de enganar (olha aí outro defeito).

Depois de Eduardo veio uma quase morte, o acidente de carro do meu avô materno, Otávio. Ele teve traumatismo craniano e apesar de todos os esforços nunca se recuperou totalmente. Eu tinha seis meses na época, então as sequelas foram todo o avô que eu conheci. A gente falava dele no passado, como se tivesse morrido mesmo.

Meus diálogos com ele eram “bença vô”, que ele respondia com a frase padrão pra todas as situações “eu lhe mato, sua peste”. Ele dizia isso sorrindo, nem era pra gente se ofender nem nada. Ele tinha crises de agressividade e fugia com frequência, mas no geral era gentil comigo. Acho que ele tinha alguma ideia de quem eu era.

Meu avô só morreu mesmo em 2016, depois da minha avó Safira, de Tia Lucineide, da minha mãe e do meu Tio Geraldo, todos por causas diferentes.

Quando eu recito os meus mortos desse jeito parece que eu vim de uma guerra, um genocídio, alguma coisa assim. Mas as causas foram só, nessa ordem, leptospirose, câncer de ovário, esclerodermia e acidente de caminhão.

O aneurisma do meu avô esperou pacientemente que todas essas pessoas fossem, nas palavras de Machado de Assis, estudar a geologia dos campos santos. E meu avô nunca se deu conta de que tinha enterrado tanta gente assim.

Eu ainda tenho duas tias e dois tios dessa parte da família. Minhas tias entram em contato comigo de vez em quando, mas eu confesso que às vezes esqueço da existência dos meus tios. E nem é porque os lados estejam se evitando, a gente só não tem muito mesmo o que dizer.

Apesar de ter tido tantos parentes passando pro outro lado o único corpo que eu já vi ao vivo foi o de um cara no antigo shopping Iguatemi de Salvador. Ele caiu bem na frente do cinema e deu pra acompanhar o evento inteiro da praça de alimentação, onde eu estava com a minha família. Eu tinha treze anos.

Infelizmente os curiosos chegaram muito antes do socorro, depois veio uma mulher que eu acho que era a esposa, e muito drama se seguiu até que ele fosse levado. Eu acho que ele morreu porque foi tempo demais que ele passou sem parecer respirar, mas sei lá, vai ver deu pra salvar, e aí eu não vi mesmo corpo nenhum.

De qualquer forma me marcou muito a fala de um adolescente que eu espero que seja mais sábio agora: “Ele tinha que morrer bem na entrada do cinema? Agora eu não vou conseguir passar pra ver meu filme”.

Pobre sujeito que morreu atrapalhando o jovem no shopping.

Alguns anos depois eu vi fotos de velórios na casa da mãe biológica do meu pai. Não era a única coisa esquisita daquela mulher nem daquela casa, mas foi chocante pra valer. Hoje eu sei que era um hábito antigo, do tempo em que não se tirava tantas fotos assim, mas foi estranho demais ver aquelas pessoas ali expostas cercadas de flores e de várias outras pessoas.

Acho que foi o que me fez ter certeza de que eu não queria participar de nada parecido, nem como morta nem como visitante.

Naquela época eu ainda não conhecia velórios. Minha bisavó morreu quando eu tinha nove anos, mas eu estava em Salvador na época, e nem sei se a minha mãe teria me levado mesmo se eu estivesse em Itabuna.

Dindinha (como todo mundo chamava minha bisavó) tinha mais de 80 e teve um enfarto depois de meses se recuperando de um derrame, falei um pouco dela em outro texto. Foi quando eu aprendi que ataques cardíacos poderiam vir como dor de barriga.

Ela provavelmente foi velada onde todas as pessoas da família da minha mãe foram veladas. Nem sei se é um lugar muito melhor do que os outros, mas tem uma vantagem imbatível: é bem ao lado do cemitério. Também é pertinho do principal hospital, de onde dá pra ver a funerária e o cemitério.

Não sei se ainda se faz isso lá em Itabuna, mas quando eu era criança eram muitos comuns os cortejos funerários passando pela avenida principal da cidade. Nunca achei que isso fosse uma boa ideia já que pra chegar até o cemitério a gente tinha que subir uma ladeira que não era tão inclinada mas era bem comprida.

Eu acho que empurrar um caixão já é um negócio trabalhoso, ladeira acima então me parecia uma penitência desnecessária. Mas cada um escolhe o jeito de velar os seus.

Exceto que eu nunca escolhi nada quando perdi as pessoas queridas da minha família. Minha avó Safira morreu em 2003, quando eu tinha 18 anos. Foi tudo muito rápido, ela adoeceu e morreu no intervalo de uma semana, de leptospirose, como eu comentei lá em cima. Quando ela foi pra UTI a gente já sabia que era questão de tempo até o hospital ligar avisando que tudo tinha acabado, mas ela morreu e eles só ligaram várias horas depois.

Foi uma das poucas vezes em que eu vi a minha mãe desmoronar completamente na minha frente, e nem era tanto pela dor da perda (que a gente já estava esperando) mas porque ela não teve essas primeiras horas ao lado do corpo. Eu não entendia por que isso era importante, já que não mudava o fato de que, enfim, era só um corpo.

Eu não lembro de detalhes do velório porque eu cheguei depois de todo mundo e saí antes, o que virou meio que o meu comportamento padrão em velórios. Eu lembro que o meu namorado da época queria ir junto comigo e com a minha irmã, daí ficamos esperando ele chegar lá em casa pra gente chamar um taxi.

Só que ele não quis ir de taxi, insistiu que a gente pegasse um ônibus, ele nunca tinha dinheiro e também não queria que se gastasse dinheiro com ele. Só que o ônibus não subia a ladeira do cemitério, então graças a esse cidadão fui eu que paguei a penitência de subir a pé debaixo de sol pra comparecer ao velório da minha própria avó. 

Em 2004 foi a vez de Tia Lucineide, que já estava com câncer de ovário quando a minha avó Safira morreu. Ela tinha 50 anos e era a irmã mais velha da minha mãe. Era a minha tia favorita também. Na época eu fiquei muito perdida e não soube como lidar com a doença, com as internações nem com a mudança drástica de aparência que vem com um câncer agressivo desses.

Eu fiquei com ela algumas vezes no hospital quando minha mãe pedia, mas eu me arrependo de não ter me esforçado mais pra aliviar o fardo que foi cuidar dessa irmã por tantos meses. Uma outra tia minha, e só ela, revezava com a minha mãe. Nessa época eram sete irmãos ao todo, quatro mulheres e três homens.

Era muito importante pra minha mãe estar ao lado de Tia Lucineide no momento exato em que ela morresse e foi o que aconteceu. Minha mãe contava isso com muita satisfação, e esse momento foi o estopim de várias mudanças que já estavam em curso na vida dela.

Minha mãe finalmente teve coragem de deixar meu pai depois de mais de vinte anos de um casamento cansativo pra todos os envolvidos. Ela também resolveu virar batista, o destino final depois de uma peregrinação pelas outras religiões disponíveis em Itabuna. Foram dois anos intensos os que se seguiram, minha mãe nunca foi tão livre e a última coisa que ela queria era ser controlada pelo meu pai outra vez.

Por isso ela pediu que não contássemos a ele que ela não estava bem. Foram meses pra conseguir o diagnóstico, mas a doença avançou bem rápido. Do começo dos sintomas até a morte da minha mãe foram seis meses. No começo a pele tinha manchas estranhas, depois as mãos ficaram rígidas, o frio era constante mesmo no calor de Itabuna e qualquer atividade bem simples exigia um esforço grande.

Não era câncer, mas de uma certa forma a esclerose sistêmica acabou sendo pior do que câncer. Ninguém sabia como agir nem o que esperar, mas chegou o momento em que disfarçar ficou impossível.

Assim que soube do estado da minha mãe meu pai fez o que a gente já sabia que ele ia fazer, assumiu o controle. Ele conseguiu incluir a minha mãe de volta no nosso plano de saúde, muito melhor do que o dela, à custa de muitos gritos pelo telefone. Ele conseguiu transporte aéreo pra Salvador quando ela já estava internada e bem perto do fim.

Ele se envolveu no labirinto burocrático que nos acompanha enquanto cadáveres e fez o possível pra que eu e minha irmã não tivéssemos que nos preocupar com mais nada além da grande desgraça que tinha nos abatido. Sempre que eu me lembro do quanto que meu pai nos protegeu eu sinto mais amor ainda pelo grande manto que ele formou em torno de nós até que o Alzheimer fizesse ele nos esquecer por completo.

Quando a minha mãe morreu meu pai fez o que parecia incompatível com a personalidade dele: ofereceu a outra face. Minha mãe morreu no território da família dela, não no nosso, e foram as regras deles que acabaram prevalecendo.

Pro pensamento maniqueísta dos irmãos da minha mãe era difícil aceitar a presença do ex-marido emocionalmente abusivo daquela pessoa querida que eles estavam perdendo. Eles canalizaram pro meu pai boa parte da raiva que eles sentiam, e muito dessa raiva acabou escorrendo pra mim e pra minha irmã também.

Quando eu pedi que os órgãos da minha mãe fossem doados, os que estivessem em boas condições ainda, isso foi visto como uma inconveniência que só atrasaria o transporte do corpo de volta pra Itabuna. Eu também não queria ir ao velório, não queria ter que performar na frente de desconhecidos e semi-conhecidos que acabaram lotando aquela casa funerária.

Mesmo assim uma amiga da família ligou pra minha casa cheia de ódio perguntando se eu não iria pelo menos me despedir da minha mãe, e ela não se abalou mesmo com o meu choro compulsivo. Foi meu pai quem me convenceu a dar uma passada rápida por lá, acompanhada das minhas amigas, pra evitar mais conflitos com os meus tios.

Eu, meu pai e minha irmã decidimos nessa época que nenhum de nós teria velórios, o da minha mãe já tinha sido traumático o suficiente pra nossas três vidas inteiras. Eu tinha quase 22 anos, Thaís tinha 17, e meu pai tinha 53. Meu pai já estava prestes a apresentar os primeiros sintomas do Alzheimer precoce que segue destruindo o corpo dele até hoje.

Eu e minha irmã nos tornamos animais de mau agouro, a lembrança constante de que não importa quantos lutos uma pessoa já tenha sofrido, ela sempre pode sofrer muito mais. Somos relíquias, entidades estranhas, anomalias num mundo em que as pessoas querem esquecer que a morte é o destino de todos nós.

Consoada

Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
— Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

Manuel Bandeira- Consoada

Se todos nós estamos morrendo, a verdade é que meu pai tem morrido muito mais. Já falei em outros textos dos detalhes de conviver com uma pessoa com Alzheimerde como o luto em relação à morte dele meio que já foi feito, sem gente em volta, nem flores, nem “meus pêsames” e felizmente sem os urubus de velório.

Meu pai se tornou um semi-morto, mais ou menos como meu avô materno foi por tantos anos.

Mesmo assim eu ainda me sinto muito sozinha, como se eu pudesse ser acompanhada mesmo apenas da solidão em si. 

Eu tenho meu marido ao meu lado, mas é difícil pra ele entender a mutilação de tantas perdas. Também tenho a minha irmã, que mora bem perto, mas é um luto só parecido esse nosso, não idêntico.

Eu vi coisas que ela não viu, e vice-versa, e a experiência mais satisfatória que tivemos nos últimos tempos foi uma leitura compartilhada só nossa de Livre, da Cheryl Strayed. É um livro sobre luto que eu recomendo, chorei quando era pra chorar, achei aquela mulher muito doida mas no fim da jornada inteira eu também me senti mais leve.

Por muitos anos eu me culpei por não ter estado ao lado da minha mãe quando ela morreu. Ela estava num hospital em Salvador com a minha tia mais nova enquanto que eu ainda estava em Itabuna, ainda preocupada com monografia e o fim da minha graduação.

Meu pai se preparava pra gente seguir viagem de carro e os gritos que foram pra moça operadora do plano de saúde se voltaram pra mim. Você tá doida, sua mãe tá com uma doença grave, internada, inconsciente, nada mais importa, entre nesse carro agora.

Em minha defesa, eu não sabia que a minha mãe ia morrer logo e a gente nem ia chegar a tempo. E eu tinha conversado com ela por telefone uns dias antes, na última vez em que ela tinha recuperado a consciência.

Quando eu vi numa entrevista com os Príncipes William e Harry o quanto eles lamentavam não terem dado mais atenção à última ligação da mãe, na noite em que ela morreu, eu me identifiquei um pouco, mas ao mesmo tempo pensei que comigo não tinha sido bem assim.

Eu dei muita atenção a essa ligação da minha mãe, mesmo não sabendo que seria a última vez que eu falaria com ela.

Depois que eu li Anxiety: The missing stage of grief da Claire Bidwell Smith muita da minha culpa foi aliviada. Essa situação ideal da pessoa morrendo em volta dos seus entes queridos, com uns últimos sopros de vida só pra se despedir de cada um, isso muitas vezes não acontece.

Tem gente que morre em acidente, como a própria Princesa Diana. Tem gente que morre em avião, e só em solo rola a declaração do óbito. Tem gente que morre em tantas situações variadas que é impraticável que a gente sinta culpa por não ter se tornado a sombra daquela criatura que a gente nem sabia exatamente quando ia morrer, mesmo que ela já estivesse doente.

E hoje nós temos os muitos mortos de Covid, que seguem se despedindo da vida sem poder se despedir de verdade de ninguém.

E lendo a Caitlin Doughty, e a sua defesa de que uma vez morta a pessoa a gente deveria passar um tempinho com ela, eu tive finalmente uma epifania. A insistência da minha mãe de estar ao lado dos seus parentes que morriam eram em benefício dela mesma, não de quem estava de partida pra terra dos pés juntos.

Estar ao lado da minha mãe quando ela estivesse morrendo e nos primeiros momentos depois da morte era uma coisa que claramente ajudaria no meu próprio processo de aceitação, pra ela nem ia fazer diferença. E eu não precisava de um velório pra isso, poderia fazer com calma, até sozinha, por quanto tempo eu achasse necessário.

Considerando que o meu pai vai morrer no meu território é isso que eu pretendo fazer. E se eu não der conta, tudo bem também.

A nossa cultura nos dá formas possíveis de lidar com o luto, e elas são tão variadas como também são diversas as culturas que existem no mundo. Mas eu acho que isso deveria ser um guia, não uma prisão.

Quando meu pai morrer, como eu já disse antes, não vamos fazer velório, vamos encaminhar direto pra cremação. Eu pretendo avisar as pessoas próximas e talvez mandar um telegrama ou uma carta pra pessoas que eu não quero ver nunca mais mas que eu queria informar desse encerramento.

Um dos meus planos é assistir A Primeira noite de um homem, que era o filme favorito do meu pai. Possivelmente vamos ouvir Caetano, Chico, Simon and Garfunkel, essas coisas que ele gostava também.

A Ana Claudia Arantes diz que a morte é um dia que vale a pena viver. Caitlin disse num Ted Talk que estar com um corpo querido nos traz paz em relação a todos os corpos dos quais não conseguimos nos despedir.

Talvez nem falte tanto tempo assim pra conferir se essas duas têm razão. Vamos ver.

Tumba da Emily Dickinson que eu visitei em Amherst em 2019