Enxergando estrias nos prédios

Aqui na minha rua tem um prédio com rachaduras superficiais que foram cobertas com massa corrida e agora parecem estrias. Eu acho legal ficar olhando pra elas, ver onde começam, até onde vão e os desenhos que vão formando no caminho. A gente nunca pensa nas nossas próprias estrias de forma positiva, são tratadas como a evidência do crime que ninguém cometeu.

Imagina, fibras foram destruídas porque a pele esticou demais em pouco tempo e o nosso corpo deu um jeito, isso deveria ser incrível, deveria deixar a gente feliz de pensar que existe uma solução mesmo quando o desafio é muito grande.

Aí o que acontece é justamente o contrário, todo mundo aponta o dedo pra celebridade X que foi flagrada portando o corpo de um ser humano ao invés de uma pele totalmente lisa que não existe em ninguém.

Eu gosto de passar pela fachada de clínicas de estética só pra contemplar a quantidade de procedimentos com nomes esdrúxulos. Eu não acho errado que as pessoas passem por esses procedimentos se elas quiserem, mas é intrigante o tanto de defeitos que vão inventando só pra vender um tratamento supostamente capaz de resolver.

E falando em “defeitos”, esse foi um ano em que eu sofri demais por questões estéticas e nem a desconstrução toda que eu fiz em anos anteriores impediu o meu padecimento.Por causa da dor de cabeça que quase me enlouqueceu a dose dos meus remédios foi aumentada e eu acabei engordando dez quilos em menos de um ano. Eu também passei a ter bruxismo provavelmente por causa de um antidepressivo. Meus dentes da frente se desgastaram muito e eu acabei perdendo uma das minhas marcas registradas que era o meu sorriso.

Eu sei que a única coisa constante do nosso corpo é a mudança, eu sei que eu estou envelhecendo, como todo mundo também, mas sei lá, tem coisa que dói demais. Eu fui pra um dentista, ele consertou o estrago com resina, mas eu não acho que tenha ficado a mesma coisa que era antes.Todo mundo acha que ficou bom, pra quem vê de fora deve ter ficado mesmo, mas o problema é que eu não me reconheço. Até pensei em parar de postar fotos antigas em qualquer rede social porque sempre que elogiam o meu sorriso de antes eu acabo chorando.

Aí vamos agora pro outro problema, o fato de eu ter engordado. Eu já tinha resolvido há muito tempo que eu não iria mais castigar a minha saúde mental fazendo dieta, até porque nem funciona. Eu queria um jeito de me sentir melhor com meu corpo sem que ele precisasse ser oferecido em sacrifício aos deuses do terrorismo alimentar.

Acabei conseguindo no Twitter o contato de uma nutricionista aqui de BH que trabalha com nutrição comportamental e eu acho que foi a minha salvação. Ela não me pesou, não tirou medidas e nem fez aquele drama tradicional com IMC. Eu não me senti um lixo na primeira consulta como já aconteceu antes, culpada de não ter o corpo que uma continha arbitrária aí determinou que eu deveria ter.

A gente chegou à conclusão de que o mais urgente era tratar o meu transtorno alimentar, que é comer de forma compulsiva. Usar comida pra se sentir melhor é uma coisa muito comum, quase todo mundo faz, porque comida é legal, traz conforto, aconchego, lembranças boas e ajuda a criar laços. O problema é que quando eu me sinto mal- por ansiedade, dor, aborrecimento grande- eu como pra me destruir e desviar a minha atenção.

No ano passado eu virei tantos potes de Nocciola (uma Nuttela mais de rico ainda) que hoje eu tenho vários vidrinhos lindos pra fazer compras a granel. Meu colesterol nunca esteve tão alto.

Quando eu como compulsivamente eu não sinto o gosto de nada, nem me sinto feliz de estar comendo. É muito diferente de sair com as amigas pra tomar sorvete, a compulsão é uma coisa que eu pratico sozinha, com culpa e machucando meu estômago. É usar comida como droga mesmo, com o agravante de que a comida tá sempre aí e a gente precisa dela pra viver.

Eu estou aprendendo ainda a saborear a comida, a me concentrar no presente, a avaliar de verdade a quantidade que eu preciso comer e a honrar a minha fome a minha saciedade.Aliás, adoro essa expressão “honrar a minha fome” eu me sinto um samurai, um mordomo inglês, algum personagem que fala pouco e carrega muita dignidade.

Eu passei a comprar uma variedade maior de frutas, e não só as que têm casca e eu não preciso lavar. Eu comprei o livro da Rita Lobo e tô em processo de escolher alguma receita muito simples pra vencer essa resistência que eu tenho de cozinhar. Eu também não estou evitando coisas que eu gosto de comer, se bate a vontade de comprar um chocolate eu compro um chocolate, mas aí eu pego um de boa qualidade, deixo derreter na boca, paro tudo que tô fazendo e aprecio o momento. Daí acaba que eu me satisfaço com uma quantidade bem menor e fico feliz de verdade, não entorpecida como antes.

Meu objetivo era bem modesto, voltar a caber numa saia que eu gosto muito. Hoje eu consigo vestir sem fechar o zíper totalmente, descobri que ele fica paradinho no lugar. A cada semana eu noto que consigo fechar um pouquinho mais, e quem sabe chegue mesmo o dia em que feche por completo. Mas se não fechar tudo bem também. A ironia de procurar uma nutricionista pra emagrecer é que eu acabei aceitando mais o corpo que eu já tenho.

Uma parte importante desse processo foi eu ter voltado a nadar. Eu já fazia hidroginástica há algum tempo e até gostava, mas o esforço não é tão grande e como dá pra conversar durante o exercício a gente acaba ouvindo muita merda também.

Já nadando eu não me sinto só fazendo uma atividade física, eu consigo ter contato com uma versão do meu corpo que eu nem lembrava que existia.Quando eu tinha uns seis anos eu nadava bastante, cheguei até a competir. Meu pai se entusiasmava muito com isso, ele marcava meu tempo quando a gente ia pra piscina do clube, me convencia a treinar a semana toda mesmo quando eu queria ficar em casa assistindo Sessão da Tarde e sempre que alguma nadadora brasileira ganhava medalha ele dizia que poderia ser eu se não tivesse parado de nadar.

A piscina é o único lugar onde eu não sinto meu corpo como sendo pior que os outros, mais dolorido, mais lento, mais frágil. Em poucas aulas eu já voltei a nadar como antes, todos os estilos, e fiquei maravilhada do tanto que eu ainda consigo fazer. Hoje eu sou tão rápida quando o pessoal da piscina maior, que é reservada pros que treinam de verdade.

Nadar me faz lembrar muito do meu pai, e me faz lembrar mais ainda de mim.

Na edição passada eu falei da esperança de resolver a minha depressão só com exercício físico, sem precisar voltar pro psiquiatra e tomar remédio. Acabou que eu tomei remédio sim, ele me ajudou demais, mas hoje eu estou sem ele e acho que consigo dar conta. Ao contrário das outras vezes em que a depressão se resolvia e eu largava tudo que tinha me ajudado, eu estou sendo mais cautelosa, continuo fazendo acompanhamento com o psiquiatra todo mês e sigo na terapia.

Nesse exato momento eu estou numa crise de dor porque ontem foi um dia muito intenso. Mas ao invés de raiva ou tristeza o que eu sinto agora é uma paz impressionante. Eu tenho vontade de pegar meu corpo no colo e ter o maior cuidado com ele, como se fosse uma criança assustada. Eu sempre digo que a obrigação de amar o próprio corpo é pesada demais, mas compaixão e paciência, isso dá pra ter.

Eu penso no meu corpo como o bebê que ele foi, e também a pessoa que foi esticando, mudando, aprendendo, ao mesmo tempo em que juntava cicatrizes, estrias, celulites, espinhas, rugas, cabelos brancos, tudo isso que faz da gente a gente.

E a minha esperança é de que eu consiga viver o suficiente pra ter a chance de cuidar de mim velhinha também.