A tragédia começou na praia

Eu cresci perto da praia, tanto que nem me lembro de quando vi o mar pela primeira vez. Mesmo assim aos oito anos eu não conhecia as caravelas, as primas das águas-vivas que queimam quase do mesmo jeito. São tão bonitas aquelas coisinhas coloridas na areia, foi o que eu e minha irmã pensamos quando resolvemos ir lá pegar.

Nós passávamos as férias em Salvador, e naquele ano éramos muitos, meus pais e gente da família de ambos os lados. E era a irmã do meu pai que nos acompanhava na tal expedição infeliz de pegar caravelas. Olha que lindo tia, parece uma bola murcha de aniversário. É mesmo, Camila, parece mesmo.

As caravelas não queimam se ficarem só na palma da mão, mas eu e Thaís éramos muito pequenas e descuidadas pra isso. Os tentáculos escorreram algumas vezes pelo braço e a gente ia lá e segurava o negócio de novo. Foi o marido de uma das minhas tias maternas que deu o alarme: joga isso no chão agora!

Só depois do grito que eu senti queimar, e o resto foi choro e desespero. Eu ainda chorava em casa, quando o pior já tinha passado.

Essa era uma daquelas histórias de infância que a gente conta tanto que nem parecem mais memórias, mas algo que a gente decorou. Foi assim até três anos atrás, quando fatos novos me fizeram olhar pra lembrança de um outro jeito.

Naquele dia na praia nossa tia paterna nos acompanhava o tempo inteiro, e em nenhum momento pareceu achar que o que a gente fazia era perigoso. Ela nem parecia saber o que a gente segurava, aliás, ela se mostrava tão empolgada quanto a gente.

Por muitos anos eu achei que ela não conhecesse a caravela por ser de uma cidade sem praia, Vitória da Conquista, no sudoeste da Bahia. Mas na época ela era uma mulher de 40 anos, professora primária, mãe de dois filhos, como essa ignorância seria possível?

Seria possível então outra coisa (e só de pensar nisso eu tive uma crise de ansiedade), seria possível que ela tivesse feito tudo de propósito pra nos machucar?

Enganar a minha mãe sempre foi uma tarefa muito difícil. Eu imagino que as mães em geral tenham esse sentido apurado em relação aos próprios filhos, mas a minha mãe tinha em relação a todo mundo. Ela dizia que era mediunidade, espiritualidade, sexto sentido, sei lá, minha mãe adorava uma explicação mística.

O fato é que ela sabia identificar quem não prestava, quem não era o que dizia ser. E esse seria o caso da irmã do meu pai, que vamos chamar de Tia A. Eu não sei se a minha mãe sempre teve essa opinião, mas o acontecimento que ela sempre mencionava era o Natal de 89, o primeiro da minha irmã.

A família do meu pai tinha vindo de Conquista e a família da minha mãe tinha aparecido em peso porque moravam todos lá em Itabuna. Eu tinha quatro anos e adorava tudo, os preparativos em casa, a comida, a farra, e principalmente os presentes.

Eu ganhava muitos presentes nessa época, alguns deles até bem caros. De acordo com os relatos da minha mãe, o rosto de Tia A. se transformava a cada embrulho que eu abria e só então teria ficado clara a inveja que ela sentia de nós.

A minha família nunca foi rica, mas meu pai era fiscal da Secretaria da Fazenda e a minha mãe era nutricionista e trabalhava em vários lugares. Dava pra viver com o conforto que Tia A., uma professora primária que criava os dois filhos sozinha, não tinha.

Por muito tempo eu achei injusta a forma como a minha mãe contava essa história. E daí que Tia A. tinha sentido inveja? É natural, todo mundo já sentiu, e não quer dizer que a pessoa seja ruim.

Eu gostava de Tia A., ela me chamava de Miloca, me emprestava livros com histórias de contos de fadas e me mostrava as atividades de classe dos alunos dela. Eu continuei gostando mesmo quando a minha mãe passou a treinar com a gente as respostas que poderíamos dar quando fôssemos pra Conquista. A intenção era evitar que Tia A. soubesse demais da nossa vida.

Depois da morte da minha mãe eu me aproximei muito de Tia A., porque ela tinha bem mais a ver comigo do que as minhas tias maternas. Foi um erro que me custou bastante, mas hoje eu já não me culpo mais. E eu fico feliz que a minha mãe tenha nos protegido por tanto tempo.

Tia A. era um mês mais velha que o meu pai, mas os dois foram criados como se fossem gêmeos. Na verdade eles seriam tecnicamente primos, mas talvez nem isso. Meu pai foi adotado ainda bebê pela minha avó Izaura, que era viúva e nessa época morava com a irmã dela. E era essa irmã, tia G, que tinha uma filha bebê, Tia A.

Tia G. amamentou meu pai e a própria filha ao mesmo tempo. Ela tinha sido abandonada pelo marido um pouco antes, num daqueles casos clássicos de “foi comprar cigarro e sumiu”. Por isso ela tinha ido morar com a irmã. Eram os anos 50, e ser uma mãe sozinha não era a coisa mais fácil do mundo.

Meu pai e tia A. entraram juntos na escola e se apresentavam sempre como irmãos, porque era assim que eles se sentiam. Nas fotos de infância eles apareciam sempre um ao lado do outro.

Dez anos depois o pai de Tia A. apareceu como se nada tivesse acontecido, apesar de ele ter casado outra vez e ter tido filhos em um outro estado. Tia A. obviamente não tinha nenhuma lembrança do sujeito, pra ela era só um cara estranho e violento que destruiu o arranjo familiar que ela conhecia.

Ele quis seguir com esposa e filha de onde ele tinha parado, Tia G, a esposa, topou, Tia A. queria ficar com a minha avó Izaura, mas foi arrastada pelo pai mesmo assim.

Meu pai ainda correu atrás de Tia A. chamando pelo nome dela, mas foi inútil. Tia A. teve que viver com o pai por mais de dez anos, até ela mesma resolver casar só pra sair de casa.

Acabou que o marido de Tia A. fez a mesmíssima coisa que o pai havia feito com a mãe dela, sumiu sem deixar rastro largando os dois filhos pequenos pra trás. Quando eu era criança o silêncio em torno desse homem era tão grande que eu achava que ele tinha morrido.

Dessa vez foram mais de 25 anos pra volta do marido pródigo, e eu e meu pai ficamos chocados demais com a cara de pau do dito cujo (que depois sumiu de novo). Mas isso não é relevante. O que importa é que a vida de Tia A. não era fácil e meu pai era a única figura masculina com a qual ela podia contar.

Minha mãe achava que Tia A. esperava mais apoio do meu pai do que o que ele de fato deu. Apoio moral e financeiro, principalmente depois que meu pai passou no concurso da Secretaria da Fazenda.

Eu não tenho como saber de verdade, mas os eventos dos últimos anos me fazem crer que a minha mãe tinha razão sim.

Em 2014 meu pai passou a noite na rodoviária de Itabuna. Ele não conseguia lembrar o caminho de casa, sendo que eram só três ruas até chegar lá. O Alzheimer avançava cada vez mais rápido, mas o diagnóstico não chegava nunca. A convivência com a minha irmã já era tão insuportável que eles nem se falavam mais.

Eu acompanhava tudo isso de tão longe, e não sabia mais o que fazer. Não dava pra eu sair de Belo Horizonte a cada nova crise, e na época eu não imaginava como trazer meu pai pra cá.

Foi nesse momento que Tia A. resolveu agir, levando meu pai pra casa dela. E eu aceitei, porque era uma oferta irresistível, tão irresistível como o colorido das caravelas tantos anos antes.

Quando as intenções dela se tornaram evidentes, isso muitos meses depois, um amigo do meu pai disse que tia A. parecia preocupada demais com cartões de banco, que o meu pai ainda conseguia usar mais ou menos. Mas esse amigo não quis falar nada pra não causar intriga entre parentes.

Na minha adolescência eu li Édipo Rei e não consegui entender o drama todo da história. E daí que ele tinha matado o próprio pai e casado com a mãe? Ele não tinha como saber, e uma vez que ele já estava casado e tinha um monte de filhos o mal já tinha sido feito. De que adiantava Jocasta se matar e Édipo furar os próprios olhos?

Só depois dessa história com Tia A. que eu entendi a extensão da culpa e do sofrimento de Édipo. Foram muitos os sinais que ele resolveu ignorar, e pensar que a desgraça tinha se abatido sobre uma cidade inteira por causa dele era realmente insuportável.

Eu escolhi ignorar a preocupação que Tia A. parecia ter com os bens do meu pai. Eu escolhi não ouvir quando a minha irmã e o namorado dela desconfiaram do valor alto que vinha aparecendo nas faturas do cartão de crédito (que continuavam chegando na nossa casa).

Eu fiquei contra a minha própria irmã, eu deixei de contar coisas pra ela, eu fiquei ao lado daquela pessoa que era o mais próximo que eu ainda tinha de uma mãe, uma pessoa que já era adulta quando eu ainda era criança. Tia A. ouvia meus problemas, me contava histórias do passado, e me fazia sentir como se eu ainda tivesse uma família. A mãe dela, tia G. era a única avó que eu ainda tinha, ainda que tia-avó.

E aí veio a confirmação, Tia A. realmente tinha desviado dinheiro das aplicações do meu pai. Primeiro descobrimos uma parte, e depois ficamos sabendo da extensão do rombo, metade do dinheiro que o meu pai tinha juntado a vida inteira. O valor do apartamento em que eu vivo hoje, num bairro de classe média em Belo Horizonte.

Quando confrontada Tia A. resolveu despachar meu pai pra Itabuna, o genro dela levou de carro sem avisar nada a ninguém. A filha dela, minha prima L., me excluiu do Facebook e me bloqueou no Whatsapp logo em seguida.

Eu já sabia que meu pai tinha crises de agressividade, que tinha fugido várias vezes, que tinha se envolvido numa briga na rua a ponto de ir parar na delegacia (felizmente ele sempre saía com a carteirinha da Secretaria, o que impedia uma violência maior da polícia). Eu sabia que Tia A. não aguentava mais, tanto que eu mesma já tinha concordado em trazer meu pai pra uma casa de repouso aqui de Belo Horizonte.

Mesmo assim foi um choque saber que meu pai chegou em Itabuna quase sem conseguir se mover. Segundo o médico esse era um sinal claro de impregnação, que é uma reação adversa do uso de remédios psiquiátricos. Talvez a minha tia estivesse dopando meu pai por conta própria.

Pra Aristóteles um momento importante da tragédia grega era o do reconhecimento, quando o herói trágico ficava sabendo do fato horrível que fazia da história dele, enfim, uma tragédia. Pra que os efeitos certos fossem causados no público (terror e piedade, ao invés de revolta) era preciso que o herói tivesse uma certa culpa nessa desgraça, mesmo que pequena ou indireta. É o tal do erro trágico.

O terror vem porque um erro do herói causou o infortúnio, e a piedade surge porque a extensão do infortúnio foi desproporcional ao erro do herói.

O que se seguia ao reconhecimento era a catástrofe, a conclusão do drama com o pior resultado possível. E catástrofe é uma boa descrição pro ano de 2015, certamente o meu pior até hoje.

Só que tem uma diferença entre a tragédia e a minha vida: a primeira acaba quando o herói chega no ponto mais baixo, mas a minha vida bateu no ponto mais baixo e continuou.

Hoje em dia eu não sinto mais raiva de Tia A., ainda que nunca mais pretenda olhar pra cara dela. Não foi perdão o que aconteceu, mas entendimento, ela se sentiu injustiçada, se viu diante de uma tentação e foi fraca demais pra resistir. Não foi uma ação deliberada pra me atingir.

Essa compreensão me trouxe paz, e me fez deixar de pensar que eu sou uma pessoa idiota e fácil de enganar.

O processo segue na justiça até hoje e já acharam algumas partes do dinheiro. Ainda é pouco, mas eu não tenho pressa. Eu sei que ela não se defendeu das acusações e o processo segue à revelia.

O que me deixa mais triste é que Tia G., a minha tia-avó tão velhinha que deve ter sido inocente nessa história toda, vai morrer sem rever meu pai. Ou meu pai vai morrer sem encontrar com ela de novo, o que acontecer primeiro.

Depois da morte da minha mãe eu nunca mais consegui gostar da família dela do mesmo jeito, foi desrespeito demais naquela época de luto pra eu conseguir esquecer (quem sabe um dia eu fale disso). Eu não imaginava que a mesma perda dupla iria acontecer com o meu pai.

Mas é a vida, um dia seus pais morrem, no outro dia seus parentes te roubam, nada muito diferente de Hamlet ou de O Rei Leão.

E eu também tirei duas lições disso tudo. Eu nunca vou saber de verdade se Tia A. agiu de propósito em relação às caravelas, porque algumas perguntas acabam mesmo ficando sem resposta, e tá tudo bem.

E a outra lição, jovem, é que as mães têm mesmo essa mania irritante de estarem sempre certas, ainda que depois de mortas. Não sei se é animador, mas é a pura verdade.