Quando meu pai me esqueceu

Aconteceu sábado passado, mas eu já desconfiava há algum tempo. Chamei meu pai de pai, e ele não entendeu. “Pai?” foi a resposta-pergunta que eu ouvi. Tentei contornar dizendo meu nome, mas não fez diferença. Desisti e resolvi só me concentrar na tarefa de conduzir até o carro uma pessoa que anda com dificuldade e não consegue entender muitos comandos.

Acompanhar meu pai ao médico hoje em dia é uma missão até bem pacífica. É tão diferente daquele dia do diagnóstico, quando eu senti o mundo inteiro sumir. Tem um filme francês, que eu não vou dizer qual é pra não dar spoiler, em que certa personagem descobre que tem uma doença grave na rua, de um médico que nem sai do carro pra dar a notícia.

Em uma das últimas cenas o foco fica no carro do médico, e a personagem lá no fundo vai se tornando uma imagem borrada até desaparecer.

Quando um outro médico disse que meu pai tinha Alzheimer eu me senti só um borrão também. Já faz três anos, e eu me lembro tão bem. Eu mal sabia onde pisar, eu via tudo trocado e se mexendo na minha frente.

O consultório era num andar muito alto, e o elevador descia e não parava nunca, ele descia pra sempre, a gente ia passar o resto da vida dentro daquele elevador, meu pai iria piorar e se acabar ali na minha frente antes que o elevador chegasse ao térreo.

Quando saímos eu vi a fila de taxis, e ela me parecia infinita, eu não conseguia andar até chegar ao carro da frente, era como se eu e meu pai estivéssemos em areia movediça. Era como se tivessem colocado espelhos de um lado e de outro, e eu sentia como se houvesse taxis até o fim do mundo, e eu iria andar até o fim dos tempos.

Eu sentia muito medo de como seria a minha vida dali em diante, de como seria quando ele piorasse muito, de como eu me sentiria quando ele esquecesse quem eu sou.

Tudo isso aconteceu, e eu me sinto bem em paz.

Não estou dizendo que eu estou em paz em relação à minha vida, só eu sei como os meus problemas brotam do chão feito formigas num piquenique de desenho animado, mas lidar com a piora do meu pai já não é mais o pior deles.

Quando a gente ouve uma notícia horrível de algo que vai acontecer no futuro, a tendência natural é entrar em desespero. A gente imagina que o tal evento futuro vai acontecer com quem a gente sente que é no presente, mas não, ele vai acontecer com a nossa outra pessoa, aquela que já estava mais ou menos preparada pra isso.

Ou pelo menos eu estava, porque tenho passado esse tempo todo fazendo terapia e escrevendo.

Quando meu pai não soube quem eu era, quando não reconheceu o meu nome ou o da minha irmã, quando eu perguntei se ele tinha filhas e ele respondeu que não tinha, eu senti alívio. Aquele que foi um dos meus maiores medos nesses três anos tinha acontecido, tinha passado, e eu já podia viver sem ele.

O pior do monstro nem é o monstro, é a antecipação da chegada dele. O que mata a gente é mesmo o suspense, como já nos alertava o velho Hitchcock.

Agora eu posso visitar meu pai com calma, sem me torturar pensando no quanto ele sofre por não estar com a família. Hoje em dia ele fica confortável com qualquer pessoa que seja gentil e puxe conversa.

Eu sei, eu também fui treinada pra pensar no quanto esse momento seria sofrido. Eu chorei vendo Brilho eterno de uma mente sem lembranças, e naquela parte do desenho em que o Wall-e esquece a Eva, e quando o Bastian perde a memória à medida em que vai usando os poderes em História sem fim 2.

Mas é isso né, quando acontece na vida às vezes é diferente.

Ou sei lá, talvez tenha sido o meu guia distante, o Dr Oliver Sacks, que tenha me confortado nesse momento. Eu tava lendo um livro, o meu primeiro dele, o famoso O Homem que confundiu sua mulher com um chapéu.

Se você nunca ouviu falar, é uma coletânea de casos clínicos impressionantes que o Oliver Sacks foi tratando na sua rotina de neurologista. Tinha o cara que não conseguia mais reconhecer rostos, e confundia pessoas da família com objetos inanimados. Tinha a mulher que perdeu a noção do próprio corpo e só pensando muito pra conseguir mexer cada dedo. Tinha também a mulher surda que passou a ter alucinações auditivas. Tinha muita coisa.

E tinha o cuidado do Oliver Sacks em humanizar os pacientes, de forma que as pessoas e suas histórias fossem mais importantes do que a natureza dos seus transtornos. A gente termina o livro com aquela sensação boa de que o ser humano foi feito pra conseguir viver na adversidade desde que bem assistido e bem amparado.

Eu queria que o Oliver Sacks tivesse sido o meu médico, mas eu já fico feliz por ele ter existido. Porque o mundo é um lugar estranho e bizarro, mas pode também ser incrível dependendo de como a gente olhe pra ele.

Mas sério, eu não consigo parar de pensar em quanto será que era a consulta com o Dr Sacks. Será que era muito mais do que a fortuninha que a gente paga com o psiquiatra do meu pai? Será que era mais do que a neuro em que eu vou semana que vem?

Será que essa dor de cabeça horrível que eu passei a ter há quatro meses, e que veio acompanhada de visão borrada, na verdade é um desses casos mirabolantes que dariam um episódio inteiro de House?

Só esperando mesmo pra saber, e quem sabe eu até não escreva um livro inteiro só com as minhas curiosidades médicas. Eu só espero mesmo é que um dia eu consiga ficar em paz com elas também.

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