Parece azar mas é só depressão?

Eu faço diário todos os dias. Na verdade nem todos os dias, às vezes eu fico cansada, ou o remédio pra dormir bate super rápido, o que às vezes é legal porque as entradas ficam surreais e eu dou altas risadas no dia seguinte. Daí que eu sei quando os textos começam a ficar muito esquisitos, do tipo “fiquei o dia todo deitada hoje”, ou “vontade de fazer nada por muito tempo”, ou “eu queria dormir e nem acordar mais”.

Pra mim isso acende um daqueles alarmes de filme catástrofe, hora de pegar os salva-vidas, os coletes à prova de balas, a munição, colocar em prática o treinamento, essas coisas. Só que se for um incêndio a fumaça pode ter chegado em mim antes e eu posso ficar tonta demais pra fazer essas coisas. Talvez nem seja uma fumaça, talvez o torpor sempre tenha existido, eu que não percebia antes. Vamos ficar aqui deitados esperando o monóxido de carbono fazer o trabalho dele.

Antigamente as pessoas tinham muita vergonha de falar em depressão, o que era uma merda. Hoje em dia cada vez mais gente tem exposto os seus problemas de saúde mental, o que é ótimo, mas pode ser uma merda também, porque de repente você vira uma espécie de referência pros problemas dos outros. Eu não sou psiquiatra, nem psicóloga, nem guru de autoajuda, e olha só, nem mesmo uma charlatã que pode curar todo mundo com os poderes da química quântica.

Tudo o que eu posso fazer é contar um pouquinho do que eu aprendi sendo eu, e o que eu estudei, porque eu sou eu e não consigo ficar longe do PubMed. Só que as coisas que as pessoas me contam me afetam mais do que elas percebem, e mais do que eu gostaria.

Por favor, não me fale mais do chef que se matou, não dê detalhes, não fale da estilista, do milionário de Belo Horizonte que se suicidou na BMW ou de todos os estudantes da UFMG que foram sucumbindo um por um.

Posso não aparentar, mas eu tenho muito medo de ser um deles algum dia.

Eu já meio que me arrependi de ter começado esse texto, mas agora já era. Eu queria conseguir chorar, muito, mas chorar faz doer os meus olhos, e eles já doem tanto, parte por esse bruxismo com disfunção temporomandibular que me incomoda do pescoço até as têmporas.

Essa semana eu também vou voltar em um oftalmologista que eu apelidei carinhosamente de Dr Apocalipse porque ele me fez chorar por três dias seguidos depois de dizer que os problemas de visão que me apareceram há quatro meses são resultado da cirurgia refrativa que eu fiz há dez anos. Culpa minha, portanto.

Ele também disse que eu tomo remédios demais, questionou eu ter tido depressão “só” por ter cuidado do meu pai com Alzheimer e mostrou na topografia de córnea o quanto meu olho esquerdo é zoado, e eu meio que entendi antes de ele explicar, porque eu jogava golfe no Wii e conheço o esquema de cores de topografia.

Meu olho direito é um campo de futebol padrão FIFA, o esquerdo é um terreno acidentado de lama depois da chuva.

Dr Apocalipse acha que eu devia usar uma lente de contato rígida só no olho esquerdo, o que é meio ridículo, porque eu nunca ouvi falar de gente que use correção em um olho só. E quando eu fiz a piada de que eu deveria usar um monóculo como um senhorzinho do século XIX, talvez até comprar uma bengala, ele não riu.

Ele. Não. Riu. De. Uma. Piada. Boa.

Essa foi a maior ofensa que ele me fez naquela tarde de tortura, mas ainda assim eu vou voltar nele, porque além de masoquista eu também tenho medo de ter alguma doença progressiva de visão e eu não confiei no oftalmo otimista em que eu fui depois e que me recomendou só óculos.

Minha psiquiatra e a minha psicóloga resolveram ficar grávidas ao mesmo tempo, e entrar em licença maternidade ao mesmo tempo também. Achei que elas pudessem ter ficado grávidas uma da outra, mas na verdade elas nem se conhecem.

Isso não seria problemático se eu não estivesse numa fase de troca de medicação, o antidepressivo que eu tomava antes era venlafaxina, que talvez tenha me causado o bruxismo. Ou talvez não, mas nessa guerra de informações desencontradas eu resolvi trocar o remédio e acrescentar mais um tijolinho nessa grande estrada sem rumo que é a minha vida.

O meu atual psiquiatra é legal e especializado em crianças, o consultório dele é cheio de brinquedos, e eu reencontrei um macaquinho que eu tinha e adorava na infância, o Murphy. Mal posso esperar pra voltar e brincar com o Lion do Thudercats, que ele também tem.

Levei um mês pra conseguir vaga com a minha atual psicóloga, que foi um docinho de coco na primeira sessão mas eu tenho medo de levar tanto tempo falando das grandes tragédias da minha existência que não sobre tempo pra falar do quanto que eu me sinto perdida agora.

Hoje eu acordei muito mal, depois de ter passado a tarde de ontem bem mal, mesmo tendo passeado por partes bacanas da cidade. Minha esperança era o horário que eu tinha hoje com a psicóloga, que eu na verdade não tinha, porque eu marquei errado na agenda e a sessão era amanhã. Isso menos de um mês depois de ter cometido o mesmíssimo erro no aeroporto de Confins, só descobrindo na hora do embarque que o vôo era no dia seguinte.

Eu sei que eu não estou sozinha, mas eu me sinto, muito. Eu sei que a minha vida não é a pior vida possível, mas neste exato momento ela parece ser sim. E eu sei que uns 30% dos meus problemas têm alguma solução, mas eu me sinto melhor aqui nessa cama, suando embaixo de 2 edredons e adiando o momento de ir ao banheiro pra não ter que olhar pro lado de fora.

Talvez exista algum consolo pra mim hoje ainda, mas eu prefiro só tomar mais alprazolans e continuar dormindo. Nada como resolver uma situação fazendo com que ela fiquei ligeiramente pior.

Pelo menos até conseguir conversar sobre ela amanhã.