Sobre monstros e armas

Alguns monstros não morrem nunca. Você atira neles, esfaqueia, joga do alto de um prédio, taca fogo e mesmo assim eles aparecem bem serelepes no filme seguinte. Toda mocinha que se preze tem que manter a arma debaixo do travesseiro, mais ainda se o monstro dela é uma estrela de várias sequências tipo Sexta-feira 13 ou Halloween.



A minha depressão é meio como o Jason, ou Freddie, ou Michael Myers, sempre pode voltar e não dá mais pra cantar vitória antes do tempo. Não dá pra sossegar e guardar as balas. Eu detesto essa coisa de armas, mas você entendeu, na verdade eu estou falando de remédios.

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Pra muita gente os remédios psiquiátricos é que são o verdadeiro inimigo. Em parte eu nem culpo, já que eles podem ser como um tiro de canhão mesmo. Um tiro de canhão pra acertar aquele navio cheinho de piratas, mas ainda assim, é chato carregar um canhão. Já viu o tamanho daquela bala?

Eu adoro ler bula de remédio. Minha parte favorita é a dos efeitos colaterais, acho a mais emocionante e detesto quando os médicos vão adiantando e dando spoilers. As melhores bulas são as que dão a frequência de cada efeito, porque na parte dos muito improváveis aparecem as coisas mais loucas, tipo, sei lá, entrar em coma.

Parafraseando aquele cara do Cinquenta Tons de Cinza, eu tenho gostos muito peculiares, você não entenderia.

Na minha primeira crise depressiva eu tinha 18 anos, e eu nem sabia direito o que era depressão. Porém nerd que sou eu pesquisei os meus sintomas todos e resolvi procurar um psiquiatra. Não foi fácil, minha família foi contra, e só muito a contragosto me levaram a um médico.

O mesmo médico que o meu pai tinha consultado anos antes.

Eu venho de uma longa linhagem de pessoas deprimidas, e é um negócio tão firmeza no nosso DNA que atingiu até meu pai, adotado quando ainda era bebê. Quase todos os irmãos biológicos dele têm depressão recorrente, e meu pai ainda ficou com o TOC da mãe dele.

Mas tomar remédios? Não, meu pai nunca passou da primeira semana com antidepressivo, deu tempo nem pro negócio funcionar.

Só que comigo não, violão. Pode mandar bala, quer dizer, remédio.

O primeiro que me passaram foi a fluoxetina, o famoso Prozac, a pílula mágica da felicidade que entrou pra cultura pop logo depois de ser lançada em 87. Até hoje é a droga de entrada da maioria das pessoas no mundo dos antidepressivos e é a mais vendida e mais famosa nessa categoria.

Agora pausa para um pouco de história.

Antes do Prozac depressão era uma coisa meio desconhecida do grande público. Não que faltassem pessoas deprimidas, mas elas só “sofriam dos nervos”, “precisavam descansar”, essas coisas. Os remédios mais usados eram os tricíclicos, chamados assim por terem três anéis na sua estrutura (tem os tetracíclicos também, que possuem quatro anéis).

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Antidepressivos triciclicos: tipo esse desenho, só que mais ou menos
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Ó eles aí

Os antidepressivos tricíclicos existem desde a década de 50, e são bastante efetivos. O problema é que eles podem ter uns efeitos colaterais difíceis de tolerar (visão turva, boca seca, problemas de coração) e em caso de overdose (estamos falando aqui de pessoas com depressão, potencialmente suicidas) é caixão e vela, eles matam rapidinho.

Daí que fica esse problema, como tratar pessoas sendo você pode deixar a vida delas bem pior a curto prazo e ainda dar na mão o que elas podem usar pra se matar?

Tinha que ver isso aí, e eles viram.

* Entra o Prozac acompanhado de aplausos e gritinhos*

A fluoxetina/Prozac é um remédio da classe dos Inibidores Seletivos de Recaptação de Serotonina (ISRS para os íntimos). Serotonina é um neurotransmissor, a substância que fica entre um neurônio e outro e faz a comunicação entre essas células, se a recaptação dela é impedida, então ela se acumula e isso é legal. Existem vários outros neurotransmissores, mas eu não vou falar deles, porque isso aqui já tá virando aula de química.

Tem esse videozinho legal que explica algumas coisas.

Os antidepressivos tricíclicos agem em mais de um neurotransmissor, atingindo também receptores inocentes que não têm nada a ver (daí o perigo e o montão de efeitos colaterais). A fluoxetina é seletiva, age só na serotonina, como se fosse um sniper, mirando e acertando num alvo pequeno, com menos chance de atingir transeuntes.

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Tricíclicos são tipo o Rambo descarregando uma metralhadora na galera

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A fluoxetina tem menos efeitos colaterais que os tricíclicos e é mais segura em caso de superdose. Parecia um sonho, o de curar todos os depressivos do mundo com o mínimo de efeitos. Fluoxetina podia ser dada pra crianças, idosos, teens, mulheres grávidas, todo mundo.

Pra explicar o lance da depressão pra um público maior e justificar o hype, rolou um marketing bem intenso. A depressão seria uma doença (um lance biológico) causada pela deficiência de serotonina. Se a fluoxetina aumenta a serotonina e cura depressão, então a depressão é causada pela deficiência de serotonina ou outros neurotransmissores, né?

Né?

Fala a verdade, você já saiu por aí repetindo essas coisas, não?

Tem só um problema: até hoje ninguém sabe direito como antidepressivos resolvem depressão. Nas bulas você vai encontrar muito a expressão “acredita-se”, ou então “o exato mecanismo de ação desse medicamento é desconhecido”.

O lance da deficiência de neurotransmissores é uma hipótese, existem outras também. Hoje a mais aceita é a de que o remédio estimula o nascimento de novos neurônios no hipocampo (a parte do cérebro que transforma memórias recentes em memórias de longo prazo). Se fosse só uma deficiência de serotonina e etc, como explicar o fato de que antidepressivos levam semanas pra funcionar, muito depois de os níveis de neurotransmissores terem aumentado?

Pode ser justamente o tempo que os novos neurônios levam pra nascer (neurogênese). Exercícios também ajudam a curar depressão e também promovem neurogênese. Coincidência? Eu não tenho a menor ideia.

Voltemos à minha eu do passado, que tava lá depositando as suas esperanças na fluoxetina…

…pra quebrar a cara. Pra mim foi o mesmo que água, sem efeitos colaterais, mas sem melhora também.

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Uma coisa que o pessoal acabou descobrindo depois da euforia de lançamento da fluoxetina é que ela nem era tão efetiva assim. Daí que acabaram surgindo outros remédios da mesma categoria, também inibindo a recaptação de serotonina, às vezes mais, às vezes menos, e com outras diferenças que eu não lembro agora e tenho preguiça de procurar.

E antes de prosseguir, um recado. Por favor, não passe vergonha dizendo que antidepressivos são uma maquiagem pra tristeza, uma alegria falsa, um jeito de fugir dos problemas. Em quem tem depressão clínica (ou ansiedade, ou TOC), eles podem funcionar ou não. Quem não tem nada só vai ter os efeitos colaterais mesmo. Depressão é depressão, tristeza é tristeza, homem é homem, menino é menino, e por aí vai.

Pode não ter exame pra diagnosticar depressão, mas uma pessoa psiquiatra competente é capaz de identificar direitinho quem precisa de ajuda médica.

Mas enfim, depois da fluoxetina me mandaram pra outros remédios da mesma classe, sendo que nenhum deles funcionou. Aí depois de meses e meses resolvi sugerir um remédio eu mesma, de outra categoria. Era o cloridrato de milnaciprano, um remédio mais recente, inibidor de recaptação de serotonina e noradrenalina.

Funcionou, e assim tivemos o fim da primeira crise.

Porém pouco mais de dois anos depois a depressão tava de volta. Dessa vez ela durou mais e resistiu a mais remédios, tantos tantos que tivemos que apelar.

Lembra dos tricíclicos, aqueles velhos com um monte de efeitos colaterais? Pois eu fui parar justamente em um deles, a clomipramina, na versão de marca, Anafranil.

Foi esse o remédio que haviam receitado pro meu pai, principalmente por causa do TOC, e ele não havia aguentado. Eu tava morrendo de medo, ainda que disposta a aceitar qualquer coisa pra sair do estado em que eu me encontrava.

Até que eu não achei tão ruim, apesar dos efeitos colaterais. Minha boca ficou super seca, saliva ficou quase inexistente, e eu chegava a sonhar que tava bebendo água. Acordada eu bebia toda a água do mundo e mesmo assim não aliviava.

Intestino parou total, e eu passei a viver de laxante em laxante. Eu sei que isso não é recomendável, mas mesmo aumentando em muito a quantidade de fibra que eu comia tudo continuava na mesma.

Esses efeitos são chamados de anticolinérgicos. Lembra que eu falei que os tricíclicos também agiam em receptores inocentes? Nesse caso aí são os receptores de acetilcolina, fazendo com que esse esse neurotransmissor circule menos, e as funções dele fiquem prejudicadas. Uma dessas funções é controlar o movimento de músculos involuntários, no caso, os do sistema digestivo, daí a constipação e a boca seca.

Clomipramina ainda pode dar um monte de outros efeitos colaterais, esses aí foram só os que eu tive.

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Bloqueando receptores de acetilcolina os músculos que ela controla não funcionam direito

Nessa época eu fui pro casamento de uma amiga de faculdade, e minha barriga quase não coube no vestido que eu tinha experimentado semanas antes.

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Eu com 20 aninhos em 2005, barriga maior que a da noiva grávida

Mas a essa altura você deve estar se perguntando: valeu a pena esse esforço todo?

E eu digo que valeu sim, valeu demais. Não só essa crise passou como eu fiquei dez anos sem ter mais nada. Mesmo minha mãe tendo morrido em 2006, mesmo eu tendo comido o pão que o diabo amassou em 2007 tentando fazer mestrado numa cidade hostil.

Eu sei que eu pareço simplificar demais o problema da depressão. E eu não estou dizendo que ela só pode ser resolvida com remédio, dá também pra fazer terapia, exercício e mudar seu estilo de vida. Porém pra mim só dá pra matar e deixar bem morta tomando antidepressivo.

Ah, acho que eu não contei aqui ainda, mas a minha depressão tem nome, ela se chama Solange. Acho útil identificar o inimigo.

Solange resolveu voltar no primeiro semestre de 2016. A vida era bem barra naquele tempo. O diagnóstico de Alzheimer do meu pai tinha chegado um ano antes e eu passei pelos piores momentos da minha vida. Acho também que ter tentado cuidar do meu pai sozinha em casa me deixou com um certo stress pós traumático. Nunca recebi esse diagnóstico, mas acho que terror noturno, insônia, sonambulismo e crises de pânico não saem acontecendo assim, a troco de nada.

Eu tenho um texto dessa época que descreve melhor como eu me sentia.

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Prazer, Solange

Nessa época eu tentei alguns antidepressivos, mas todos eles me faziam passar muito mal, até a fluoxetina. Quando eu era mais nova eles não me davam suor frio e taquicardia, mas dessa vez eles me fizeram parecer uma viciada em heroína com abstinência.

Tentei resolver sem remédio, só fazendo mais exercício e seguindo na terapia. Funcionou por uns meses, mas no fim desse mesmo 2016 eu tive crise de novo.

Receitaram pra mim a venlaflaxina, um daqueles remédios que apareceram depois dos inibidores seletivos de recaptação de serotonina e atuavam em dois neurotransmissores, à moda dos tricíclicos.

As primeiras semanas foram de puro inferno, eu não conseguia respirar direito, meu coração parecia que ia embora e eu sentia o tempo todo como se estivesse em um sonho. Mas eu insisti e o negócio funcionou lindamente.

Quem nunca teve depressão não sabe a sensação de quando ela finalmente vai embora. É como olhar a morte bem nos olhos e ver que ela resolveu seguir outro caminho.

Em 2017 eu recebi o diagnóstico de fibromialgia, depois de sofrer com dor por muitos meses. A venlaflaxina não segurou a onda e eu pedi pra trocar por duloxetina. Acho que eu não contei ainda, mas antidepressivo também serve pra diminuir a sensação de dor, nosso cérebro funciona desse jeito super maluquinho mesmo.

Porém fizemos merda de trocar a venlaflaxina por duloxetina, que é mais fraca. Aí Solange voltou deeee novoooo.

Nessa cartinha aqui eu ainda tava na fase da negação

Mas nessa aqui eu já tava em tratamento venlaflaxina de novo, que funcionou rapidão.

Na minha última newsletter eu ainda tava animada e as coisas pareciam ir bem. Só que eu já estava sentindo uma dor de cabeça absurda que às vezes parecia um AVC chegando. Eu passei a ter fotofobia, não conseguia ler legenda direito no cinema, fugi das atividades físicas que me faziam bem e amaldiçoei a minha sorte mais uma vez.

Eu não aguentava mais ter que peregrinar de médico em médico pra nenhum deles saber o que eu tinha. Até que um dia Lucas me ouviu fazendo um barulho à noite e eu passei a considerar bruxismo.

Bingo! Era bruxismo mesmo, fui numa dentista que confirmou o desgaste dos meus dentes.

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Você sabia que bruxismo pode ser um efeito colateral de antidepressivo? Mesmo tendo tomado tantos eu nem fazia ideia. Mesmo assim pedi pra minha médica trocar a minha querida venlaflaxina (saudades miga) por um remédio que reduzisse a dor e o ranger de dentes.

E essa, meus filhos, foi a história de como eu passei a tomar antidepressivo tricíclico DE NOVO. E vou ter que tomar por mais de um ano, que eu não tenho estrutura pra ver Solange outra vez.

Comecei a nortriptilina tem quase duas semanas, acho que o pior até já passou. Mas usar o banheiro de forma regular voltou a ser aquela lembrança feliz de tempos passados. Saudades, intestino reloginho.

Solange pode ser difícil de matar, mas eu descobri que eu também sou. Ela pode voltar no filme seguinte, e em todas as outras sequências, mas eu também vou estar lá, com revólver, tocha, pedra, bastão de baseball, tudo que eu tiver na mão.

Eu sou a mocinha que sempre vence o monstro, eu sou a Jamie Lee Curtis em Halloween, a Neve Campbell em Pânico.

Sim, eu sou a final girl, aquela que sobrevive.

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Só lembrando que as depressões não são todas iguais, eu tô falando só da minha. Pelo amor da deusa, não desqualifique a experiência de ninguém por ser diferente dessa que eu contei aqui.

Se você tem o mesmo problema, ou conhece alguém que tenha, buscar ajuda profissional é sempre o melhor caminho.

E aqui vão outros textos meus mais ou menos sobre o mesmo assunto.

Uma animadora história de depressão

Qual o problema da solução fácil

Tem esse que não é meu, porém é bacana e vale a pena ler

Antidepressivos funcionam, segundo o maior estudo sobre sua eficácia

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