Natal, bobagem!

Quando eu tinha sete anos eu comecei a desconfiar que aquela história de Papai Noel não fazia sentido nenhum. Nossa casa era completamente trancada à noite, meu pai tinha TOC (de verdade) e verificava todas as portas milhões de vezes. E nós tínhamos grades nas janelas, impossível que alguém passasse.

Sobrava só mágica mesmo.

Naquele ano eu não havia recebido presente na manhã do dia 25. Nós estávamos em Vitória da Conquista, na casa da família do meu pai, e minha mãe queria evitar a fadiga de me dar um presente caro na frente daquele pessoal que ela odiava.

Aí ela me disse que o Papai Noel não tinha conseguido me encontrar em outra cidade e tinha deixado meu presente lá em Itabuna, pra quando eu voltasse.

Mas ué 

Cadê o milagre do rastreamento? Ele não conseguia entregar presentes pra todas as crianças do mundo na mesma noite? Ele não era tipo Deus, que chegava em todos os lugares ao mesmo tempo?

Tinha alguma coisa errada com aquela história.

Eu pensei, pensei, e resolvi mandar aquele papo reto pra minha mãe:

“Mãe, Papai Noel existe mesmo?”

Ela suspirou, riu e me respondeu sabiamente:

“Se você está perguntando é porque já sabe a resposta”

Eu concluí que não existia, mas guardei o pensamento pra mim e ganhei presente por mais um ano. Minha mãe e suas conversas enigmáticas que permitiam que a gente se fizesse de desentendida.

E sim, muitas vezes quando a gente pergunta é porque já sabe a resposta. Mesmo que a gente não saiba que sabe, ou finja não saber, ou não queira assumir o ônus que o conhecimento traz.

Há um tempo atrás eu dizia que não estava deprimida, apesar de passar o dia todinho descrevendo sinais clássicos de depressão: cansaço, irritabilidade e preferência pelo isolamento.

Junta também aí na conta problemas de cognição (reprovei em várias matérias de faculdade porque não consegui escrever os trabalhos finais), de sono (tive que aumentar dose de remédio pra conseguir dormir) e de autoimagem (eu passo o dia todinho me sentindo um lixo).

Essa é a minha quinta crise depressiva, a segunda só esse ano. 2017 me encontrou deprimida e vai me deixar deprimida também, virou a minha nova tradição de Réveillon, junto com lembrar quantos anos faz que a minha mãe morreu. Lá se vão onze anos desde aquele 31 de dezembro de 2006.

Felizmente eu reconheci a treta e já comecei o tratamento.

Esse pensamento de que minha vida não tem rumo vai passar.

Junto com a vontade de morrer que vem todos os dias.

E a certeza de que todo mundo me odeia e ficaria melhor sem mim.

E a sensação de que tudo o que eu faço e digo é errado.

E o sorriso que vem com alegrias tão pequenas, e que me lembram das alegrias maiores que eu não tenho, e eu me sinto uma claque humana, rindo num sitcom sem graça, porque minha boca é tão grande, sorrir é quase automático e dá menos trabalho que chorar.

Tudo isso vai passar. Já passou antes e vai passar de novo. Eu não levo mais a sério as vozes na minha cabeça, porque como diria um conhecido, eu não negocio com terroristas. 

Deixa o resgate acontecer que a gente conversa direito.

Podia ser esse o meu milagre de Natal, né? O remédio podia bater até o dia 25. Quem sabe assim eu até voltasse a gostar dessa época.

Mentira, detesto dezembro, pra mim o entre festas é tipo um entre guerras. Mas eu queria voltar a ter o prazer de odiar esse época estando sã.

Quem sabe ano que vem.

                                                           ***

Eu detesto época de Natal, mas gosto de filmes, desenhos e histórias natalinas em geral, porque eu sou louca, e isso já ficou provado. E mais do que tudo eu sou alucinada pelo homem que nasceu há muito tempo tornou toda essa insanidade dezembrina possível.

Não, não me refiro ao grande JC, que o meu ateísmo não permite.

Falo de Charles Dickens, o muso vitoriano, o divo dos cliffhangers, o imperador da ficção serializada, defensor das crianças exploradas e dono desse meu coração folhetinesco.

Se não te apresentaram a ele, eu apresento agora. Dickens nasceu em 1812, numa Inglaterra que não era, assim, o melhooooor lugar pra morar se você fosse pobre. Naquele tempo tinha muita Revolução Industrial pra pouca legislação trabalhista, mais ou menos como o Brasil vai ser em breve, e da criança à mulher grávida, tava todo mundo sujando a cara numa chaminé de fábrica por mais horas do que eu gostaria de contar.

O próprio Dickens teve que trabalhar quando era criança, e depois que ele virou escritor ele denunciou pra todo mundo as condições bizarras em que vivia a classe trabalhadora inglesa. 

Mas ele fazia isso enquanto criava umas tramas novelescas, cheias de personagens maravilhosos, com suspense e muito, muito humor. Sério, tem umas passagens em que você não sabe se ri ou se chora.

Mas eu falava de Natal, pois então. Antigamente a galera não era tão chegada assim em comemorar Natal, pelo menos na Inglaterra e nos Estados Unidos. Foi Dickens quem veio com essa história de sentido da data, com tudo branquinho de neve, famílias reunidas e a pergunta “o que você fez?”, muito antes de John Lennon ou Simone.

E tudo começou com O Conto de Natal, aquela história que ninguém precisa ter lido pra conhecer. Quem no mundo Ocidental não é íntimo de Scrooge e os três fantasmas?

E mesmo não sabendo os nomes, essa estrutura de ver o que foi a sua vida e o que ela poderia ser no futuro alternativo já virou até clichê de tão usada.

Quando eu era criança eu tinha um vhs chamado O Cântico de Natal dos Flintstones, que tinha Vilma, Fred e sua turma encenando o clássico. Eu e minha irmã vimos tantas vezes que memorizamos as falas, e eu fiquei feliz demais de descobrir que o desenho era quase idêntico à obra original.

Ano passado eu consegui comprar o dvd, e esse ano eu assisti junto com o Lucas, aliás, esse foi o ano em que Lucas conheceu Dickens finalmente. Primeiro foi O Conto, e agora ele tá no começo de David Copperfield, o livro da minha vida, que eu tenho relido desde que eu era jovenzinha.

Parece que não foi um ano tão ruim assim, no fim das contas.

E pra encerrar eu te deixo nas palavras imortais do Scrooge do começo da história, aquele velho “sovina, mesquinho, avarento e pecador”:

“Natal, BOBAGEM!”