Tudo bem Totó, não vamos voltar para o Kansas

Eu tenho tido um sonho recorrente nos últimos meses. Não chega a ser um pesadelo, e eu não acordo gritando ou caída no chão como chegou a acontecer em outras épocas. Os detalhes do sonho mudam, mas a base é a mesma: eu estou andando na minha cidade, e as ruas não estão nos lugares onde elas deveriam ficar.

Às vezes eu estou em um bairro, e parte onde ele deveria acabar pra dar lugar à avenida principal não chega nunca. Ou eu tento alcançar um lugar específico e tem um muro, um deserto ou só mato onde a cidade deveria continuar. E aí eu tenho a sensação estranha de estar em um lugar familiar e estranho ao mesmo tempo.

Tive um desses sonhos semana passada, e pra deixar tudo ainda mais tenso, eu estava fugindo. Do meu pai. Ele me perseguia mas fingia que não estava fazendo nada. Minha mãe via tudo e não me ajudava, e eu tentava ligar pra minha tia Lucineide, mas ela não me atendia. No sonho meu pai era saudável, e minha tia e minha mãe estavam vivas.

Aí eu andava pelas ruas do centro de Itabuna -Beira-Rio, Paulinho Vieira, Cinquentenário- e tentava subir pela Praça Adami em direção à Rui Barbosa. Mas a Rui Barbosa não estava lá. Nenhuma daquelas vielas estreitinhas era ela, e eu não sabia mais por onde poderia ir.

Eu vivi quase ininterruptamente em Itabuna por 25 anos, até sair de lá em definitivo quando me casei e vim morar em Belo Horizonte. A cidade não é grande e meus pés foram meu principal meio de transporte por todo esse tempo.

Mas Itabuna já não é a minha casa, é só o lugar onde dormem as minhas memórias. Até visitar tem sido difícil, e eu nem pretendo voltar se não for por um motivo bem forte. Aí o meu inconsciente, danadinho, pega tudo isso e transforma em roteiros de filme de terror indie.

Meus sonhos são muito psicanalisáveis, são a alegria de todo terapeuta iniciante. Quando meu pai piorou muito, e um pouco antes de o diagnóstico dele sair, eu sonhava que estávamos todos no mundo do Mágico de Oz. Na época eu estava lendo o livro, que é muito mais sombrio do que o filme faz parecer.

Acho que não é spoiler se a história já virou cultura pop, né? Quando Dorothy finalmente encontra o Mágico, e descobre que ele era só um cara normal, os dois resolvem voltar juntos pro Kansas de balão. Só que o negócio sai voando sem Dorothy, contra a vontade do Mágico, e ela fica acreditando que perdeu a única oportunidade de voltar pra casa.

No filme a gente acha que isso não tem maiores consequências, mas no livro a gente fica sabendo que Oz é uma terra cercada de grandes desertos. Não existe nenhuma garantia de que o Mágico vá chegar vivo ao seu destino. Ele sai voando sem controle rumo ao desconhecido, e o livro nem fala o que aconteceu depois.

Como você deve ter adivinhado, eu sou Dorothy, e o meu pai com Alzheimer é o Mágico que escapuliu no balão e eu não consegui trazer de volta. E ele segue planando cada vez mais alto, até o fim, quando ele não vai chegar mais a lugar nenhum.

E você deve se lembrar também de outra coisa: Dorothy pode sim voltar pra casa, porque ela tem os sapatinhos mágicos da Bruxa do Leste. Só usar e pronto, lá está o Kansas de novo.

Mas essa parte não estava presente no meu sonho, e agora eu sei por que. Eu não posso voltar pro Kansas, porque o Kansas não existe mais. Meu lar agora é Oz, e eu só pude ser feliz outra vez depois que eu entendi.

Foi em Oz que eu fiquei mais forte e aprendi a viver com o que eu tenho. Foi onde fiz amigos, onde venci a Bruxa do Oeste e onde eu descobri que a mágica já estava comigo.

Itabuna ainda é uma lembrança e um retrato na parede, mas já (quase) não dói mais.


Dorothy tinha um companheiro inseparável desde o início da história. Foi ele que manteve a heroína na casa durante o ciclone que levou os dois pra Oz. Ele também enfrentou a Bruxa do Oeste e mostrou pra todo mundo a verdadeira identidade do Mágico.

Era o cachorrinho Totó, “interpretado” no filme por Terry, uma cairn terrier.

Agora eu também tenho o meu próprio parceirinho canino, e ele tende mais pra covardia do Leão que pra coragem do Totó. Mas mesmo assim ele tem dominado nossas vidas desde o meio do mês passado.

Eu encontrei Bartô, ou Bartozinho, como a gente gosta de chamar, numa feira de adoção perto aqui de casa. Eu já tinha me conformado em não ter cachorro, já que Lucas nunca foi um grande fã dos peludinhos latidores e sempre lembrava do tamanho reduzido do nosso apartamento.

Mas assim que os meus olhos bateram nos olhinhos expressivos e medrosos de Bartô, eu soube que não teria volta. Ele estava no cercadinho junto com mais outros três cachorros, mas só ele ficava quietinho, no canto, como a refletir muito sobre o que estava acontecendo.

E foi assim que ele me ganhou.

Isso aconteceu num sábado, e eu continuei falando daquele cachorrinho até o domingo, quando Lucas finalmente cedeu. Daí ligamos pro protetor que cuidava dele e marcamos de buscar na terça seguinte. Na segunda eu já estava tão nervosa, tinha medo de mudar minha vida de um jeito tão drástico e acabar me arrependendo.

Mas terça a gente estava lá e trouxe o bichinho, que chegou aqui em casa morrendo de medo e se escondendo embaixo dos móveis. No começo ele gritava quando eu saía do lado dele até pra ir pro banheiro, e foram três dias pra ele conseguir se acostumar com o Lucas.

E enquanto isso ele enchia o apartamento de xixi e cocô. Bartô tinha quatro meses quando chegou aqui, e ainda não sabia como fazer no lugar certo. Foi um desespero, e eu cheguei a machucar a minha mão de tanto pegar em detergente. Hoje ele faz certinho no tapete higiênico da área de serviço.

E o que dizer do choro desesperado da madrugada, que não deixava a gente dormir? E a luta pra conseguir sair de casa, deixando ele pra trás? A primeira semana foi tão exaustiva que na sexta eu já chorava de desgosto e teria até devolvido o cachorro se Lucas tivesse concordado com isso.

O que se passou com Lucas desde a chegada de Bartô foi algo que eu nunca teria conseguido prever. O homem ficou doido, apaixonado, faz tudo pensando no bicho. Já gastamos rios de dinheiro desde que passamos a ser “pais” de pet e Lucas nem aí. Ele até tá perdendo o nojo das melequeiras que a criaturinha faz.

Minha conta do Instagram tinha tanta foto do Bartozinho que eu acabei fazendo uma só pra ele. Eu e Lucas só falamos dele, e trocamos altas mensagens sobre consistência de cocô e ficamos felizes quando ele faz tudo certinho. Fomos sequestrados pela overdose de ocitocina que esse animalzinho trouxe pras nossas vidas.

E ele foi o grande motivo de eu ter ficado tanto tempo sem escrever. Eu estava mais do que exausta, eu estava exaurida, com sono desregulado e animação zero pra fazer qualquer coisa que não fosse estritamente a obrigação. Até voltei a ter crises de fibromialgia, depois de meses relativamente bem.

Mas eu não me arrependo, porque eu agora amo demais o meu trocinho. Não como um filho, porque eu não tenho filhos e não sei como se ama assim, mas como cachorro mesmo. Acho que eles já são dignos da nossa afeição como os animais que são.

Ter um cachorro é bom demais, porque te força a viver no presente. Ele tem demandas, oferece fofurices e te impede de se perder em pensamentos destrutivos. Quando você está lá, sendo sugada pelo aspirador do passado (como eu defini aqui) ele te puxa de volta com toda a força que tem.

Bartô é um vira-lata, um terrier genérico, mas não é que ele até lembra um pouco o Totó do Mágico de Oz?


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