O eterno arrocha e as pessoas invisíveis

Já ouviu falar no “eterno retorno”? Essa é uma ideia presente em algumas religiões, e um pouquinho no pensamento de Nietzsche, que diz que tudo o que aconteceu vai acontecer de novo de outra forma. O tempo seria cíclico, não essa reta eterna como a gente tende a pensar no mundo ocidental.

O eterno arrocha não tem muito a ver com isso, mas lá vai. Sabe aqueles pensamentos ruins, que te colocam pra baixo, te lembram que você é super bosta e nem te ajudar a resolver seus problemas nem permitem que você esqueça o que te fez sofrer? O nome disso é ruminação, e eu tenho demais.

Às vezes eu me culpo por coisas totalmente irracionais, como o sofrimento do meu pai, o casamento difícil que ele teve com a minha mãe e o fato de a minha vida não ter me levado a lugar nenhum. E aí eu fico pensando no quanto eu sou pior do que os outros, e que nada pra mim nunca vai dar certo.

É como se um dementador tivesse resolvido viver comigo pra sempre

E você já reparou como é o arrocha? É um ritmo que em geral fala de dor-de-cotovelo, dor-de-corno e amores impossíveis, tanto que é chamado de sofrência. E a dança consiste em movimentos de círculos e semi-círculos que não costumam ter muita variação.

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Sacou a conexão? Ruminar é como dançar arrocha, o pensamento vai e volta, vai e volta, e não se resolve nunca. É um masoquismo sem fim que não te deixa sair do lugar e vai só aumentando a sua miséria.

E como se resolve isso?

Eu ainda estou aprendendo, mas meditação é um bom caminho. Você aprende a bloquear os pensamentos ruins, ou a não permitir que eles interfiram na sua vida. Você pode até reconhecer a existência deles, mas descobre como se distanciar e fingir que não é com você.

Esses dias eu também aprendi o conceito de autocompaixão, desenvolvido pela pesquisadora Kristin Neff. É um negócio que parece super básico, mas nem todo mundo consegue fazer. É só aprender a gostar de você independente do que aconteça, e tentar ter a mesma compreensão consigo mesma que você tem com os outros.

Ao contrário da autoestima, que depende do sucesso e de rebaixar o amiguinho, a autocompaixão fica com você mesmo que tudo esteja na pior. Profundo.

Tem a tática da distração também, toda a vez que você percebe um pensamento desses se aproximando você tenta se concentrar em outra coisa. Seu cérebro não consegue se dedicar a duas tarefas ao mesmo tempo. Daí vale ler, ver filme, seriado, ligar pra alguém, fazer uma caminhada, etc.

Dá também pra escrever os pensamentos num papel e tentar encontrar provas de que eles realmente sejam verdadeiros (o que você não vai achar, porque eles são doidos). Aí você força a parte lógica do seu cérebro a parar de ser frouxa e tomar uma atitude.

E tem a boa e velha terapia, que não faz mal a ninguém. Tô nessa.

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A série Oppression, de Nicolas Delille

Eu estou incontrolável mesmo nesse lance de criar a minha própria escola de pensamento filosófico/psicológico. No futuro seus filhos vão fazer prova sobre mim na faculdade, vai vendo. Agora eu vou falar de outro dos conceitos mais essenciais do Camilismo: o das “pessoas invisíveis”.

Vou começar com historinhas:

1- Quando meu pai recebeu o diagnóstico de Alzheimer, uma das primeiras coisas em que eu pensei foi no quanto as outras pessoas iriam morrer de pena de mim e me tratar como coitadinha pro resto da vida. Como elas iriam lamentar que meu pai, tão novo, tão bonito, tão saudável tivesse sido vítima de uma desgraça dessas.

E aí essas pessoas iriam se sentir melhores sempre que pensassem em mim, porque de lá na superfície do poço elas poderiam dar tchauzinho pra minha família no fundo.

Ou até pior, elas iriam me evitar de vez, porque eu iria receber o carimbo da doença na testa, e falar de doença é sempre chato né? O que é que tá passando no cinema essa semana mesmo?

E por isso eu saí do Facebook, excluí um monte de gente dos meus contatos e eu me isolei, me isolei de verdade.

2- Eu tenho mais de 30 anos, me formei em janeiro de 2007, e nunca trabalhei. Passei por dois mestrados que eu não completei e fiquei alguns anos vivendo como dona-de-casa até resolver fazer faculdade de novo. Responder à simples pergunta “o que você faz da vida?” pra mim era motivo de dor, sofrimento e vontade de correr pra bem longe.

Eu queria pedir desculpas à pessoa que me perguntava por ter que estar diante dessa falha da evolução humana que sou eu. Todo mundo sabe que quem não tem um emprego bem gordinho não vale nada, e que às mulheres desempregadas é reservada um pouquinho mais de tolerância só porque ainda somos muito machistas mesmo.

E eu continuei no Eterno Arrocha (Macedo, 2015) por bastante tempo, mais tempo no 2 que no 1. Até que depois de muito refletir, me veio um estalo. Quem são essas pessoas em quem eu penso tanto e têm tanta disposição assim pra pensar tão mal de mim?

Não são a minha família mais próxima, não são as pessoas de quem eu gosto, não são ninguém que eu me lembro. Cara, essas pessoas não existem!
Ou melhor, existem sim, na minha cabeça.

As pessoas invisíveis na verdade são uma projeção do que a sociedade, essa massa amorfa, vai reagir a cada decisão que a gente toma. Mas a gente não conversou com todas as pessoas, uma por uma, pra saber se cada uma delas acha isso mesmo.

De repente algumas até acham, mas quanto poder essas pessoas realmente têm na nossa vida pra que a gente queira dar tanta satisfação pra elas?
E não seriam até maiores as chances de que essas mesmas pessoas estejam ocupadas demais com a própria vida pra se ocuparem de você?

Quer uma revolução? Pare de pensar nas pessoas invisíveis e se concentre só no que você quer/acha/precisa. E consulte as pessoas REAIS da sua vida se você também quiser saber o que elas pensam.

E depois me conta como foi.

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Eita quanta Oppression

Eu sei que esse meu pensamento não é exatamente original, mas acabei descobrindo que alguém chegou a um conceito muito próximo bem antes de mim. O filósofo Heidegger (mais conhecido como aquele simpatizante do nazismo em quem a Hannah Arendt deu uns pegas) criou o termo das Manque em português pode ser traduzido como “o eles”.

E que quer dizer a mesma coisa, um coletivo impersonalizado que baliza nossas ações, e que a gente fica eternamente tentando agradar, mesmo que a gente nunca consiga ver.

Toda a vez em que você parou e se fez a pergunta “mas o que os outros vão pensar?” sinto te informar, mas era só você servindo ao das Man.
Ele cunhou esse termo no livro Ser e Tempo, de 1927. Até pensei em ler, mas são mais de 500 páginas de uma prosa que até os especialistas dizem que é muito ruim. Então vou ficar só com os resuminhos mesmo.

Achei esse vídeo bacaninha em inglês, em que eles chamam o das Man de “they-self”. Assista, vale a pena.

E você, também é vítima do eterno arrocha? Ainda acredita nas pessoas invisíveis?

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