O gênero do cuidado: por que as mulheres da sua família estão exaustas?

É bem provável que exista um doente na sua família agora. Alguém que precise de cuidados constantes, vigilância, e aquele tipo de amor que só vem depois de vários sapos engolidos e muita exaustão. Talvez nem seja um doente, seja um bebê, uma criaturinha vulnerável e incrível, como só os bebês humanos conseguem ser.

A pergunta que eu faço é: quem está cuidando dessas pessoas? Quem dorme pouco, chora, acha que está no limite só pra descobrir que o limite fica mais adiante e só vai se afastando, como uma miragem? Quem é responsável, quem não pode nem passar muito tempo no banheiro?

As chances são grandes de que seja uma mulher. Eu diria que as chances são esmagadoramente imensas. Porque as mulheres são fortes, são corajosas, são semideusas que recebem do Olimpo a programação de como atender às necessidades dos outros seres humanos antes das suas.

Que sorte a da humanidade de ter metade da sua população forjada pra batalha assim.

Mas e quando essas mulheres sucumbem, quem cuida delas? Outras mulheres? E aí essas mulheres vão cuidando de outras mulheres que cuidam de outras mulheres num ciclo sem fim até acabar a sanidade de todas elas?

Complicado isso aí.

Eu cresci vendo minha mãe e minhas tias se desdobrando pra dar conta de todas as baixas da nossa família. Minha bisavó que teve derrame, minha avó com uma leptospirose rápida e mortal, tia Lucineide com um câncer de ovário que foi destruindo de pouco em pouco cada pedacinho que a gente gostava dela.

Sem falar do meu avô, que nunca se recuperou de um acidente de carro, quando teve traumatismo craniano, e passou o resto da vida dando trabalho. E olha que mesmo saudável ele já não era muito fácil.

Minha mãe tinha três irmãs e três irmãos. Eram sete filhos, vejam só, dava pra distribuir as tarefas direitinho e não ficaria pesado pra ninguém. Mas assim como no capitalismo, a divisão do trabalho dos cuidadores em uma família é tudo menos justa.

Os homens faziam visitas, seguravam a barra por umas duas horinhas até enjoarem, davam uma grana, diziam que não tava fácil mesmo.

Mas segurar a comadre pra uma pessoa que não pode ir ao banheiro, ah, isso é trabalho de mulher. Mulher tem mais jeito, é mais carinhosa, sabe lidar melhor com essas coisas.

Eu tenho refletido muito sobre essas questões desde que eu mesma me tornei cuidadora do meu pai, que tem AlzheimerEle mora numa casa de repouso agora, é verdade, mas eu tive a chance de sentir na pele a queimadura de ácido que é se responsabilizar por outro ser humano.

Assim como ninguém nasce mulher, se torna, nenhuma mulher nasce cuidadora também. Nós vamos aprendendo, com as bonecas, com os amigos, com nossos pais e com nossos filhos (que eu nem tenho, mas você entendeu o argumento). E se é possível aprender, eu sei que é, é justo que seja um ensinamento só pra nós?

Eu não acho que os homens sejam monstros cruéis que seguram o chicote enquanto a gente continua remando. Muitos deles cuidam também, como foi o caso do meu pai, que assumiu tantas tarefas na lida diária com as filhas que era até motivo de chacota por parte de outros homens (e mulheres). Nesse sentido meu pai era o Rodrigo Hilbert dos anos 80.

Mas quando uma criança chora, quando um idoso cai, quando um parente vai parar no hospital, quem é que todo mundo chama primeiro? Quem é que vai correndo sem olhar pra trás? Aposto uma caixa de Bis como é a mulher mais próxima, e ela mesma só vai pensar nisso depois. Essa ação automática é parte da perversidade do sistema.

Parece mais fácil não discutir, não questionar, não chamar os homens pra tomar parte naquilo que é responsabilidade deles também. Somos todos humanos, e o que nos torna mais humanos do que a capacidade de cuidar uns dos outros? Como você acha que a nossa espécie conseguiu chegar até aqui?

A nossa população está ficando mais velha, mais doenças vão aparecendo, o cuidado em família já é uma das maiores forças de trabalho não remuneradas do mundo (desculpa, tô sem dados agora, não sei se já é a maior). E como é que a gente chama mesmo aquele trabalho não remunerado que a gente é obrigado a fazer? Isso mesmo que você pensou.

Esse texto todo só pra dizer que cuidado é uma questão de gênero sim. Talvez não pareça tão óbvio pra quem não cresceu com um exército de cuidadoras, como eu, mas dê só uma olhada nos hospitais, nas casas de repouso, no bairro da sua avozinha querida e que já precisa de amparo. O Bat Sinal parece que tá quebrado e só chama mulheres.

Lidar com os horrores do mundo e aprender a se virar em situações adversas é uma capacidade humana, praticamente todo mundo tem. Você vai conseguir, milhões de pessoas conseguiram antes de você, e milhões vão continuar conseguindo. Já é hora de usar isso pra dividir o fardo com aquelas companheiras de batalha que já estão destruídas de tanto lutar.

Fica mais leve pra todo mundo assim, e muito mais fácil de vencer.