Se amar é doer

Quando eu tinha quatro anos eu acertei a testa na quina de uma porta, e essa é a lembrança mais antiga que eu tenho de me machucar. Até hoje eu tenho a cicatriz, que eu sempre achei legal, mesmo antes da era Harry Potter.

Isso foi num sábado ou num domingo, porque minha mãe estava em casa. Ela estava na mesa, estudando ou trabalhando, e eu ao lado dela, desenhando. Até que o meu pai gritou alguma coisa do banheiro, e logo em seguida minha mãe foi com pressa em direção à varanda.

Eu saí correndo atrás dela e fui detida pela porta. Daí em diante eu não me lembro de mais nada.

Mas eu tenho outras informações, que meus pais me contaram depois. Eu sei que eles me levaram pro hospital, e que meu pai desmaiou quando viu o médico dando os pontos no meu corte. Eu sei que foram poucos pontos pra extensão do estrago, e que por isso eu fiquei com uma marca visível.

Depois eu soube que meus pais estavam brigados naquele dia. E que meu pai havia pedido pra minha mãe verificar o disjuntor, porque a água do chuveiro estava gelada. E em uma das muitas brigas que eles tiveram nos anos seguintes meu pai culpou a minha mãe pelo acidente: se ela não estivesse com tanta raiva e má vontade, eu não teria corrido atrás dela.

Eu não podia defender a minha mãe, eu não me lembrava de quase nada. E nem ela mesma se defendeu. Acusar a minha mãe de coisas acontecidas comigo ou com a minha irmã era um golpe baixo que o meu pai sempre usava. Aliás ele era mestre em culpar todo mundo por tudo, e o único que parecia nunca ter culpa era ele mesmo.

Meu pai teve uma infância bem difícil, e usou isso como salvo conduto pro resto da vida.

Minha mãe nunca nos machucou, com ou sem propósito. Quer dizer, ela me dava uns beliscões quando eu era inconveniente, mas era mais pra chamar a atenção do que pra punir. Nunca funcionava. Eu dizia “mãe, para de me beliscar” e ela acabava passando ainda mais vergonha.

Do meu pai eu levava tapas fracos na mão e na bunda, e eu chorava muito, mesmo não sentindo dor.

Com meus pais eu aprendi o que era o amor de formas bem diferentes. Da minha mãe eu tinha segurança e carinho, amparo em momentos de necessidade e conselhos sábios pra seguir em frente.

Já meu pai tinha por nós um amor adolescente, intenso e sofrido, de quem morre só de pensar em uma separação. Minha mãe amava de uma forma constante e pouco declarada, e meu pai era praticamente o exagerado da música do Cazuza.

Eu me lembro de recorrer à minha mãe quando eu tinha problemas com as outras meninas da escola, ou quando eu precisava de explicações pra coisas que eu não entendia. Mas nas memórias de doença é sempre o meu pai que aparece.

Era ele que trazia o Merthiolate ameaçador (trocado por mercúrio sempre no último minuto). Era quem me fazia beber aquele Novalgina sabor morango (se morango tivesse gosto de morte), e cortava mamão e melão em cubinhos quando eu não conseguia comer.

Quando eu passei a sentir dores fortes nas pernas (dores de crescimento, diziam os médicos) era ele também que passava a madrugada acordado comigo, vendo desenho e colocando compressas de água quente pra aliviar o meu sofrimento.

Se o meu pai pudesse ele só deixaria a gente sair na rua envolta em plástico bolha, e ainda com um chip de localização. Ele era também um dos poucos pais dos anos 90 a insistir no uso de cinto de segurança e a só permitir crianças no banco de trás.

Mas mesmo com tanto cuidado o meu pai me machucou. Aconteceu quando eu tinha onze anos, e estávamos de férias em Porto Seguro. Fomos a uma daquelas cabanas famosas, com dançarinos de axé fazendo movimentos bem duvidosos.

Meu pai tinha problemas em lidar com emoções extremas, tanto de alegria quanto de tristeza — as duas ele resolvia com bebida. Minha mãe dizia que ele estava a um passo do alcoolismo, mas não preenchia os critérios todos pra ser considerado alcoólatra. E ela que trabalhava na secretaria de saúde devia saber.

Em festas meu pai era a estrela, a bebida fazia com que ele parecesse o máximo pra todo mundo. Chato era quando ele chegava em casa e passava pra fase seguinte, a de chorar e se lamentar. Nesse dia em Porto Seguro ele entrou no modo festa, e queria que a gente ficasse lá, dançando com ele.

Primeiro ele tentou puxar a minha mãe, que resistiu. Eu não tinha tanta força, e saí cambaleando quando ele segurou no meu braço. Acabei tropeçando no chão de madeira, e espetando o pé num prego do caminho. O corte nem foi tão feio assim, mas fez com que a gente saísse de lá na mesma hora, e meu pai dirigiu o caminho todo ainda bêbado.

Minha mãe limpou a ferida e colocou band-aid, mas parece que não foi o suficiente. Pegamos estrada de volta pra Itabuna no dia seguinte, e eu tive que ir no banco da frente, de tanto que o meu pé inchou. Ninguém falou nada sobre responsabilidade ou culpa, e o assunto da viagem foi a minha febre, que só aumentava.

Eu não fui pro hospital, fiquei em casa mesmo, tremendo de frio e assistindo Super Market na Band. Não tive sequela nenhuma, e nem fiquei com cicatriz desse corte. Também não tive raiva do meu pai, mesmo ele nunca me pedindo desculpas. Eu via que ele já estava sofrendo.

Nunca mais esse evento foi mencionado lá em casa, foi como se nunca tivesse acontecido.

Meus pais se divorciaram finalmente em 2004, e minha mãe morreu pouco mais de dois anos depois. O luto que eu tive foi bem normal, eu acho, demorou pra se instalar, veio com pesadelos constantes, mas acabou melhorando.

Nunca vi meu pai tão estável como nessa época, parecia que ele tentava copiar a força da minha mãe. Mesmo com a família dela enchendo o saco, ofendendo, inventando mentiras e até ameaçando agressão física, ele ficou inabalável. Nossa relação nunca foi tão boa como nos anos que se seguiram.

Até o Alzheimer chegar e acabar com tudo.

Eu reagi bem à morte da minha mãe, mas fui destruída pela doença do meu pai. O que eu perdi em suporte eu ganhei em responsabilidade, que só poderia ser dividida com a minha irmã, tão perdida quanto eu.

Eu tentei ser cuidadora, manter meu pai aqui em casa, mas fui traída pela minha cabeça, pela minha pele, pelos meus órgãos. Fiquei exausta, sem comer, sem dormir e até sem respirar em alguns momentos, o que foi uma grande novidade pra mim.

Quando eu era pequena meu pai podia me carregar, me obrigar a tomar remédio, me levar à força pro médico. O que eu podia fazer quando um homem forte como ele entrava em crise?

Eu fui pro hospital duas vezes, achando que ia morrer. Descobri que era assim uma crise de ansiedade. Há dois anos que eu não sei o que é acordar totalmente descansada, e a vontade de dormir bem vem até nos meus sonhos. Esses sonhos em que a minha família toda aparece, e eu não tenho depressão, nem dor nas costas, nem sonambulismo, nem terror noturno, nem essa fibromialgia que acabaram de descobrir em mim.

Eu fiquei tão acabada que meu plano de saúde me dá 40 sessões com a psicóloga, sendo que o normal são 18. Mas tão acabada que consegui trancar semestre na faculdade sem dar um único comprovante, só desabafando meus problemas no formulário.

Eu sinto muita falta de quem eu era antes de o meu pai adoecer. Eu tenho saudade do corpo que eu tinha, que não era o mais saudável do mundo, mas também não era esse que vive se partindo em pedacinhos que eu tenho que juntar com uma pá gigante como aquelas de desenho animado.

Eu sinto falta de quando eu tinha boa memória, e conseguia me concentrar, e não tinha que me arrastar pra passar em matérias com muita coisa pra decorar. Ou de quando eu não esquecia dia de prova, nem fazia atividade com o texto trocado, nem tinha que ficar perguntando mil vezes a mesma coisa nos grupos de whatsapp da turma.

Às vezes eu sinto muita raiva, do mundo que me colocou nessa situação, e da sorte que sempre traz desgraças novas pra mim. Sinto raiva até do meu pai, a causa do maior sofrimento que eu já tive na vida. Tenho vontade de jogar na cara mesmo — aquele pé infeccionado não foi nada, a testa partida foi fichinha, chorar eu tô chorando é agora.

Mas se eu choro é porque é grande o amor também. Eu queria dizer ao meu pai que a ternura aflita e ansiosa que ele sentia por nós nós também sentimos por ele. E quanto mais esse amor aumenta mais doloridas e dilaceradas ficamos.

E eu tenho que suportar isso tudo sem mamão e melão cortados em cubinhos (não fica a mesma coisa se outra pessoa fizer) e sem o meu pai me abraçando e dizendo “liga não, isso é dengo, é pretexto pra ficar no colo do pai”. Cadê o colo do meu pai?

Ah, eu lembrei, esse eu até tenho, ele me ofereceu na última vez em que eu fui lá: “ô minha bonequinha, senta no meu colo”. E eu recusei, porque enfim, não consigo caber mais.

Mas da próxima vez, vai ter colo sim, a gente dá um jeito, e pelo menos colo vai ter sim. Ah, se vai.

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Festa junina na casa de repouso, 2015