Sim, eu me lembro

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Você morreu há 25 anos, eu me lembro. Eu me lembro de quando a sua mãe te levava lá pra casa, nas férias, pra que ela pudesse trabalhar e ficar com você ao mesmo tempo. Você tinha um ano a menos que eu, mas a gente se dava bem.

Sua mãe me chamava de Mil, o mesmo apelido que o meu pai usava. Ela me buscava na escola, levava pra natação, insistia pra que eu tomasse banho antes que a minha mãe chegasse. Sua mãe usava o caderno de receitas que a minha mãe havia feito e esquecido.

Sua mãe cuidou de Thaís quando ela era bebê, e tinha um método bem esquisito de fazer soluço passar. Ela colocava uma linha vermelha toda babada na testa da minha irmã, e cantava “vai pra rua, soluço” numa melodia muito própria. Não sei como, mas funcionava.

Sua mãe tinha duas meninas por perto, mas pensava sempre naquela outra menina que crescia em outra cidade, e que ela só via nos fins de semana.

Eu me lembro de um dia em que fomos eu, você e ela pra casa da sua madrinha. Ficava num bairro distante, fomos de ônibus. Passamos a tarde brincando e comendo doce, e eu me lembro que tinha uma torta com palitos de chocolate em volta.Aí a sua mãe disse que tinha que ir embora, e te deixou lá. Você chorou e gritou que queria ir com ela. Eu não entendi porque você não queria ficar numa casa com tanta coisa gostosa pra comer.

Mas hoje eu sei que foi difícil ver a sua mãe ir embora comigo e te deixar pra trás.

Um dia a sua mãe disse aos meus pais que você estava doente, e que ela iria ficar com uns parentes em São Paulo pro seu tratamento. Você tinha leucemia, a mesma doença que havia levado o irmão da minha mãe, o único tio que eu não cheguei a conhecer.

Eu não sabia direito o que estava acontecendo, mas eu te mandei de presente um copo de plástico com peixinhos, uns pedaços coloridos que se mexiam na parede do copo. Minha mãe enviou pelo correio, e disse depois que você havia gostado.

E aí chegou a notícia de que você havia morrido, e que a sua mãe não voltaria mais lá pra casa, porque ela iria morar de novo na cidade dela. Eu fiquei confusa, foi muita coisa pra aprender ao mesmo tempo. Você foi a primeira pessoa que eu conhecia que morreu, e eu não tinha me dado conta ainda que crianças podiam morrer. Mesmo crianças mais novas que eu. E eu tinha só sete anos.

Eu descobri também que coisas ruins podiam acontecer a pessoas boas.

Há uns anos eu encontrei a sua mãe na rua, lá em Itabuna. Falamos de várias coisas, mas eu não tive coragem de mencionar você. Eu não tenho o contato dela, mas eu queria poder conversar agora.

Eu só queria dizer a ela que eu me lembro.


Nós estudamos juntas por um ano, e você me ensinou o que era o medo. Na verdade não, eu já sabia o que era medo antes. Eu tive medo do Fofão, da Malévola e dos monstros invisíveis que se escondiam embaixo da cama. Você me ensinou o pavor da antecipação, de me sentir ameaçada sem poder pedir ajuda.

Eu tinha dez anos, você era mais velha. Não sei quão mais velha, mas eu chutaria uns dois anos. Eu era a mais nova da turma, quieta, reservada, um alvo fácil. Eu não soube o que responder quando você segurou meu braço e disse que na prova seguinte eu te passaria todas as respostas.

Você só não contava com uma coisa: naquele tempo eu prezava mais a minha honestidade do que a minha vida. Eu era do tipo que reclamava de nota alta errada e pedia pra consertar. Quase tive um treco uma vez, quando descobri que o cara do mercado havia me passado troco a mais por engano.

Eu preferia me sacrificar no calvário do bullying infantil do que cometer uma infração.

Você se sentou atrás de mim durante a prova, e me cutucou o tempo inteiro. Eu resisti e fingi que não era comigo, mesmo sabendo que a sua raiva só crescia. Eu tive vontade de chorar, mas as vítimas têm essa coisa engraçada de se esconder, como se as culpadas fossem elas.

Na saída da aula você chutou a minha mochila de rodinhas, me ofendeu, disse que eu iria ver quando estivéssemos do lado de fora. E eu achei mesmo que estava perdida, até ver que a providência havia enviado meu pai pra me buscar naquele dia. Meu sofrimento não havia sido em vão!

No dia seguinte você já tinha escolhido outro mártir e esquecido de mim.

Não foi a última vez em que nos confrontamos, aconteceram vários episódios pequenos, até que uma professora sem noção nos colocou no mesmo grupo de um trabalho. Você ordenou o que todas as outras pessoas deveriam fazer, e ficou responsável só pela capa, que eu iria juntar às outras partes.

Você me entregou uma folha de papel pautado, com letras horríveis cobertas de glitter. Era um trabalho de ciências, nada relacionado a carnaval. Eu não podia entregar daquele jeito.

Havia outra coisa que também era maior do que o meu amor à vida naquele tempo: o meu orgulho.

Eu refiz a capa, entreguei à professora, e você não pôde fazer nada até que o trabalho fosse devolvido. Aí você rasgou tudo na nossa frente. E eu fiquei aliviada de essa ter sido a coisa mais grave a acontecer.

Eu odiava aquela escola, e você era um dos principais motivos. Eu me sentia péssima, vulnerável e sozinha, eu era puro rancor. Eu reclamava com os meus pais, mas não dizia as coisas específicas que haviam acontecido. Eu só queria ir embora, e eles concordaram. Eu fui pra um lugar muito melhor, onde fiz amigas que tenho até hoje.

Mas sabe, em Itabuna a gente nunca perde realmente as pessoas de vista. Eu já te vi várias vezes no shopping (você não se lembra de mim), e sei por uma pessoa em comum que você está grávida agora. E eu fico pensando se você conseguiu mudar, se aquela agressividade toda era só uma fase, talvez o resultado de uma vida difícil. Eu não te conhecia realmente, mas eu poderia ter te ajudado com as matérias se você tivesse me pedido.

Eu sei que eu fui injusta em outros momentos. Eu fui arrogante, eu machuquei as pessoas sem querer. Mesmo sem ameaçar ou agredir, como você fazia. A gente erra tanto quando é criança e adolescente, parece uma fase criada mesmo pra gente fazer merda.Acho que você acabou me ensinando mais do que medo, no fim das contas. Você me ensinou como é horrível ser a causa do sofrimento dos outros. Eu aprendi a não querer ser como você. Espero que nem você seja mais.