Lar, onde meu pai está

Eu li O Estrangeiro pela primeira vez aos 18 anos. Minha mãe não tinha morrido ainda, meu pai ainda não tinha Alzheimer, e eu não tinha experiência de vida pra apreciar uma obra daquelas.

Pra ser sincera eu continuo não gostando muito, mas foi marcante ter relido esse livro ano passado. E não só porque foi o primeiro livro de gente grande que eu li em francês.

Agora aquele primeiro capítulo, em que Meursault narra a ida ao asilo pro velório da mãe, fala direto comigo. Eu já tive que ir ao velório da minha mãe, e agora eu vou sempre a um lar de idosos pra visitar o meu pai. Pra você ver como as coisas mudam em treze anos.

Mas eu não uso a palavra “asilo” pra falar desse lugar que eu frequento. Você pode achar que é dourar a pílula, mania de eufemismos, mas vou te dizer, eu pago caro demais por mês justamente pra ter direito a usar a expressão “casa de repouso”. Porque aquele lugar é mesmo como a casa de alguém, uma pessoa misteriosa que recebe hóspedes demais e nunca aparece.

Quando eu chego meu pai está sentado no sofá, em frente à televisão, mas na verdade olhando pro nada. As enfermeiras denunciam a minha presença, o que cria uma certa ansiedade nele antes de me ver. E aí a gente se abraça, e ele me pergunta quando eu cheguei e quanto tempo eu vou ficar, porque na cabeça dele eu sempre venho de viagem.

Eu e minha irmã somos as familiares mais jovens a aparecer. Meu pai também é o residente mais jovem, mesmo contando uma senhora com transtorno bipolar que está lá por vontade própria e é livre pra sair quando quer. Meu pai tem 64 anos, chegou na casa com 62. Todos lamentam muito a nossa pouca idade, que às vezes parece ser nossa culpa. As outras filhas de residentes têm a idade que poderia ser da minha mãe.

Antigamente meu pai tinha um quarto só pra ele. Mas isso era naquele tempo em que ele era forte, tinha crises, falava muito e preferia ficar sozinho. Eu passava lá quase todas as minhas tardes, vendo novela, ouvindo música, ou tentando fazer meu pai se lembrar dos nomes de todos os Beatles olhando pras fotos de um livro ilustrado. Ele ainda não tinha diagnóstico, e eu tinha esperança.

Agora ele divide quarto com mais uns outros, e nem nota a diferença. Entre ele e o quarto antigo existem escadas hoje intransponíveis, e a cadeira elevatória me dá tanta agonia quanto preguiça. Melhor ficar no térreo mesmo.

Só é uma pena a televisão da ala masculina estar sempre na Globo. A da feminina sempre fica no SBT, e eu chego a ver uns pedaços da Usurpadora quando chego por lá.

Depois de tanto tempo eu acabei me familiarizando com o resto da galera. Tem a senhorinha simpática que fica feliz de me ver, pergunta do meu casamento e cobra filhos. Tem o senhor de mais de cem anos, que interage pouco, mas ainda está lúcido. Tem o antigo vizinho de quarto do meu pai, sempre galante e entretido no seu jornal. Tem o sujeito chato que sempre me passa cantada e que eu aprendi a ignorar — as enfermeiras dizem que o comportamento dele é efeito colateral da medicação pra Parkinson.

E tem o pessoal que me dá arrepios: as senhoras em estado avançado de demência, que já nem andam nem falam. São as visões macabras do Natal futuro, e eu sou um Scrooge que nunca acorda. Eu tento pensar no presente, lidando com as limitações do meu pai à medida em que elas chegam, mas essas mulheres estão lá pra testar os extremos da minha ansiedade. Haja ansiolítico.

Meu pai é a paixão de quase todas as enfermeiras e de algumas residentes. Parece que uma vez galã, sempre galã. Aí me perguntam se minha mãe tinha ciúmes, eu respondo “ô” e todas deliram com as fotos antigas do Seu Geraldo. Mas ele só tinha olhos pra terapeuta ocupacional, o que durou pouco também.

Meu lugar favorito da casa é o pátio, que é cercado por muros com trepadeiras. É onde eu sempre levo o meu pai, pra que a gente possa conversar com mais privacidade e ainda olhar pro céu, cortado de vez em quando pelos aviões que pousam no aeroporto da Pampulha. Minha irmã diz que é como naqueles filmes de Segunda Guerra, os caças alemães passando sobre o campo.

Às vezes eu fico muito tempo sem aparecer, como se uma força invisível me impedisse de chegar. E quanto mais as semanas passam mais difícil vai ficando, porque eu vou me desacostumando com as últimas pioras dele. Até que a culpa fica insuportável, e eu preciso ir, e eu descubro que a realidade é menos sofrida que a minha imaginação tortuosa. Por que eu sempre esqueço disso logo depois? 

Tem dias em que eu consigo ser feliz de verdade. É quando eu descubro que ainda existe um pouquinho do pai que eu conheci naquele homem tão diferente, que eu aprendi a ver como uma outra versão da mesma pessoa. Quando menos a gente espera, quanto menos a gente cobra, mais a gente consegue aproveitar o tempo que resta com ele.

A vida é um absurdo mesmo, como já nos alertava Camus. Um absurdo doloroso, mas cheio de beleza também. E às vezes a gente consegue encontrar bons momentos onde menos espera.