As histórias que herdamos

Foram muitos os fins de semana que passei na casa da minha avó materna, Safira. Em um deles estávamos as duas brincando no quintal, ou no terreno ao lado da casa, não lembro direito, e eu mostrei a ela uma borboleta que eu havia acabado de matar.

Eu tinha uns seis ou sete anos, e a reação que eu esperava era de deslumbramento com a beleza do bichinho. Mas não foi isso que aconteceu. Ela olhou pra mim, usou um tom de voz bem paciente, e disse:

“Camila, agora a mãe dela vai esperar e esperar e ela não vai voltar”

Aquilo me deixou arrasada, e eu chorei, fiz escândalo e me senti um monstro. Só naquele momento eu passei a identificar a borboleta morta com um ser de verdade, como os animais dos desenhos. Uma vida importante. E eu imaginei a minha própria mãe esperando pela minha volta, e aquilo ficou insuportável. 

Eu enterrei a borboleta, improvisei um funeral, e fiz até uma cruz com uns gravetos. Mas a culpa continuava. Foi a primeira lição em empatia que eu me lembro, e eu nunca mais matei um animal sem necessidade.

                                                          


                                                         

Minha avó Safira cresceu na roça, cuidando da casa e dos irmãos desde muito cedo. Aos nove anos ela já acumulava várias responsabilidades, e era bem conhecida entre os vizinhos. Quando a cadela de uns conhecidos deu cria, e a família quis se livrar dos filhotes, a minha avó foi chamada pra ajudar.

E ela fez isso torcendo o pescoço de todos os cãezinhos, um por um. E era exatamente isso que esperavam que ela fizesse. 
 

                                                         


Minha mãe raramente brincava comigo ou com a minha irmã. Ela amparava, compreendia, orientava, mas brincar mesmo, essa era função do meu pai. E nós vivíamos bem assim. 

Houve uma vez em que nós quatro fingimos estar numa lanchonete. Thaís, meu pai e eu éramos os clientes, e a minha mãe nos servia. Mas por um momento eu esqueci da brincadeira e chamei a minha mãe de mãe.

Aí ela respondeu:

“Mãe não, hoje eu sou garçonete”

E eu comecei a chorar. Minha mãe sempre falava sério, e aquela rejeição pareceu real demais, mesmo num contexto que eu sabia ser de faz-de-conta.
 


Meu pai foi adotado ainda bebê pela minha avó Izaura, que na época era viúva. Nunca houve uma adoção real, por conta de várias questões, e o nome da mãe biológica nunca deixou a certidão de nascimento dele. Estava lá, bem acima do “pai desconhecido”.

Todo mundo sabia que meu pai não tinha pai, e as crianças dos anos 50 pareciam se importar bastante com isso. “Geraldo, cadê o seu pai?”era uma questão que ele ouvia com frequência.

Minha avó Izaura se casou outra vez, com o pior marido que conseguiu encontrar, o Luís. Ele foi a primeira esperança do meu pai de sair do limbo dos bastardos.

E aí ele fez a besteira de chamar Luís de pai.

“Moleque, eu não sou seu pai” foi a melhor das reações. A pior foi colocar uma mosca viva na boca do menino, se aproveitando de uma distração dele.

Anos depois minha avó Izaura conseguiu registrar ilegalmente meu pai com o nome do pai biológico. E eu mesma tenho na minha certidão o nome desse tal de Péricles, que não me diz nada.


                                                       


Quando eu tinha uns cinco anos nós fomos visitar a mãe biológica do meu pai, que era Maria, mas todo mundo chamava de Cotinha. Eu devo ter achado estranho meu pai ser filho de outra mulher, além da que eu já conhecia, porque eu me lembro das explicações da minha mãe.

Cotinha era muito pobrezinha, e não tinha como cuidar do meu pai, então ela achou melhor entregar ele pra outra pessoa. Pra mim fez sentido.

Mas era mentira. Essa minha avó era só um caso clássico de mãe-solteira-vergonha-da-família. Com o agravante de ter ficado grávida do cunhado. Os parentes dela eram até bem estabelecidos na região. Eu só soube disso tudo bem depois.

Eu gostei de Cotinha, ela me deu bastante dinheiro. Tudo escondido do meu pai, que não aceitava nada que vinha dela, e só fazia essas visitas muito a contragosto.

Quando reencontrei a minha avó Izaura eu disse que já sabia de onde meu pai tinha vindo. Ela sorriu, apontou pra própria barriga e disse que ele tinha vindo de lá.

“Mentira”, eu respondi “eu já sei que ele veio de Cotinha”

Eu não me lembro direito, mas eu acho que ela parou de sorrir.


Minha mãe era bem próxima da mãe dela. Quando um dia minha avó Safira passou correndo pela casa, fugindo do meu avô, que dava tiros pra cima, a minha mãe adolescente seguiu atrás.

As duas atravessaram a frente da fazenda e chegaram até o mato, onde se esconderam por um tempo. Meus avós maternos ficaram casados até a morte da minha avó, em 2003.
 


Meus pais sempre brigaram muito, mas tentavam disfarçar quando eu era bem pequena. Se eu perguntasse, eles diziam que estavam só “conversando”. Depois de uma dessas “conversas”, já tarde da noite, minha mãe me segurou por um braço, pegou a minha irmã bebê no colo, e disse que iríamos pra casa da minha avó.

Eu não gostei de sair correndo assim, ainda de camisola, mas concordei. Fomos andando por várias ruas desertas, até encontrar um posto de conveniência, já quase no nosso destino. Minha mãe parou e me ofereceu um guaraná. Eu estranhei, refrigerante quase nunca entrava na nossa casa. E por que parar se já estávamos tão perto?

Meu pai acabou passando de carro uns minutos depois, e voltamos todos pra casa. Eu fiquei frustrada por ter andado à toa. Levei anos pra entender que minha mãe nunca pretendeu chegar, ela só queria que meu pai viesse atrás de nós.


                                                       
 


Minha mãe era asmática, e nossa casa vivia cheia de bombinhas. Mas elas não existiam na infância dela, quando as crises começaram. Foram muitas madrugadas em claro, ao lado da minha avó, que tentava controlar a situação com leite e toalhas quentes.

Na escola minha mãe se escondia durante as aulas de educação física, porque não queria que ninguém descobrisse aquele problema. 

Só que é difícil manter a discrição quando você não respira.
 

                                                           


Aos cinco anos minha irmã precisou fazer uma cirurgia de coração. Ela tinha sopro patológico, por conta de um defeito congênito, e vivia adoecendo mais do que o normal pra idade dela.

Acabamos passando três meses em Salvador, entre preparativos e operação propriamente dita. A minha alegria de férias conviveu todo o tempo com a angústia disfarçada dos meus pais. 

No momento de levar Thaís ao centro cirúrgico, meu pai desabou. Ele não teve coragem de deixar que ela fosse na maca, e carregou no colo aquele corpo tão pequeno e magrinho, mas que ao mesmo tempo tinha um peso tão grande.

Eu não vi isso acontecendo, e essa é uma das imagens mais fortes da minha infância. 
 

                                                       


Voltar pra casa depois da escola era motivo de apreensão pro meu pai. Ele nunca sabia quando iria encontrar minha avó Isaura adormecida de tão bêbada, e se teria que colocar tudo em ordem ao invés de fazer a lição.


                                                          
 

                                                           



Houve uma época em que eu insistia pra dormir com os meus pais. Mas eu não queria só ir pra cama deles, eu chamava meu pai no meio da noite e queria que ele me levasse no colo até o quarto de casal.

E ele levava. Depois eu percebia que ele tinha passado a noite na minha cama, e eu ficava chateada, porque queria nós três dormindo juntos. Não sei como isso acabou, nem quanto tempo durou.

Só acho que eu não aproveitei o suficiente. 


                                                         


Às vezes meu pai sumia por horas depois de brigar com a minha mãe, e voltava cheirando a sei lá o quê que ele tinha bebido durante esse tempo. Uma noite ele voltou fazendo barulho e foi até o meu quarto.

Eu fingi que dormia, mas não adiantou nada, ele ficou lá conversando, conversando e lamentando. Ele deitou ao meu lado e chorou até pegar no sono. Eu me levantei e fui dormir com a minha mãe.

Eu fiquei chateada de ele ter ido pro meu quarto, de ter atrapalhado meu sono, de ter se apossado da minha cama. Tudo isso por problemas que eu achava que não me diziam respeito. Eu sabia realmente muito pouco.
 

                                                   


Nós herdamos as histórias dos nossos pais, dos nossos avós, e de outros parentes que tenhamos conhecido. Esse é o nosso verdadeiro patrimônio, o que nos liga às pessoas que vieram antes de nós.

É o que nos faz entender a experiência humana, mais do que assistir a uma tragédia de Shakespeare ou ler o livro do filósofo da moda. É o que nos situa no mundo. 

Pra entender a nossa família, nós temos que conhecer os vários lados. É difícil, como naqueles romances em que o ponto de vista muda o tempo inteiro, ou nesses em que só no final você descobre que a trama inteira era a perspectiva do criminoso. Às vezes são tantos os vilões que você nem sabe por onde começar.

E com isso eu não quero ser determinista, nem dizer que a dor é inevitável, ou que estamos todos condenados a ser como nossos antepassados e a repetir os mesmos erros geração por geração. Muito pelo contrário, acho que nos contar essas histórias é um ato de amor, é uma chance que nos dão de refletir e melhorar. 

Eu sou grata a todas essas personagens acima. E às muitas outras que não foram mencionadas aqui. Obrigada por terem feito da memória o melhor presente que poderiam me dar.