Como fazer amigos depois dos 30? (Sério, eu não sei)

Foto por Dennis Magati em Pexels.com

Eu tenho problemas de família reduzida. Todos os meus avós já morreram, assim como a minha mãe e parte dos meus tios. E agora que meu pai tem Alzheimer, e só pode contar comigo sem que eu possa contar com ele, a coisa ficou pior ainda.

Como eu não tenho mais a multidão que estava ao meu redor enquanto eu crescia, eu tenho que construir o meu próprio círculo de relações com amigos. Justamente numa fase em que fazer amigos é mais difícil.

Não é que eu não esteja satisfeita com os amigos que eu já tenho, mas eu preciso de bem mais gente, e mais gente perto.

Minhas melhores amigas estão espalhadas pelo Brasil e pelo mundo, e por mais que eu goste muito dessas pessoas, eu preciso de gente aqui.

Mas quando a gente tem 30 anos, tudo fica mais difícil. Um encontro tem que ser marcado com muita antecedência, e conferido várias vezes na agenda pra ver se se não existe mesmo um outro evento pra aquele dia. A gente tem que se agarrar a qualquer pessoa que pareça pensar do mesmo jeito, porque vai saber quando isso vai acontecer de novo.

A gente passa meses e meses encontrando pessoas que nunca vão se tornar nossas verdadeiras amigas, porque aquele momento de intimidade em que você mostra o seu eu mais eu nunca vai acontecer.

E conhecemos pessoas que podemos encontrar com frequência, e até são legais, e até pensam como a gente, mas temos que abrir mão delas. Porque uma coisa engraçada também acontece quando a gente tem trinta, desistimos muito mais facilmente de quem não nos faz bem. Já passamos daquela fase de colégio, de aceitar tudo pra sentar na mesa com as meninas malvadas.

Tem gente que só pode ser bacana num outro universo, um universo do qual você não faça parte. E temos que aceitar isso também.

Eu me sinto o Gasparzinho às vezes, rastejando pelos cantos e implorando por amigos. Será que aquela pessoa que pegou matéria comigo, e parecia tão legal, topa sair um dia pra conversar?

E aquela outra que se sentou ao meu lado no avião, conversou comigo até o desembarque, mas eu não tenho coragem de adicionar ao Facebook? Será que ela vai achar estranho se eu quiser continuar mantendo contato?

Crush de amigos é pior do que crush de azaração, não existe um fora definitivo, nem uma aceitação definitiva, só um limbo de educação e de “bora marcar mesmo alguma coisa”.

E ainda tem o problema de ser casada, e só conseguir sair com outros casais, esquema Flintstones. É muito difícil fazer amigos de verdade nessas circunstâncias, porque você raramente fica a sós com um integrante desses grupos. E quando fica, não é raro perceber que só o grupo funciona, não os indivíduos.

E os deuses que nos livrem de propor alguma coisa só com o integrante do casal que pertence ao sexo oposto. Mesmo que essa pessoa seja quem tem mais a ver com você, e que seja só por ela que você ature a noiva/esposa/companheira.

Já aconteceu várias vezes de o meu marido querer encontrar com amigas nossas em dias em que eu não queria sair de casa. Mas a sociedade não aceita que ele vá sozinho, sem mim como dama de companhia.

Porque um cara não pode sair com uma mulher sem que se pense que ele quer dar em cima dela. Ele que se contente com as amigas que já tinha antes de casar, e que moram bem longe.

E aí acaba que nós temos uma vida social de gêmeos siameses.

Sabe o que eu queria mesmo? Encontrar uma pessoa bem legal, amarrar numa cadeira e forçar essa pessoa a ser minha amiga, como a Kathy Bates em Louca Obsessão. E eu iria falar de tudo que eu fiz de bom, e como eu sou legal, e contaria as minhas melhores piadas até a pessoa se convencer de que eu realmente valho a pena.

Épocas extremas exigem medidas extremas.

Esse é o meu apelo final: seja minha amiga (o). Converse comigo. Vamos ver desenho comendo brigadeiro enquanto a gente olha memes bizarros no twitter. Vamos ver filme ruim no cinema, e rir das pessoas que passam na praça, e tirar várias fotos repetidas pra a gente ver qual é a menos pior pra postar no Instagram.

Vamos chorar com os mesmos livros, e planejar o contragolpe, e nos perder no centro de Belo Horizonte. Vamos ficar sem voz de tanto gargalhar, e mandar mensagens quilométricas pra pedir opinião sobre bobagem. Vamos fazer nosso tempo na Terra valer a pena.

Vamos?

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Só pra constar, eu ainda não desisti do lance de amarrar na cadeira