Conheça Solange

Já faz algum tempo que eu e o meu marido recebemos aqui em casa uma visitante. Eu a chamo de Solange, mas desconfio que esse não seja o verdadeiro nome dela. Nosso apartamento é pequeno, realmente é difícil encaixar mais alguém aqui, mas Solange não ocupa um espaço físico, então, não é esse realmente o problema.

Ela é dessas que não são convidadas, incomodam e mesmo assim se recusam a sair.

Eu não me dei conta direito de quando ela chegou. Acho que eu baixei a guarda, e ela aproveitou pra se instalar de fininho. Como aqueles espíritos malignos de novela espírita. Ela passa o dia inteiro comigo, então, é mais uma questão minha. Lucas só vê o resultado das nossas interações.

Solange é uma torturadora renomada, com passagens pelo DOI-CODI, por gulags, campos de concentração e sei lá mais onde. Eu desconfio que ela seja tão velha quanto a própria humanidade. Mas ela ainda é forte, e consegue executar sua função muito bem.

Ela é mestre na arte de passar despercebida. Eu cheguei a achar que eram meus os pensamentos que ela sussurra no meu ouvido.

Como quando ela me diz que a minha vida não tem mais propósito, que eu estou sozinha, e que tudo que eu tentar fazer não vai dar em nada.
Solange também gosta de literatura. Ela costuma declamar “E agora, José?” enquanto eu tomo banho, o que é bem irritante.

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Ela me chama de “a última Buendía de Macondo”, porque a minha família também acabou. Aliás, ela bate nessa tecla sempre. “Lembra quando você tinha sua avó Safira, sua mãe e sua tia Lucineide?” “Eram bons mesmo aqueles tempos, né?”

Eu não sei como ela sabe dessas coisas, porque ela não estava lá. Mas esses poderes de vilã de Sessão da Tarde não me surpreendem.

Nessas horas eu abraço meu pai e torço pra que ela se toque e vá embora. Mas Solange não tem semancol.

Solange me cobra que eu não estou visitando meu pai com muita frequência, mas ela também me segura quando eu tento ir. E quando eu consigo chegar na casa de repouso, ela costuma apontar para os outros residentes: “Olha lá, seu pai também vai ficar numa cadeira de rodas, usando fraldas e sem conseguir falar. Em quanto tempo será que isso vai acontecer?”.

Ela não me deixa descansar enquanto eu durmo. Esse é um dos seus métodos favoritos. Os outros são bater, amarrar e me deixar atordoada. Às vezes ela segura minha garganta também, e morre de rir quando me faz achar que eu estou morrendo.

Eu parei de cair nesse truque velho, mas isso não impede que ela tente às vezes. Solange é dessas que nunca desistem de uma piada sem graça.

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É difícil levantar da cama logo que eu acordo. Meu primeiro impulso é gritar “Solange, me deixa sair!”, ao que ela responde “Mas você pode sair, Camila, não tem nada te segurando, você não levanta porque não quer mesmo”.

E eu fico achando que ela tem razão, a cama é um lugar tão bom, tão melhor do que qualquer outro lugar onde eu possa ir.

Por causa dela, tudo parece chato, e eu não consigo me concentrar em quase nada. E eu também passo o dia exausta. Aliás, foi por esse cansaço que eu procurei uma médica clínica, e depois uma psiquiatra. Essa última resolveu partir logo pra artilharia pesada: sertralina 50mg.

Atualmente eu não sei o que me destrói mais, se é Solange ou a sertralina. Será que Solange já ficou imune, depois de tantos anos lidando com a indústria farmacêutica? Ela parece ter ficado até mais forte e mais falante. Agora ela quer porque quer que eu largue a faculdade.

A sorte é que ela nunca lê as coisas que eu escrevo. E é nesses momentos que eu me livro um pouco dela. Agora ela está ali no canto da sala, afiando as unhas e lembrando seus tempos gloriosos na Inquisição Espanhola. Você precisa ver como ela conta vantagem.

Ela acabou de gritar que sabe que eu estou escrevendo sobre ela. E que isso não adianta nada, que só vai afastar mais ainda as pessoas de mim. Será?

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Solange vai embora, mas depois de um tempo tenta entrar aqui em casa de novo. Já montei barricadas, preguei tábuas nas portas, mas ela é forte. Forte demais.