Minha curta carreira de motorista

Como quase toda criança dos anos 90, eu ficava colada na Sessão da Tarde vendo filmes dos anos 80. Eu vi Ferris Bueller desfilar com uma Ferrari pelo centro de Chicago, Les Anderson destruir o Cadillac do avô dirigindo sem ter carteira, e Marty McFly viajar 30 anos pra trás em um DeLorean.

Eu sonhava que um dia seria eu, andando por aí em um Ford Pampa, com todas as minhas amigas na carroceria.

Mas esse dia nunca chegou, nem com o Pampa nem com carro nenhum.
Porque a verdade é que, do alto dos meus 31 anos, eu não conduziria um veículo nem pra salvar a minha vida.

E não é que eu não saiba dirigir, acho que a essa altura eu até sei. E eu tenho carteira desde 2004, ainda que esteja vencida desde o ano passado. Eu nem sei te explicar o que houve, na verdade.

Mentira, sei sim, e esse texto aqui é pra isso.

Dirigir é uma dessas coisas que a gente tem certeza de que acontecem quando a gente fica adulto. Junto com casar, ter filhos, emprego, um apartamento, e todos esses ítens mencionados na cena final de Trainspotting. É só questão de esperar a vida acontecer, e eu esperei.

Mas lá em casa mesmo as coisas não eram assim. Minha mãe, que era toda mulher moderna independente profissional etc só foi tirar carteira depois dos 40.

E eu acompanhei cada passo dolorido daquela jornada, que só engrenou mesmo depois que fomos morar num bairro mais distante e passamos a depender dela pra chegar na escola quando meu pai viajava a trabalho.

Ela nunca se tornou uma grande motorista, mas tinha habilidade o suficiente pra quebrar o galho. E aí ela cismou que não deixaria o mesmo suplício acontecer comigo.

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Quando eu fiz 18 ela me empurrou pra auto-escola, a mesma que ela havia feito. Na verdade todo esse lance de carro não tinha mais apelo pra mim, e eu estava totalmente feliz de ir pr faculdade de ônibus e rodar a cidade inteira a pé. Lembrando que eu morava em Itabuna, um município com 200 mil habitantes.

Parte das minhas amigas também não dava bola pra dirigir, enquanto a outra parte estudava a cartilha do Detran e se preparava pra tensão de encarar a rua. Pra ser bem sincera, eu achava que nada daquilo tinha a ver comigo.

Fiz aulas práticas no começo de 2004, com um instrutor que não era um ogro, mas também não era a pessoa mais paciente do mundo. E pra complicar mais ainda, ele vinha no começo da tarde, numa época em que eu tinha um sono mortal depois do almoço.

Cheguei a cochilar algumas vezes, e até subi um pouco o meio fio, mas foi nessas horas que eu percebi a importância de um instrutor com uma boa capacidade vocal. Aliás, boa não, excelente.

E eu nem sabia que só iria piorar daí em diante, começando com o examinador do meu teste de direção. O sujeito me torturou tanto durante o teste, agindo como se eu fosse uma adolescente mimada de filme americano, que eu já estava completamente em lágrimas quando meu pai me levou pra casa.

E aí eu aprendi que o mundo dos volantes é um lugar horrível, mais machista que o normal, onde você dá várias oportunidades pra que homens gritem com você. Por que eu participaria disso por vontade própria?

Com a carteira na mão, e por insistência do meu pai, lá fui eu me aventurar na rua pra ser xingada de novo. E de novo. E o engraçado é que enquanto mulher pedestre eu me sentia super vulnerável, mas vulnerável mesmo a gente fica é dirigindo.

Porque se a gente já está ousando de andar sozinha no espaço público ao invés de ficar em casa, o que dizer de fazer isso usando o brinquedo masculino por excelência? É como ser uma sufragette todos os dias.

Mas não é só pelas ofensas que dirigir me deixa em pânico. Eu também tenho problemas com controle e culpa. Eu não entro no carro dos outros pensando o tempo inteiro nos horríveis acidentes que podem acontecer, mas basta eu virar motorista que todas aquelas imagens vêm à minha cabeça.

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E eu nunca cheguei naquela fase em que dirigir se torna uma coisa natural, que você faz quase sem perceber, pra mim é sofrimento da hora de ligar até a de desligar a chave.

Por isso eu fiquei muitos anos sem tentar dirigir, até casar e vir morar em Belo Horizonte. Na cidade grande é mais difícil viver sem carro, eles diziam. É preciso dirigir pra ter liberdade. E lá fui eu fazer aulas pra habilitados problemáticos.

Primeiro com um sujeito que só me chamava de Patrícia – nunca soube por que-, e depois numa rede maior e mais conhecida que tem filiais pela cidade toda. Lá eles tinham acompanhamento psicológico, terapia em grupo e instrutores mais humanos, ou pelo menos era o que diziam na propaganda.

Nas terapias em grupo eu descobri que o público de lá era quase todo de mulheres. E ouvindo as histórias, eu percebi que o problema delas não era tanto o medo de dirigir, mas os companheiros abusivos. Tinha marido que inventava problema pra mulher não pegar o carro, namorado que ficava emburrado de ser carona e caras que chegavam até a fazer ameaças.

E eu só ficava pensando que elas estavam jogando dinheiro fora ali, que nada ia dar certo enquanto elas continuassem naqueles relacionamentos. Mas a psicóloga que moderava o grupo nem tocava nesse óbvio elefante na sala. Então eu fiquei quieta também.

E aí vieram as minhas novas aulas práticas. Chorei muito tentando subir uma ladeira num Fiat Uno, que era pra ser igual ao meu (“meu”? Eu não sinto aquele carro sendo meu) mas era muito pior. E tive que passar por ruas estreitas, e desviar de caminhões, e pegar avenidas com mais pistas do que eu gostaria de lembrar.

E no fim eu fiquei feliz, achando que a maldição tinha passado e eu tinha subido mais um degrauzinho na grande escada com fim invisível que é se tornar adulta.

Mas não foi assim. E por um motivo simples: os carros de auto-escola têm aquela direção auxiliar, que o instrutor pode usar caso uma grande merda aconteça. E é isso que me tranquiliza a ponto de eu conseguir pegar um carro por mais de algumas ruas.

Com um carro normal eu fico em pânico sempre, e aí junta no bolo as ruas super loucas do centro de Belo Horizonte e a lentidão de informar esquerda e direita que o meu marido tem. Receita pro desastre.

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Minha curta carreira de motorista teve fim no dia em que um ônibus bateu na traseira do nosso carro numa ladeira perto do Mineirão. Eu deixei o carro morrer por uns segundos e o ônibus vinha colado demais em mim.

O barulho foi tão grande que eu achei que o carro tinha sido destruído, mas só o plástico da lanterna quebrou. Mesmo assim eu não consegui parar de chorar por horas, e acabei molhando o meu almoço inteiro.

Isso aconteceu em 2012, o ano em que eu desisti. Não de forma assumida, mas fui colocando um monte de poréns pra não pegar no volante de novo. E quando a minha carteira venceu, uma força invisível parecia me afastar do Detran, mesmo ele ficando numa área da cidade que eu frequento sempre.

Aí o tempo passou, minhas amigas todas agora dirigem, minha irmã mais nova se apoderou do carro da família, e eu fiquei a eterna carona.

Hoje em dia não é tão difícil assim ficar sem dirigir. Tem aplicativo de ônibus, de taxi e de Uber. Pra UFMG eu e o Lucas vamos juntos, e ele pode me dar carona em vários outros momentos. Eu não deixo de ir a lugar nenhum por não estar de carro.

Eu cansei de insistir em algo que me fazia tanto mal, só porque era parte da grande narrativa que me contaram. E eu nem gosto de carro, por mim todo mundo largaria os seus e passaria a usar transporte público sempre.

O sonho de dirigir um Pampa ficou lá nos anos 90, junto com o sonho de virar compositora de música de desenho animado. Agora eu olho pro futuro, quem sabe esses carros sem motorista acabem virando tendência mesmo.

E você, tem uma história parecida? Ou sempre dirigiu super de boas?

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