Como realmente ajudar alguém em luto

Rabbit hole

Eu vou morrer. Você vai morrer. Todos nós vamos morrer, até o Keith Richards. Perder alguém é uma coisa normal e que acontece o tempo todo com qualquer ser humano. Um dia as pessoas queridas ao ser redor não vão estar mais lá, a menos que você morra antes.

Desculpa te contar essas coisas, mas não fui eu quem criou essas regras. Eu só estou aqui relembrando o que você já deveria saber.

Só que a gente gosta de fingir que isso tudo é mentira. Que o mundo que a gente conhece nunca vai mudar, e que nossos entes queridos vão ficar conosco pra sempre, ou até a gente enjoar deles e resolver se afastar por conta própria.

E aí falar em doença e em morte parece que traz um encantamento, um feitiço capaz de amaldiçoar a farsa que a gente criou pra conseguir suportar nossos dias. Eu te entendo, esse não é mesmo um assunto fácil.

O filósofo Montaigne tem até um ensaio que se chama “De como filosofar é aprender a morrer”, e daí você já vê que a coisa não é mole não.

Mas tanta negação tem seu preço, que é o show de horrores que se segue a todo anúncio de falecimento. Mesmo que a morte seja sempre uma possibilidade, ninguém sabe o que fazer quando ela finalmente chega.

Não existe aula sobre isso na escola, nem tutoriais no youtube, e ninguém discute em mesa de bar como lidar com pessoas enlutadas. Aí você descobre que o seu amigo de infância, aquela pessoa que sempre te apoiou em tudo, perdeu um parente próximo. O que fazer?

A educação e as leis da amizade te dizem que você tem que ir lá dar uma força, o que você até quer, mas tem receio. E aí você vai e recorre a uma infinidade de clichês e convenções sociais que deixam tudo muito mais constrangedor pra você e pra ele. Mas não precisa ser assim.

Eu resolvi então fazer um pequeno manual de como lidar com essas situações. Eu me baseei sobretudo na minha experiência, já que eu perdi a minha mãe e um monte de outros familiares. Eu também tenho um pai com Alzheimer – o que não é morte, mas envolve luto também.

 

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Cena de Stranger Things

Aprenda a ter empatia

Antes de conversar com uma pessoa enlutada, é bom primeiro entender o que é o processo de luto. Pode parecer meio óbvio, mas muita gente só conhece essa realidade de segunda mão, já que nunca perdeu alguém próximo.

Meu marido, por exemplo, tem toda a família completinha, perdeu só a avó paterna quando ele era pequeno, uma pessoa a quem ele nem era tão ligado. O avô materno dele tem quase 100 anos! Aí nesses casos tem que rolar um esforço mesmo.

Quando alguém próximo morre, o sobrevivente é transportado pro Mundo Invertido da série Stranger Things. É um mundo parecido com o nosso, mas escuro, frio, e com um monstro à solta. E a pessoa fica meio atordoada, sem entender como as coisas podem continuar funcionando, se pra ela tudo se transformou. Ela não consegue reconhecer onde está.

A sua função enquanto amigo, ou alguém que quer ajudar, é lembrar ao enlutado que uma parte do mundo dele continua existindo. Você ainda está lá, acendendo luzinhas de Natal como a Joyce, torcendo pra conseguir estabelecer uma comunicação.

Você é o piãozinho do Leonardo DiCaprio em A Origem, uma prova de que esta é a realidade, e não o pesadelo sem fim que tudo parece ser.

 

Leve comida

É difícil pensar em algo legal pra dizer, mas existe um jeito de acertar sempre, que é levando comida. Pode parecer contra-intuitivo, mas é o certo, vai por mim.

Quando a minha mãe morreu, eu me lembro de ter sentido muita fome. Nós estávamos em Salvador, no nosso apartamento de férias, e meu pai e meus tios estavam ocupados demais resolvendo os problemas burocráticos pra pensar em abastecer a geladeira.

E pra completar era o dia 31 de dezembro, e muitos estabelecimentos próximos fecharam mais cedo. E eu não tinha ânimo de ir muito longe. No fim das contas, eu passei a tarde e a noite comendo biscoito de água e sal. E só. Parecia parte de um ritual de tortura.

Essa fase pós morte é bem cansativa e cheia de confusão. Ninguém tem cabeça pra fazer coisas normais tipo comprar comida ou lavar os pratos. Então se você puder dar uma força levando um almoço, um jantar, lanche ou mesmo chocolates, certeza que a família em questão vai ficar super agradecida.

Afinal, todo mundo sabe que comida = amor.

 

Sookie se despedindo da avó enquanto come o último pedaço de bolo que ela fez
Sookie (da série True Blood) se despedindo da avó enquanto come o último pedaço de bolo que ela fez

Ouça mais, fale menos

Uma pessoa em luto não quer saber desses lugares comuns que você veio ensaiando no caminho, então esqueça os “meus pêsames”, “ele está num lugar melhor”, e “é preciso ser forte por causa das pessoas X”.

Se for como eu, ela vai estar com um milhão de coisas na cabeça e nem vai ouvir direito o que você disse. Então, eu aconselharia uma paradinha, um abraço, e um “me conta como você está, como estão sendo as coisas”.

Ressaltando que não é pra perguntar como a pessoa está, porque ela vai dizer “na merda/bem/tudo indo/você sabe como é” e a conversa morre aí. É pra pedir pra ela contar, assim, no imperativo. E aí você tenta estimular dizendo que estava preocupado com a pessoa, que estava pensando muito nela, ou simplesmente vai balançado a cabeça.

E pelo amor dos deuses nórdicos, deixa a pessoa falar. Não interrompa, não tente dar lição de moral, só ouça. Quem está em luto se sente invisível, um estorvo pros outros, um lembrete incômodo, então achar uma pessoa que queira ouvir e se interesse de verdade é um alívio imenso.

E se a pessoa não quiser falar, não insista também. Só de você ter mostrado disposição pra ouvir já ajuda.

 

Cuidado com o que você vai dizer

Mas você quer realmente falar alguma coisa pra confortar essa pessoa. Eu recomendo ter muito cuidado. Muito mesmo. Você vai estar lidando com alguém fragilizado, e que pode se ofender até com a melhor das suas intenções.

Na dúvida eu até sugiro consultar o Google sobre como agir a depender de qual foi a perda.

Quando minha mãe morreu, teve gente me dizendo que eu nunca iria superar essa falta, que ela me marcaria pra sempre. O que de uma certa forma é verdade, mas não da forma apocalíptica como me falaram. É a típica afirmação que não ajuda em nada.

Eu tenho lido muito sobre outros tipos de perda, e fiz algumas descobertas também. É cruel dizer a uma mãe que acabou de perder um bebê que ela é jovem e pode ter outros filhos. Ou a uma recém viúva que logo logo ela vai arrumar outro marido.

Quando você perde alguém o seu maior medo é de esquecer essa pessoa, e é doloroso alguém sugerir que ela pode ser substituída.

Aí vem a conversa polêmica do “pelo menos”. Eu gostei de ser lembrada do que eu ainda tinha de bom na época em que a minha mãe morreu, e mesmo na fase em que descobrimos a doença do meu pai. Mas eu soube por relatos que muita gente não gosta, acha que estão diminuindo e tirando a legitimidade do sofrimento delas. Então, talvez seja melhor pular isso aí.

O que eu acho que é sempre garantido é lembrar de coisas boas relacionadas à pessoa que morreu. Eventos engraçados, ou momentos em que ela foi bacana. Pessoas em luto são loucas por memórias, e se você der uma assim, de graça, ela vai aceitar com a maior voracidade.

 

O poema “Stop all the clocks” sendo declamado em um velório no filme Quatro casamentos e um funeral

 

Pule as referências religiosas

A menos que a pessoa que você quer ajudar seja da sua igreja, do seu grupo de oração, ou tenha manifestado muito claramente suas crenças, não mencione religião.

Na época em que minha mãe morreu veio gente me falar de como ela tinha ido pra um lugar maravilhoso, e de como seria lindo quando pudéssemos nos reencontrar. Algumas pessoas pareciam até saber o que minha mãe estava vestindo lá no outro plano.

O problema é que tanto eu quanto a minha irmã somos ateias há muitos anos, então essas ideias não significam nada pra nós. Eu sei que pra quem acredita tudo isso é real, e parece até razoável aliviar o sofrimento do outro com a esperança de felicidade na próxima vida.

Mas deixa eu te contar uma coisa: a pessoa em luto já está esgotando toda a sua reserva de energia sendo simpática com a galera sem noção. E é muito mesmo, eu acho até que deviam fazer pesquisas pra medir o quanto dá pra emagrecer só sorrindo amarelo em funerais. Não contribua pra esse gasto calórico indesejado: deixe pra evangelizar outra hora (ou nunca).

 

Esqueça a noção do “enlutado ideal”

O enlutado ideal é alguém que chegou no funeral bem cedinho, vestido ou vestida com esmero, porém sem ostentação. Essa pessoa tem uma lágrima singela em cada olho, mas não chora convulsivamente, porque isso é coisa de gente sem controle.

Ela recebe todos com carinho, até os urubus de enterro, e agradece mesmo quem sempre odiou a sua família. Se for mulher, nem vai borrar o batom depois de cumprimentar uma fila imensa de gente que ela não conhece e nem nunca ouviu falar.

Aí o enlutado ideal tira um tempinho pra se guardar, e depois de alguns meses volta a viver a vida normalmente, sem sofrer nada, e sem tocar no assunto. E pra retribuir tanto empenho, os outros dizem que o enlutado ideal é “forte”.

Por favor, não participe dessa loucura. Não chame essa pessoa de “forte”. Por que alguém seria forte só de ter uma perda? É tipo uma medalha, que você ganha magicamente logo depois da emissão do atestado de óbito? Eu sei que a intenção é boa (como dizem, de boas intenções…), mas é bizarra por dois motivos:

Primeiro porque afasta a pessoa de todas as outras, principalmente do interlocutor. Se aquele que sofre é “forte”, e eu não sou, isso só reafirma que eu não estou sofrendo, ele que está. Ser “forte” é o prêmio de consolação do último lugar.

E segundo que é um julgamento de valor, uma tentativa de enquadrar a pessoa nesse modelo de enlutado ideal. Quando a Isabella Nardoni morreu, eu ouvi gente dizendo que a mãe nem tinha chorado no funeral da menina. Pra essas pessoas ela não entra na categoria de “forte”, porque ela não cumpriu um requisito mínimo – principalmente pra mulheres-  que é mostrar sinais de choro.

O mesmo se aplica pra quem não deixa de frequentar festas no período de luto, ou se desespera e chora demais, ou entra em depressão, ou continua mal mesmo depois de muito tempo da morte.

Por outro lado, se depois de passado um tempo da perda a pessoa consegue transformar isso em algo construtivo, se ela se tornou uma pessoa melhor, aí dá pra dizer que ela ficou mais forte. Ficar forte leva tempo.

 

Sabe quem é forte? Lucinha Araújo, que criou uma fundação depois da morte do filho
Sabe quem é forte? Lucinha Araújo, que criou uma fundação depois da morte do filho

Luto é um processo pessoal e irregular

Tem gente que chora, tem gente lembra das coisas boas e ri. Tem quem fique tão paralisado que só vai entender e chorar muitos meses depois. Tem quem fique com raiva, e quem quebre coisas, e quem monte um altarzinho da pessoa falecida dentro de casa.

Tem de tudo mesmo. Então não julgue se a pessoa não se comporta como você aprendeu nos filmes e nas novelas. Ela não ama menos quem se foi por causa disso.

E muita gente confirma o que eu já tinha percebido, o luto vem em ondas. Você está lá, na fase de aceitação, aquela última do esqueminha que te ensinaram, e vem um desespero, uma angústia, um horror como se tudo tivesse acontecido de novo naquela hora. É normal também.

O problema é que a essa altura ninguém mais te dá a menor bola- nem aquela turma do “você nunca vai se recuperar”. A galera já se cansou de dar moral pra quem não ergue a cabeça e segue em frente.

Esse é o momento de ser amigo de verdade. Quem é amigo continua ligando, e perguntando como vão as coisas, e chamando pras festinhas. E quem é amigo MESMO continua a deixar a pessoa falar, sem reprimir dizendo que ela já devia ter superado a essa altura.

E principalmente sem dizer que falar de morte é desagradável e é melhor mudar de assunto.

Se você tem amigos que querem desabafar tudo com você, mas acham que o seu papo é mórbido e mandam você ficar feliz a todo custo, faça a si mesmo esse favor, mude de amigos.

 

Considerações finais

Se você já estava indo pra casa de alguém em luto, mas ficou com receio depois de tudo que eu falei, pode ir, vá com fé. Dê um abraço, até fale umas merdas se for o jeito, diga “desculpa qualquer coisa”, leve bolo e lave uns pratos. Assim fica tudo bem.
Se você não é tão próximo assim da pessoa, só estava indo porque é uma obrigação social e você quer ficar em paz, então não vá. Já tem um milhão de pessoas iguaizinhas a você rodeando a criatura, vai por mim. Mande flores, mande chocolate, mande um cartãozinho da hora, e deixe pra bancar a legal depois.

Nunca, jamais, em tempo algum dê os pêsames no mural do Facebook. A menos que a pessoa já tenha postado alguma coisa, e você só vá comentar. No tempo do Orkut teve gente mandando scrap (lembra do scrap?) sobre a morte da minha mãe, e aí uma legião veio e postou exatamente a mesma coisa. Foi tenso. Inbox, sempre.

Se você tem curiosidade sobre como as pessoas encaram a perda, então vá pro site Vamos Falar Sobre o Luto? Lá tem dicas, reportagens e vários relatos de anônimos e famosos. Aprendi muito, e sigo visitando.

Essas foram algumas dicas modestas de alguém que foi pro Mundo Invertido e voltou pra contar a história. E você, tem alguma coisa pra acrescentar? Sua experiência foi totalmente diferente e você não concorda com nada do que eu disse? Esse é um espaço aberto, quanto mais gente contribuindo melhor. E me conta se eu consegui te ajudar.

Você não acha também que é preciso falar sobre a morte pra poder cuidar melhor dos vivos?