Uma história de endometriose (mas com final feliz)

Eu comecei a menstruar com 11 anos, e sempre achei horrível. Na verdade eu não sei qual é a pior parte, se é sangrar por vários dias sem ter como parar, usar absorventes que incomodam, adaptar a sua vida a essa época miserável ou ter que agir como se estivesse fazendo alguma coisa muito errada, escondendo do mundo que você é uma mulher normal em idade fértil.

Mas eu não sei por que eu estou divagando tanto, o pior mesmo é sentir dor. Não era sempre que eu tinha cólicas, mas quando elas vinham, eram de inutilizar a vida. E aí eu tinha que procurar sociedades femininas secretas com dicas de como fazer o sofrimento acabar. Se cobrir bem ajuda? E aquele analgésico? Posso me contentar só com uma bolsa de água quente?

Ficar em agonia uma vez por mês é considerada uma situação normal pra mulheres. A vida é assim mesmo, vem da maldição de Eva. Não importa que você pareça uma vítima de filme de terror várias vezes por ano. Nem que acabe desmaiando por não suportar mais.

E é assim que quando uma doença séria aparece, como a endometriose, a gente mal consegue perceber. Tem gente que leva vários anos até receber um diagnóstico, e só acaba descobrindo mesmo porque tentou engravidar e não conseguiu. Isso sem falar daquelas situações mais graves ainda, quando o tecido do endométrio vai se espalhando feito a bolha assassina e chega a comprometer a bexiga e partes do intestino.

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Em 2012 eu comecei a notar umas dores diferentes, pontadas no canto inferior da barriga. Elas começaram a acontecer sem relação com o ciclo menstrual – por isso me chamaram a atenção – e duravam vários dias, atrapalhando as divertidas atividades realizadas na área próxima.

Fui na ginecologista, fiz ultrassom e lá deu que eu tinha cisto hemorrágico. Que apesar do nome assustador, e de poder causar algum incômodo, não representa perigo na maioria dos casos. O próprio corpo acaba absorvendo depois.

Parecia que estava tudo bem, mas minha médica estava intrigada com um detalhe: eu tinha cistos hemorrágicos nos dois ovários ao mesmo tempo. O que pelo visto não era tão comum de acontecer. Aí ela quis fazer em mim um exame de toque, que é nada mais do que enfiar o dedo lá no fundo da dita cuja, apertar com força e dar uma rodadinha em busca de treta.

E treta foi encontrada. Eu senti uma dor absurda, caiu uma lágrima, e eu só não urrei a plenos pulmões porque eu sou uma pessoa fina. A médica concluiu que tava rolando um lance sinistro. Possivelmente a tal da endometriose. Aí ela me indicou uma ressonância magnética com preparo intestinal e uns exames de sangue.

Eu não sou da área de saúde, então é possível que eu tenha esquecido de relatar algum procedimento desse processo, ou esteja divulgando informações erradas sem querer. Essa é só a minha experiência, que eu estou tentando contar da melhor forma possível. Pra saber mais detalhes, assim, de fontes confiáveis, procura no Google Acadêmico, no Scielo, ou em sites como o da Sociedade Brasileira de Endometriose.

O Centro de Endometriose São Paulo criou uma mascote chamada "Endy" pra responder perguntas. Achei creepy, mas vai que ajuda, né?
O Centro de Endometriose São Paulo criou uma mascote chamada “Endy” pra responder perguntas. Achei creepy, mas vai que ajuda, né?

Agora voltemos ao relato. A endometriose é uma doença espaçosa, mas que ao mesmo tempo se esconde. Ela não aparece naquele ultrassom normal que você faz de vez em quando. Tem que ser um exame invasivo pra conseguir enxergar tudo, e essa é mais uma das dificuldades de diagnóstico.

A ressonância que eu fiz exigiu uso de laxante um dia antes e gel nos dois grandes buracos do baixo ventre (é, lá e lá também) durante toda o suplício. Agora tenta ficar imóvel nessas condições.

No fim das contas o negócio dos ovários era só um alarme falso mesmo, eles acabaram voltando ao normal sozinhos. Mas o exame acusou focos de endometriose em um dos ligamentos uterossacros (que sustentam o útero) e um pouco no próprio útero (o que eles chamam de adenomiose). “Minha vida acabou”, pensei eu, “vou sentir dor pro resto da vida.”

Eu caí na bobagem de consultar a opinião do Dr. Google. Não faça isso em hipótese alguma se você acha que tem endometriose. Você vai chegar a relatos horríveis de gente que teve que tirar pedaços de órgãos, e mesmo assim continuou sofrendo. Sem falar nas fotos, que vão te fazer chorar por horas.

Voltei lá na médica, com o coração na mão, e ela foi logo me acalmando. Disse que não era assim essa desgraça completa, que eu tinha pouca coisa, que mesmo sem cura endometriose é controlável, que dava pra viver sem dor, e etc.

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Aí veio a parte estranha: ela passou a falar por vários minutos sobre as minhas chances de engravidar. Assim, sem eu ter mencionado nada. Sem eu nem dar corda pra ela continuar. Ela ficou lá dizendo que eu podia tentar por um ano naturalmente, que depois disso dava pra fazer inseminação, que um monte de gente consegue, e por aí vai.

E eu só pensava que se fosse ajudar em alguma coisa, eu topava arrancar útero, ovário, e o baile todo. Assim, na hora, na lata. Foi quando eu descobri que eu não queria mesmo ter filhos.

Agora deixa eu explicar um pouco como a doença funciona. A endometriose acontece quando o tecido da cavidade uterina é encontrado em outras partes do corpo. O mais normal é ele ir parar nas regiões próximas, mas já foi encontrado em pulmão, e até em cérebro. Existem algumas hipóteses pra explicar por que uma bizarrice dessas acontece, mas os pesquisadores ainda estão se debatendo.

E agora vem a parte louca: esses tecidos fora de lugar respondem ao chamado hormonal como se estivessem no útero. Sabe os filmes do Drácula? Quando os seguidores entram em transe e obedecem aos comandos dele onde quer que estejam?

É mais ou menos assim. Esses tecidos sangram e inflamam. E eles se espalham, fazendo mais vítimas. Daí que a menstruação se torna a maior inimiga da mulher com endometriose.

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No meu caso, que não queria ter filhos, foi indicado um DIU de Mirena. Ele é encaixado no útero, assim como o de cobre, e libera um hormônio chamado levonorgestrel, que age como a progesterona. Aí o processo macabro é interrompido. Muitas mulheres acabam parando totalmente de menstruar, e foi o que aconteceu comigo.

Poucos meses depois da inserção eu já não sentia dor nenhuma. E assim permaneço até hoje, quatro anos depois. Até esqueço que a doença existe. Quanto ao Mirena, foi uma das melhores coisas que aconteceram na minha vida.

Não só eu me livrei da chatice de todo mês como finalmente consegui firmar com um contraceptivo hormonal. Ninguém tinha me dito antes que dor de cabeça de pílula podia ser resolvida usando um hormônio só, ao invés de dois.

E fica a minha dica pra você, minha jovem: não ignore o seu sofrimento. Não fique achando que você tem que aguentar um Alien na barriga todo mês. Procure um médico e faça exames. Pode ser uma coisa grave, pode não ser, mas de qualquer forma, acabe com esse filme de horror B que tem sido a sua vida.

Seja a mocinha badass que mata o monstro no final.

Mas favor ser uma mocinha estilo Sidney

 

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13254390_258797617807494_1941684080313130587_nEssa sou eu, Camila. Escritora não assumida, mas muito praticante. Escrevo blogs, newsletters, contos, e-mails, listas de mercado e o que mais ocorrer. Mais sobre mim aqui.

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