São João longe da Bahia

Minhas versões de caipira: entediada com a irmãnzinha e arrasando com o macharal

O São João foi semana passada, dia 24. Lá na Bahia as pessoas se preparam meses pra essa data, fazem contagem regressiva, perguntam os planos de amigos e parentes e escrevem coisas estranhas em suas redes sociais como “é o cão que fica aqui, São João é Ibicuí.”

Pra muita gente essa é uma festa tão importante quanto Carnaval ou Natal, dependendo da forma como se comemora, se na farra ou com a família. Muitas cidades fazem festas tradicionalíssimas, e mesmo naquelas em que nada de muito grande acontece, a nuvem de pólvora dos fogos só vai baixar vários dias depois.

Aqui em Belo Horizonte é bem diferente. As pessoas chamam pelo genérico “festa junina”(qual delas? são 3 santos!) e comemoram em qualquer dia de junho ou julho (quando vira a esquisitíssima “festa julina”). Eles servem muncunzá e chamam de “canjica” e a canjica verdadeira eles chamam de “mingau” ou “curau” de milho. Uma blasfêmia.

Em 2010, ano em que vim morar aqui, tudo parecia muito estranho. Ninguém se pronunciava no dia certo, ninguém dizia “Feliz São João”, e só estabelecimentos comerciais faziam festinhas, nos mesmos moldes daquelas celebradas em escolas. Não tiinha fogueira, nem fogos, nem chuvinha, nem doce de jenipapo nem forró tocando na rádio por dias inteiros.

Quando eu era criança, a gente comemorava São João na casa de praia da minha família ou em Vitória da Conquista, onde morava a família do meu pai. Era raro a gente ficar em Itabuna mesmo. Meu pai comprava na estrada a madeira pra fazer fogueira, e a gente gastava horas montando e tentando acender. Que triunfo quando o fogo finalmente pegava!

Minha avó materna sempre contava histórias esquisitas de competições de saltar sobre o fogo. Eu achava louco.

No bairro da minha avó paterna os vizinhos se visitavam uns aos outros na noite do dia 23, perguntando “São João passou por aqui?”. Era o trick-or-treat brasileiro, que sempre acabava em gente comendo na casa dos outros, contando histórias e juntando mais voluntários pra expedição.

Enquanto isso eu ia deixando um indesejável rastro de traques por onde passava. Quando não resolvia pocar (baianês pra “estourar”) vários no teto, e acabava repreendida pelo adulto mais próximo. Mas o que eu gostava mesmo era de “chuvinha”, e daqueles traques de acender, que despertavam a piromaníaca que existia em mim.

A manhã do dia 24 era reservada tradicionalmente pra contemplar os restos da fogueira e comentar sobre os mortos e mutilados na “guerra de espadas” em Cruz das Almas, um costume bem bocó que parece que não vai acabar nunca.

Hoje eu me acostumei a ficar sem essas coisas todas. Pra falar a verdade eu até esqueço do dia certo da festa, já que nem meu marido liga pra isso. E olha que ele é nordestino de Fortaleza, e até morou em Campina Grande.

Mas eu confesso que fiquei com uma certa inveja quando a minha irmã, que tá em Itabuna agora, me mandou fotos da festinha que ela fez. Espero que ela me traga pelo menos um traque.