Você é uma vigilante do peso das outras?

Desde que eu me casei eu engordei 16 quilos. Não foi tudo de vez, mas o resultado é esse aí depois de seis anos. Meu formato anterior era peitão, barriga, perna fina e bunda nenhuma, e agora já tem um pouco mais de distribuição.

Mas no começo eu não levei tão de boas como levo hoje.

Eu moro em Belo Horizonte, e ia pra Itabuna, minha cidade natal, todos os anos. E todos os anos eu passava por um processo muito estranho. Sempre que eu ia visitar certas parentes da minha mãe, a primeira coisa que eu ouvia era que eu tinha engordado.

Não um “tudo bem?”, “como vão as coisas?”, mas “nossa, como você engordou” ou até mesmo um “mas você tá grávida?”. Isso tudo antes mesmo de entrar na casa. E o tom era tão agressivo que eu ficava me perguntando se eu tinha entendido errado, e na verdade estavam me acusando de ter matado a pedradas uma ninhada de gatinhos.

Eu já sabia antes que mulheres não tinham o direito de aumentar o seu tecido adiposo. O mundo é um concurso de miss pouco disfarçado, e os juízes estão por todo o lado, como personagens de 1984. Basta um vacilo que te mandam pro Quarto 101.

O Quarto 101 é onde as pessoas são torturadas com os seus piores medos no livro 1984.
O Quarto 101 é onde as pessoas são torturadas com os seus piores medos

Mas por que as pessoas fazem isso? Por que elas ficam tão felizes de chamar a atenção pro corpo alheio? Por que elas escolhem tornar miserável o dia de uma criatura que às vezes elas nem odeiam?

A resposta mais óbvia seria dizer que são cruéis, mal-amadas e insensíveis. Criticar os outros seria só um passatempo entre empalar bebês e jogar sal em rãs. Mas eu acho que isso não resolve muito o nosso problema.

Aí tem a questão da nossa cultura, o que é verdade. Todo mundo se acostuma desde cedo a achar que obesidade é pior que câncer, e que toda gordura deve ser castigada. Mulheres mais ainda, porque são elas os enfeites do mundo. Tá tudo explicadinho naquele livro famoso que eu não li, O Mito da Beleza.

Mas por que dizer na cara? Por que não comentar só pelas costas, como se faz com as adúlteras e as doentes mentais?

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Deixa eu te apresentar então as minhas três hipóteses.

A primeira é quase teoria já, de tanto que já foi testada. Quem comenta do seu aumento de peso na verdade acha que está te ajudando. O que seria de você, barrigudinha sem noção, se não fossem essas incansáveis sentinelas? Ia comer até explodir, como aquela personagem de novela da Globo.

A preocupação é só com a saúde. Ninguém pergunta do seu papanicolau, pede exames de sangue ou te acompanha naquela consulta chata. Mas reparar nos quilinhos que voce ganhou, isso pode salvar a sua vida.

Esse pensamento tem muita coisa errada, mas vamos começar por essa ideia de +gordura = – saúde. Todas as mulheres são criticadas, as que aumentaram 3 ou 300 quilos. Quem critica nem sabe se a pessoa faz uma atividade física com frequência, controla a alimentação e faz check-ups regulares.

E ainda que não se faça nada disso, que direito uma pessoa tem de fazer julgamentos públicos sobre o corpo de outra?

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“A gente disse que ela tava gordinha, mas ela não quis ouvir”

Sabe o seu corpo? Aquele que a sua mãe gestou por meses, que tem cicatrizes de infância, roxos de machucados, e que você lava, alimenta e veste todo dia? Aquele que representa o espaço mais básico que você ocupa no mundo, e que é o que há de mais seu na sua vida?

Pois estão dizendo que ele não serve, não embeleza o ambiente, não é bom o bastante. Você aceita isso?

Eu aceitava. Eu baixava a cabeça e quase me desculpava pelo crime de preencher mais espaço do que me foi autorizado. Eu odiava esse saco de ossos, músculos e banha, e prometia a mim mesma que iria voltar ao peso que eu tinha antes (o que nunca aconteceu).

Eu já fiz parte de um grupo de Facebook pra pessoas que queriam emagrecer. Na parte de relatos, o que havia de mais comum era gente contando que foi humilhada na rua, no trabalho, em reuniões de família, e que isso deu o estímulo pra perder peso. Uma clássica culpabilização da vítima.

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Tá, deixa eu passar logo pra minha segunda hipótese. Quando uma mulher acusa a outra de ser gorda, ou de ter engordado, ela na verdade está desviando o foco dela mesma. Ela se sente mais magra e menos alvo, já que o poder de acusação implicaria estar fora do julgamento.

Tão esperto quanto a prestidigitação (aprendi essa palavra agora) daquele mágico de quermesse, que sacode bem a mão pra você não ver pra onde foi a bolinha.

Ela faz isso de forma consciente? Talvez sim, talvez não, mas o fato é que faz. E eu já observei esse fenômeno acontecendo em outras situações também. Chamar outra pessoa de negra, gay, piranha, comunista ou bruxa pode ser uma necessidade de se afirmar como não sendo nenhuma dessas coisas.

Homens também são fiscais da adiposidade alheia? Sim, mas acho que o processo é diferente, e eu precisaria de outro texto pra explicar. Eu sei que podem ser vítimas também. E o controle de corpos também funciona pra pessoas que são consideradas magras demais, essas “doentes aidéticas anoréxicas”.

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A da esquerda é “vaidosa”, “cruel”, “superficial”, entre outras coisas. A da direita é “preguiçosa”, “indisciplinada”, “insegura” e etc.

Aí eu passo pra minha terceira hipótese: a pessoa comenta do seu aumento de peso porque ela comenta de tudo e nunca vai parar. Se ela se sente no direito de cobrar filhos, casamento, emprego e sucesso até de quem está na frente dela na fila do pão, por que não faria isso com você?

Falar que você engordou é tão natural quanto reconhecer que o sol nasceu, que água é molhada e que vamos todos morrer.

É possível que essa pessoa nem perceba que está te fazendo mal. Assim como aquele sujeito que canta todas as mulheres que passam na rua, simplesmente porque elas passam na rua. O raciocínio dessa galera é que se você escolheu ter um corpo, então tem que aceitar a avaliação dele.

Porque, como sabemos, planar por aí como o Gasparzinho é sempre uma opção.

Eu só peço que você não seja essa pessoa, a vigilante do peso dos outros. Sabe, ninguém gosta dela, a gente só não cria treta pra evitar a fadiga. Todo mundo foge de gente assim, do mesmo jeito que foge de vendedores de Herbalife e Testemunhas de Jeová que tocam nossa campainha às 7 da manhã.

Quer um corpo pra cuidar e vigiar? Cuida do seu. Ele tá aí, só esperando o seu amor e a sua atenção. A humanidade agradece.

Mas eu nem sou um bom exemplo não. Olha eu aí zoando o papelão do Felipe Massa.
Mas eu nem sou um bom exemplo não. Olha eu aí zoando o papelão do Felipe Massa.

 

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13254390_258797617807494_1941684080313130587_nEssa sou eu, Camila. Escritora não assumida, mas muito praticante. Escrevo blogs, newsletters, contos, e-mails, listas de mercado e o que mais ocorrer. Mais sobre mim aqui.

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