Eu não nasci pra trabalho, eu não nasci pra sofrer?

Peggy Olson em Mad Men

Eu não trabalho. Na verdade nunca tive desses empregos de verdade, com carteira assinada, benefícios, essas coisas. Sabe quando Getúlio Vargas falava em trabalhadores do Brasil? Ele não estava falando de mim (até porque eu nem era nascida no tempo em que ele era presidente).

Lembra de todas as vezes em que você viu na internet alguém dizendo “eu trabalho, não tenho tempo pra isso”, ou “vá trabalhar”, ou “não vou discutir com gente que é bancada pelos outros”? Foram argumentos feitos pra que gente como eu perdesse discussões. Já foram usados contra mim, inclusive.

A parte maior do meu sustento vem do meu marido, e uma parte pequena de um dinheiro do meu pai que eu recebo. Aí você me pergunta “Mas que raio de feminista é você que é sustentada por DOIS homens?” Pois é, eu mesma me fiz essa pergunta por um bom tempo. E ainda estou me debatendo com uma resposta. Afinal, “O trabalho liberta”, como já dizia aquele portão de 
Auschwitz.

Quando você conhece uma pessoa nova, em geral a primeira coisa que você pergunta é com o que ela trabalha (“mexe com o quê?” em bom mineirês). Essa mesma pessoa pode até começar a falar espontaneamente sobre o “seu serviço” (mais uma vez, em bom mineirês).
A menos que ela não trabalhe. Aí ela vai ficar tão desconfortável quanto eu, e dividida entre contar uma história enorme de coisas que foram dando errado ou lançar uma piadinha marota que vai fazer todo mundo rir e passar pro próximo assunto. Eu costumo fazer as duas coisas. Hoje é o dia da história enorme.

Agora você deve estar se questionando “Camila, você foi pra escola de princesas? Foi educada desde a mais tenra idade a reinar no lar?” e eu respondo que isso estava bem longe da formação que eu recebi. Meus pais tiveram aquelas histórias de vida de gente que tinha pouco e conseguiu passar em concurso.  

Meus pais poderiam ser garotos-propaganda de campanha política de direita pra mostrar que meritocracia dá certo. Já pensou meus pais num comercial do PSDB? Seria divertido pra eles, que eram petistas naquele tempo em que ser do PT era tipo ser do PSTU.

Meus pais também brigavam muito. Acho que quando eu era adolescente eles brigavam feio pelo menos uma vez por mês. E as discussões deles começavam pelos motivos mais banais e seguiam o mesmo script por anos a fio.

A gente até já sabia se estavam começando ou acabando pelos argumentos que eles usavam. Por exemplo, quando minha mãe vinha com o fatality “eu nunca deixei de trabalhar um único dia desde que entrei na faculdade” a gente sabia que a briga tava acabando. Meu pai ficou desempregado um tempo antes de eu nascer, e minha mãe que segurou as pontas.

E isso deu munição pra uma vida inteira, usada sempre depois da provocação “quem coloca mais dinheiro nessa casa sou eu”. E eles foram casados por 20 anos, veja só.
Mas enfim, contei tudo isso só pra você perceber que trabalho era uma coisa importantíssima no lar onde eu cresci. Era o match point que decidia os confrontos mais acirrados. Como não dar valor e achar que essa era a coisa mais incrível que um ser humano poderia ter?

Eu fui criança prodígio. Na verdade me disseram que eu era. Depois eu descobri que as coisas maravilhosas que eu fazia quando era pequena qualquer criança consegue também. Tipo reconhecer todos os logotipos de bancos aos 2 anos (justo bancos, eu odeio bancos).

Ou começar a ler aos 4 anos, e entrar na alfabetização com 5. E sempre ficar nos primeiros lugares na escola, e ler mais livros que a maioria dos adultos à minha volta (incluindo meus pais). Eu era aquele tipo clássico da nerd que só fazia apanhar.

Se você usar uma máquina do tempo pra voltar àquela época, e contar a alguém que aos 31 anos eu sou só uma desempregada, a pessoa vai rir de você, porque máquinas do tempo não existem. 
Quando eu era adolescente, eu estudei em colégios que divulgavam aqueles rankings de alunos com as melhores notas, o que eu acho que é uma péssima ideia. Péssima pra mim, porque eu passei a entrar em uma competição insalubre comigo mesma.

Você que estudou comigo nessa época, e sempre questionou a cara de paisagem que eu fazia quando falava sobre essas coisas, saiba agora a verdade: eu tinha horror e pânico de cair de posição na unidade seguinte (ou de não subir, caso não estivesse em primeiro). Eu passava mal e não dormia a cada véspera de entrega de boletim.

E meus pais começaram a se aborrecer tanto que eu devia ser a única aluna a levar bronca por aparecer em casa com notas altas. Eles achavam aquilo insano, e que eu estava na escola pra aprender, não pra ter úlcera e problemas mentais.

(“Uma nota pra passar?”Tipo C? Por que não ficar logo grávida em um terminal de ônibus?!)

Eu sempre achei que teria um emprego bacana aos 30 anos. Quando teen eu oscilava entre “quero ser rica/não quero ser rica”, e me imaginava meio como personagem de sitcom, dessas que moram em Nova York e têm empregos engraçados e problemas descolados. Eu queria ser como a Caroline de Caroline in the City (que era cartunista).

Quando eu era menor eu pensava em ser escritora. Depois passei por uma época de achar publicidade legal. Aí eu quis cursar história ou filosofia, porque meu coração problematizador sempre foi de humanas. Aí a minha mãe passou a surtar com a ideia de eu ser uma pobre professora de colégio pobre, e eu tive que deixar as humanas pra lá.

Acabei resolvendo fazer relações internacionais, que parecia que dava algum dinheiro, respeito, status, e ainda me permitiria estudar o que eu gostava.

Passei os três anos do Ensino Médio achando que iria fazer vestibular pra relações internacionais na UnB, que na época era a única pública a oferecer o curso. Eu fui estudar em Salvador pra ter mais chances. Eu fiz um monte daquelas provas bizarras da CESPE em que as questões vão se anulando umas às outras.

Eu fiz inscrição pra UnB. E fiz inscrição em direito também, na estadual mais perto de casa, só pro caso de não passar em Brasília (o primeiro semestre de direito e de relações internacionais era praticamente idêntico).

O que eu não contava era que no fim do meu terceiro ano, aos 45 do segundo tempo, meu pai iria repensar o lance da UnB. Eu era muito jovem, ele disse. Eu teria só 17 anos no meu primeiro ano de faculdade em uma cidade distante e desconhecida. E como já era tarde demais pra fazer qualquer outra coisa, eu teria que me contentar com direito mesmo, que era um curso ótimo, maravilhoso, e o que eu deveria ter escolhido desde o começo.

Na época eu achei que ele tinha me trolado de propósito, hoje eu sei que ele só entrou em pânico, como entrou em pânico algumas vezes depois também. Eu só queria que ele tivesse surtado mais cedo, quando eu ainda poderia rever minhas opções.

Não fui pra Brasília fazer a prova. Minha única chance de entrar na faculdade era passar em direito na UESC, e foi só lá que eu tentei. Eu era muito trouxa nesse tempo. Não me ocorria de jeito nenhum simplesmente sabotar o vestibular pra ter um ano inteiro pra pensar melhor.

Eu preferia a morte à reprovação, mesmo que fosse pra um curso super bosta. Acabei passando e ficando nesse negócio por cinco anos, felizes pela experiência universitária, mas um pesadelo pela experiência acadêmica.

Antes de parar de culpar meus pais, que nem podem se defender, deixa só eu falar uma última coisa: eu quis largar o curso, mas sempre rolava um escândalo lá em casa quando eu tocava no assunto. Aí eu só passei a alimentar planos de mestrado, primeiro em filosofia, depois em antropologia (tenho dois mestrados incompletos na área, mas não posso juntar os dois pra fazer um).

Muita coisa foi dando errado depois disso, mas eu meio que já enjoei dessa história. Afinal, eu estou nela há anos, e minha cabeça sempre transmite os melhores momentos dos meus fracassos 24 horas por dia em HD.

Eu só queria te dizer que eu tentei. Eu tentei ser um membro produtivo da nossa sociedade, desses que pagam impostos com o suor do próprio rosto, o que é um jeito meio nojento de pagar impostos.
Mas aí você pode dizer “que nada, se você quisesse trabalhar mesmo, seria até caixa de mercado”. E eu respondo que é verdade. Mas é aí que entra o fator sorte. Eu sempre pude ser sustentada pelos já mencionados pai e marido. Até tive bolsa por um tempo em um desses mestrados parciais, mas ela não teria rendido muito se eu não morasse num apartamento que era da minha família. 

Quando eu me casei, e minha bolsa acabou, eu tive um momento de choque. Eu percebi que havia me tornado uma dona-de-casa, a antítese de tudo o que eu achava que eu era. Minha mãe morreria de vergonha se pudesse me ver. Todo o dinheiro que meus pais gastaram por anos pagando escola pra mim tinham ido pro ralo. Eu era o experimento caro que não deu certo, eu era o Ônibus Espacial Challenger (aquele que explodiu depois do lançamento e matou todo mundo).

Eu queria fazer alguma coisa, mas eu não sabia o quê. Veja a minha situação: ser sustentada por Lucas nunca me trouxe problemas. É super de boas. Nem faz tanta diferença pra ele, já que a maior parte dos gastos ele teria de qualquer forma. Sem falar que minha mãe já morreu, e meu pai foi interditado, o que me faz ter acesso a alguns recursos.

Por que eu arrumaria um emprego qualquer só pra satisfazer as vozes imaginárias que atormentam o meu sono? Por que o meu valor parece depender tanto disso?

Hoje a gente vive em uma sociedade com esse discurso da dignidade do trabalho. Mas nem sempre foi assim. Na Grécia Antiga trabalhar era coisa de escravo e de gentinha. Aristóteles falava com o maior desprezo dos trabalhadores na Política. Tipo, o sujeito praticamente fundou todas as áreas do conhecimento humano, mas não achava que estava trabalhando, tava só sendo “livre” e causando na pólis.

E você já abriu algum livro da Jane Austen ou das Irmãs Bronte? Os bem-nascidos, os gentleman, eram os indivíduos que passavam o dia todinho fazendo p**** nenhuma, eram só os primogênitos que herdaram a propriedade toda da família. Os filhos seguintes tinham que se sujeitar à degradação de serem médicos e advogados. Uma coisa horrorosa.

O jogo virou quando chegou esse negócio de protestantismo. O trabalho se tornou o caminho da salvação, e o sucesso era sinal de que Deus tinha escolhido você, assim como Ash escolhia os Pokémons. E assim surgiu a galera que coloca em seus carros adesivos como “não me inveje, trabalhe”.

Se eu acho ruim que trabalhadores sejam valorizados? Acho não. Tenho até amigos que são trabalhadores. Eu fui marxista quando jovem e li 1/3 do Capital. Eu manjo essas coisas todas de classes dominantes e opressão do proletariado.

Mas e esse negócio de que só vale o esforço se alguém nos recompensa com o vil metal? Por que gente que escreve e ganha dinheiro é escritor, mas quem escreve e só recebe joinhas é desocupado? Sabe há quanto tempo esse texto gigante está me ocupando? Vale menos porque ninguém vai pagar por ele?

Se eu sei que em uma cultura machista como a nossa uma mulher depender do marido nem é algo tão grave, que o contrário que seria o fim do mundo? Sei sim. E acho uó. 

Estaria eu jogando pro alto conquistas décadas de conquistas feministas pelo direito da mulher de trabalhar fora de casa? Acho que não. Nem estou dizendo que é uma coisa que todo mundo deveria fazer, só que a essa altura não parece mais tão horrível pra mim.

Mas e o curso de letras? Você pergunta de novo. (Aliás, qual é a sua, hein? Sua fase dos “por ques” não acaba nunca?) E eu respondo, que tá indo lá, mas que eu não sei mais no que vai dar. Meu plano tem sido não ter plano nenhum.

Acho que o meu emprego dos sonhos mesmo era ser filósofo na Grécia Antiga. E poder escrever e falar sobre o que eu quiser, ler o que eu quiser, e mudar de interesses como o presidente interino muda de ideia.
Mas não seria isso exatamente o que eu já estou fazendo aqui?