Eu e você: mosaicos de partes dos outros

Uma das diversões de ter filhos biológicos é ficar tentando traçar a origem familiar de cada parte do corpo da criança. Até dos bebês, que não têm cara de nada. É como se fôssemos todos um jogo de desmontar, o Frankenstein da mamãe.

Por exemplo, desde criança que me perguntam de onde vêm os meus olhos claros (que meus pais não tinham). “Vêm de lugar nenhum, eles sempre estiveram aqui” eu deveria ter respondido. Mas minha mãe me ensinou a dizer que vieram das minhas avós.

Durante a minha infância inteira eu ouvi que era a cara do meu pai. O que devia ser um elogio, porque meu pai é galã até hoje. O tom de pele parecido, o mesmo cabelo, a mesma boca e o mesmo nariz. Eu era uma espécie de seu Geraldo de cabelo grande e sem barba.

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Meu pai com 12 anos

Ninguém achava nada da minha mãe em mim, só na minha irmã. Elas duas tinham a pele mais clara, cabelo castanho e boca comprida com lábios finos.

Minha irmã e eu não temos praticamente nada em comum, e as pessoas até se surpreendem de saber que somos parentes. Essas loucuras da mestiçagem brasileira.

A minha herança materna só foi aparecer na adolescência. Peito grande, tendência pra engordar e uma pança que não vai embora por nada desse mundo. Aliás, é essa pança que une quase todas as mulheres da nossa família.

Menos a minha tataravó Cecília, que eu só conheço de foto. Sempre magra, aquela lá.

É engraçado pensar que nós somos um mosaico de outras pessoas, e que a gente nunca saiba como vai ser a próxima combinação. Deve ser por isso que as pessoas enchem tanto o saco pra que os outros tenham filhos.

É a ansiedade de ver se o nariz do vovô, ou as covinhas da vovó vão aparecer de novo, só pode.

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Minha mãe adolescente

Eu não acho que filhos biológicos tenham alguma vantagem em relação a filhos adotados. No fim das contas, dá tudo no mesmo. Mas quando você perdeu quase a sua família inteira, como eu, existe um certo consolo em identificar no próprio corpo as partes das pessoas queridas que você não tem mais.

Eu não daria muita bola pros meus olhos se eles também não fossem os olhos da minha avó Safira. E eu até me chateio menos com a minha barriga quando lembro que era algo que a minha mãe também tinha.

E hoje em dia é uma alegria quando meu pai me olha e se reconhece. Nesses tempos em que o Alzheimer já levou tanta coisa da memória dele.

Eu fico me agarrando a essa esperança de que com isso ele demore mais a esquecer de mim.

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Todas as pessoas mencionadas nesse texto. Primeira Comunhão de Thaís, em 2000.