Por que escrever é como cagar

“Escrevo porque gosto, cago porque preciso”: seria a minha frase de parachoque, caso eu tivesse um caminhão. Se bem que na verdade mesmo eu preciso é fazer os dois, escrever e cagar. Você tem que ver como eu fico insuportável quando deixo acumular ideias ou material orgânico destinado à excreção.

Desculpa usar o verbo “cagar”, o que parece feio da minha parte, mas é que “fazer cocô” ou “fazer #2” ocupam muito espaço no título. E você nem teria clicado se fosse assim, fala a verdade.

Vamos aos motivos:

Quando dá aquela vontade, tem que correr pra atender

b8df313deb487edb7160a3fd4ea349e9

Todo mundo já passou pela situação de estar ocupado e ter subitamente um amigo do interior precisando ir pro rio, ou aquele fax que precisa ser passado, ou aquela mortadela que precisa sair do plástico. E aí nada mais importa, só o seu imperativo visceral.

Se der tudo certo e você agir rápido, o negócio sai fresco e quentinho, como tem que ser. Com texto é a mesma coisa. Às vezes eu tô no meio de uma aula, ou de uma consulta, ou até de uma prova, e vem uma ideia fantástica.

E ela me atormenta, não me deixa concentrar em nenhuma outra coisa e não sossega até que eu pelo menos escreva um resumão dela no Evernote. Vale bloquinho de anotações também, mas eu quase nunca tenho um desses por perto. Já o celular…

E quando a ideia chega no momento certo, quando eu posso me dedicar com tudo que há em mim, saem posts legais em 20 minutos, como o Cara moça da recepção. Timing é tudo para a escrita e para as fezes.

Quanto mais você adiar, pior fica

Constipação deixa o marido cansadão
Constipação deixa o marido cansadão

Mas você também pode bancar o espertão, e dizer “eu tenho controle sobre as minhas entranhas: tartaruguinha, segura essa cabeça aí”. E o seu corpo vai fingir que te obedece, fazendo a vontade passar por um tempo.

Só que você nem sabe das coisas horríveis que estão acontecendo dentro da sua pessoa. Seu bolo fecal vai ressecando, ressecando, até que quando você finalmente resolve deixar sair, vira um parto sem anestesia.

Desses que duram horas e precisam da ajuda de qualquer coisa no banheiro em que você possa se apoiar.

Acontece isso com os textos que não se desenvolvem também. Você não anotou nada quando a ideia veio, e deixou passar um tempão até começar a escrever. Aí o negócio murchou, endureceu e perdeu a espontaneidade.

E você vai passar muito tempo sofrendo na frente do computador pra produzir o que nem vai ser tão legal quanto poderia ser. Frustrante, né?

No mundo da bostas e no mundo das letras, é preciso deixar fluir.

É melhor se você criar uma rotina

image

Meu marido quando solteiro dividia apartamento com um cara que fazia suas necessidades todos os dias, às duas horas da tarde, em casa. Dava até pra acertar o relógio quando ele entrava no banheiro. Era uma habilidade invejada por todos nós.

Mandando o seu barro todos os dias, ele sempre sai do jeito certo. E você diminui muito as chances de ter hemorróidas. Menos um problema pra sua vida.

Se você já tentou escrever alguma coisa, já percebeu que a mesma regra se aplica né? Às vezes até vem aquela inspiração maravilhosa, mas não dá pra contar com ela. Só sentando mesmo a bunda (neste caso, na cadeira) por algum tempo pra finalmente a coisa começar a sair.

Eu tento escrever um pouquinho todos os dias, e uso até um timer pra me obrigar. Nem que sejam alguns minutinhos. Ainda mais porque eu tenho uma newsletter, e ela fica bem melhor se cada texto for escrito no seu momento, sem deixar pra fazer tudo na véspera da postagem.

Viu? Não é so o seu intestino que precisa ser um reloginho.

Alimentação é tudo

a04ab812f8daea415de8de8854003f12

As criança pira nesse chocolate laxante

Você consegue viver em paz comendo só porcaria e sem beber água o suficiente? Eu não. Eu preciso de couve, aveia e muito líquido. E mesmo assim, de vez em quando tenho problemas.

Do mesmo jeito, é difícil conseguir escrever bem se você não lê coisa de qualidade. Ou se nem lê de jeito nenhum. E posts de Twitter e Facebook não contam.

Eu tento dar uma variada entre matérias de bom jornalismo, não ficção, romances e contos. Até pra poesia tenho dado mais atenção, já que ela te ajuda muito a escolher as palavras certas e fazer o texto soar bem.

E sempre é válido recorrer a Hemingway e Graciliano Ramos, pra lembrar de ter uma escrita enxuta e sem adjetivos ou advérbios desnecessários.

Não dá pra esperar felicidade no trono (ou na poltrona ergométrica) se o que entra é até pior do que o que sai.

E quando fica bom, dá vontade de admirar pra sempre

Vou confessar uma coisa meio nojenta agora: eu dou aquela conferida no material depois que ele vai pra privada. Às vezes é uma coisa tão perfeitinha que eu nem acredito que saiu de mim. É  uma pena que existe um tabu em nossa sociedade de compartilhar esse tipo de coisa no Instagram.

Mas felizmente os meus textos eu posso compartilhar com você e com o mundo todo. Pelo menos teoricamente, já que meu blog nem é tão acessado assim. Acho até que boa parte das visitas sou eu mesma relendo os textos que eu gostei mais.

Sim, eu sou patética, e escrevo sobre cocô.

***

E claro que existem diferenças entre cagar e escrever. Por exemplo, fazer o primeiro fora de casa é um tormento, mas o segundo pode até ficar melhor. E não existem remédios que simulem uma diarréia de palavras saídas de você.

Mas de resto, a gente só tem a ganhar se fizer com que a escrita se torne um ato fisiológico e natural como colocar os meninos pra nadar, ou fazer uma arte barroca na cerâmica, ou arriar o calhau…

Enfim, já deu pra entender, né?

E você? Como tem feito as duas atividades?

fullsizerender-1

Sem categoria