20 anos incríveis (que passei usando óculos)

Às vezes eu vejo na timeline de alguém no Facebook um desses posts estilo “é, tô ficando velho (a)”. Aí a pessoa comenta que tá gorda, ou com cabelos brancos, ou que os filhos dos amigos, olha que surpresa, cresceram. E às vezes a pessoa só começou a usar óculos, aparentemente um símbolo mundial de decadência.

Eu acho engraçado porque pra mim óculos representam justamente o contrário. Nos meus mais verdes, indomáveis e jovens anos, eu estava de óculos. Se eu tiver que usar no futuro, vai ser como voltar no tempo e ficar novinha outra vez.

Mas vamos ao começo do começo.

Quando eu tinha 3 anos, meus pais começaram a reparar que tinha alguma coisa errada comigo. Eu vivia grudada na televisão, como qualquer criança oitentista, mas aquilo estava literal demais. Eu estava mais pra Carol Anne de Poltergeist. Sinistro.

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Chega mais perto, Camilinha

Eu não me lembro dessa época, mas confio nos relatos da minha tia Norma. Foi ela que me levou no oftalmologista pra ver qual era o lance. Ela sempre conta que o médico mostrou lá as coisas na parede, perguntou pra mim o que era, e eu disse “peraê, deixa eu chegar perto”, e levantei da cadeira. Ela acredita que isso é algo hilário de se contar pras visitas.

Como você vê, eu já usava óculos nas minhas memórias mais antigas. Foi com óculos que eu comecei a me entender por gente e a viver as maiores aventuras.

Meu primeiro modelo foi um verdinho, super fashion. Por insistência do meu pai eu usava aquelas cordinhas horrorosas penduradas, pra garantir que o dito cujo não iria se esborrachar no chão quando eu corresse. Meu pai usava também aquelas aberrações (embora ele não costumasse correr).

Eu com 5 anos, Thaís bebê e minha avó Safira
Eu com 5 anos, Thaís bebê e minha avó Safira

 

Eu guerrilheira
Eu guerrilheira

Eu não sei com quantos graus eu comecei, mas não deviam ser muitos. Ainda dava pra tirar os óculos nas brincadeiras mais violentas, e pra causar nas festinhas. Pra falar a verdade, eu não curtia muito esse negócio de óculos, e só usava mesmo porque meu pai fazia terrorismo.

“Você vai acabar com um fundo de garrafa”, ele dizia. E eu ficava imaginando que devia ser por isso que a gente tinha que devolver os cascos dos refrigerantes.

Meu segundo modelo era cinza, com um desenho do Cebolinha bem discreto na lateral. Acho que eu comecei a usar esse com 7 anos. Foi a época em que eu mais fui chamada de “quatro olhos”, o que eu não considerava realmente um xingamento.

E eu pude constatar o quanto era mentira esse negócio de que ninguém bate em quem usa óculos.

Não sei a minha idade, nem a de Thaís, mas essa foto foi no Parque da Cidade, em Salvador
Com 7 anos, no Parque da Cidade (Salvador)

Com 8 anos eu troquei de armação de novo, passei a usar uma redonda e preta, a mais horrível de todas. Foi mais ou menos na época que eu comecei a usar aparelho, e eu devo ter pensado “porque não ficar um monstro bizarro logo de vez?”. Sorte que eu ainda não dava muita bola pra aparência.

Aos 11 eu passei a usar uma armação dourada, um pouco mais bonitinha que a anterior. Mas eu já estava ficando mocinha, cheia de ideias românticas na cabeça, e só pensava no quanto seria melhor não usar óculos de jeito nenhum.

Ainda não havia esse fetiche com mocinhas de óculos, pelo menos não de forma declarada.

E as pessoas também não ajudavam quando diziam o tempo todo que eu ficaria bem mais bonita se não escondesse os meus olhos (que são verde-acastanhados).

E nos filmes, sempre que eles iriam embelezar a heroína, a primeira coisa que sobravam eram os óculos da pobre.

Com 8 anos, aniversário de 4 anos de Thaís, em 93

Com 12 anos eu fui pra uma festinha de São João da minha escola, sem óculos, como costumava acontecer nesses eventos. Meu grau tinha aumentado bastante e eu já não enxergava nada além de uns poucos metros.

Uma amiga veio me apresentar um carinha que de longe parecia de um jeito, mas de perto era completamente diferente. Foi aí que eu vi que ficar sem óculos poderia ser um perigo.

Aí eu passei a ter vontade de usar lente. Com 14 anos eu juntei uma grana sendo secretária da minha mãe e acabei comprando. Era louco enxergar tudo sem aquele negócio pendurado na cara, e sem precisar ficar ajeitando quando ele escorregava no nariz.

Pena que a alegria durou pouco, e uns meses depois eu tive que voltar pra minha velha armação de sempre. Deu fungo nas lentes, provavelmente pela minha preguiça de limpar direito. E aí meu pai ficou com medo e proibiu o negócio de vez.

Eu com aquela cara de "deixa eu tirar os óculos pra foto".
Eu com 14 anos, e aquela cara de “deixa eu tirar os óculos pra foto”.

Com 15 eu passei a usar uma armação sem aro, que estava super na moda naquele tempo. Era quase como se você não usasse nada, eles diziam. Esses foram os óculos que eu perdi num acidente de ônibus (eles voaram pra frente e nunca mais foram achados).

Sabe nos desenhos, quando no momento mais crítico tem um personagem que perde os óculos e fica totalmente indefeso? Fui eu nesse dia. Sorte que acabou tudo bem.

Troquei depois por outro sem aro também, mas que não era a mesma coisa. O anterior era todo inteiro, esse era cheio de parafusos que sempre folgavam e me obrigavam a ir pra ótica apertar. Isso quando eu não resolvia apertar por contra própria e arranhava a lente toda.

É difícil achar fotos decentes minhas usando óculos
É difícil achar fotos decentes minhas usando óculos. Aí eu tô com 17.

Nesse meio tempo, meu grau foi aumentando. E pra me trolar, ele aumentou de forma desigual. Eu cheguei a ter 6 graus de miopia no olho esquerdo e 3 no direito. A diferença na lente já era tanta que não dava mais pra usar sem aro, tive que partir pra um de armação grossa. A praga do fundo de garrafa que meu pai havia me lançado realmente aconteceu.

Com 19 anos, em 2004, eu comprei um que parecia até descolado, já que óculos mais pesado estava começando a ficar na moda. O que eu queria era um Ray Ban azul, mas minha mãe só liberou verba pra um sem marca famosa mesmo.

Essa era a desgraça de usar óculos quando você não tinha muito dinheiro, os modelos mais legais estavam sempre inacessíveis.

E assim eu fiquei por mais uns anos, pegando ninguém nas festas de faculdade e sonhando com o dia em que o grau iria estabilizar pra eu fazer a tal da cirurgia.

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Estreando os óculos, aos 19

E esse dia chegou quando eu tinha 23. Aliás, um dos dias mais sofridos da minha vida. Porque a cirurgia a laser dura só 10 minutos, mas pra quem tá com os olhos abertos estilo Laranja Mecânica, isso dura uma eternidade.

E depois ainda vem o sofrimento da recuperação, que é como se tivessem passado bombril nos seus olhos e jogado álcool em cima.

Por um tempo eu ainda fiquei confusa. Dava dor de cabeça, eu achava que era por estar sem óculos, e aí eu lembrava que não usava mais. E várias vezes eu saía do banho e ficava procurando o dito cujo, pra só então perceber que eu já estava enxergando sem ele.

Eu fico feliz de ter feito a cirurgia, realmente é mais prático viver sem depender tanto de um objeto tão frágil. Mas eu acho que eu perdi um pouco da minha identidade ficando assim, sem usar nada.

Eu e Thaís hoje em dia
Eu e Thaís hoje em dia

Afinal, foram 20 anos sem ter que fazer esforço pra convencer as pessoas de que eu era inteligente. E 20 anos sendo identificada sobretudo com alguém que usava óculos.

Passados 7 anos da cirurgia, minha visão já não é mais perfeita. Mas ainda assim, o grau é pouco o suficiente pra passar despercebido. Às vezes eu passo nas lojas e fico olhando armações, pensando no dia em que vou ter uma dessas de novo.

Será que é muito poser comprar uma sem precisar? Só pra matar as saudades de vez em quando?

E você, também tem uma história de óculos pra contar?