Sofrer nos torna melhores? (Ou pelo menos escritores melhores?)

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Minha mãe era uma pessoa bastante religiosa. E com isso eu quero dizer que ela passou por várias religiões e não renegou nenhuma, achando que todos os caminhos eram válidos pra chegar no mesmo lugar. Quando eu era criança ela estava na fase católica, e uma coisa que me marcou bastante foi a oração “Salve Rainha”.

Principalmente nesse trecho:

A Vós bradamos, os degredados filhos de Eva,
a Vós suspiramos, gemendo e chorando,
neste vale de lágrimas.

E com essa imagem bem forte eu entendi que o nosso mundo era um “vale de lágrimas”. Tudo culpa dessa tal de Eva, que um dia encontrou uma cobra, que falava igual ao Morpheus de Matrix. Aí a Eva tomou a pílula vermelha, ficou sabendo de tudo, e lascou toda a humanidade. Simples assim.

Aliás, “Degredadas filhas de Eva” dá um nome bom de banda punk feminista. Ou de metal, se você usar o termo em latim, Exsules filiae Hevae.  Mas eu estou divagando aqui.

Um dia a gente descobre que esse vale de lágrimas existe mesmo, e se estende por quilômetros. Na verdade eu acho que o negócio já transbordou e encontrou o mar, virando  um grande oceano, que tem mais sal que as lágrimas de Portugal.

VALE DE LAGRIMAS
Nessa pintura do Gustave Doré não tem água no Vale de Lágrimas, mas eu sempre achei que tinha.

Ou seja, a gente sofre pra burro. E todo mundo sofre, ainda que com motivos e intensidades diferentes.

Mas e o que dá pra fazer além de chorar?

Porque é essa questão que vem quando a dor é tão grande que é preciso racionalizar de algum jeito. E aí tem gente que recorre à religião, ao trabalho voluntário, aos grupos de ajuda e à arte. Muitas vezes a arte da escrita.

Eu sei que tem quem transforme o sofrimento em mais sofrimento, pra si e pros outros, mas eu não quero focar nessas pessoas agora.

Talvez você já saiba (ou talvez não), mas meu pai recebeu o diagnóstico de Alzheimer ano passado. E esse foi o maior golpe que eu já sofri na vida. Maior até que a morte da minha mãe há nove anos. Não vou dar mais detalhes, porque já escrevi sobre isso (aqui e aqui), mas dá pra sentir o clima.

E eu vi que precisava fazer alguma coisa. Na época eu saí do Facebook (que só me fazia sofrer mais) e criei uma newsletter, o que me fez ficar em contato maior com amigos queridos, e me aproximar de pessoas que eram só conhecidas.

Coxia 2
Lá  na newsletter só tem amor

Meus textos funcionavam pra me fazer pensar em outras coisas, pra entender o momento que eu estava vivendo, pra rir, pra lembrar e principalmente pra formar uma comunidade. E eu acho que a necessidade de escrever, e a frequência com que isso aconteceu, fizeram de mim uma escritora melhor.

A gente sempre ouve falar da vida perturbada dos escritores e poetas famosos. Virginia Woolf, Sylvia Plath e Anne Sexton tinham problemas psiquiátricos graves, que acabaram com a vida delas.

Charles Dickens foi de verdade a criança desamparada dos seus livros. E o que dizer das irmãs Brontë, que além de todos os problemas sociais e de família ainda tiveram que aguentar tuberculose?

Mas será que é o fato de sofrer que torna a escrita melhor?

Ficção precisa de conflito, isso é verdade. E é difícil escrever boas situações de conflito, com bons personagens, se você não sabe o que faz as pessoas sofrerem. Ou se você não sabe como elas se comportam quando sofrem.

O risco é acabar criando uma daquelas histórias de filme feito pra TV, das que te deixam quase surdo de tanto que aumentam a música nos momentos mais “emocionantes”.

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Filmão, hein?

Uma boa escrita, e eu falo de qualquer texto, ficcional ou não, precisa de empatia. Nem que seja pra contar a história de um psicopata. E eu acho que o jeito mais fácil de conseguir empatia é vivendo a situação que você pretende descrever. Mas não é pré-requisito também.

Madame Bovary e Dom Casmurro foram livros escritos por homens, e falavam de mulheres que viviam em sociedades machistas. Eu fiquei impressionada com o nível de detalhe de ambos os livros ao falar da experiência feminina. Às vezes eu até pensava “como que esse cara sabia disso?”

Empatia pode vir de sensibilidade também, de prestar atenção, de conseguir entender como vivem as pessoas que estão à sua volta. E não dá pra escrever sem ter isso, ainda que você tenha experimentado em primeira mão todas as desgraças do mundo.

O resultado de um bom trabalho é que você consegue atingir uma quantidade imensa de pessoas, mesmo as que nasceram muito tempo depois de você ter escrito. Foi o que aconteceu comigo ano passado quando li Anna Karenina, bem na época em que eu me sentia pior. E não é que um russo que morreu há tantos anos conseguiu me ajudar?

Essa é a beleza da escrita, funciona pra dar sentido à vida de quem escreve e à vida de quem lê. Acho que é isso que pode nos tornar melhores, não só a dor por si mesma.

E se é verdade que o mundo é um vale de lágrimas, nada nos impede de construir um barquinho pra facilitar o processo. O meu é feito de palavras, no papel e nas telas de computador.

E o seu, é feito de quê?