O meu filho que é o meu pai

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Aniversário de 63 anos do meu pai em 2016

Todo mundo me pergunta o tempo todo, o tempo todo, o tempo todo quando eu vou ter filhos. Incrível como a questão vem rápido, mesmo de pessoas que eu mal conheço. E você já deve ter reparado no quanto isso me aborrece, visto que eu já escrevi sobre isso em outros momentos.

Daí que eu acabei elaborando uma resposta em uma das vezes em que fui visitar meu pai na casa de repouso. Lá tem algumas senhoras simpáticas, e com o espírito enxerido de vozinha, que me fazem constantemente essas mesmas perguntas.

Como eu não vou ser rude com pessoas idosas, acabei bolando uma resposta: eu não preciso ter filhos, eu já tenho um, que é meu pai.
Funciona perfeitamente, porque elas acompanham o trabalho que ele dá. E com outras pessoas funciona pelo fator culpa, elas ficam tão constrangidas de o Alzheimer ter vindo à tona em sua até então agradável inquisição que bate o constrangimento e elas mudam de assunto.

E pensando bem, meu pai é como um filho sim, mas um filho diferente. Um filho que eu não posso mencionar em todas as minhas conversas, como os pais normalmente fazem, porque isso perturba a descontração do ambiente.
Eu não posso ficar me gabando de que ele parou de ter crises, ou que lembrou o que significava “poliglota”, ou mesmo que ele fala que me ama em quase todas as vezes que me encontra.

Algo me diz que uma foto dele jamais ganharia 350 milhões de likes no Facebook, como as fotos de crianças.

Essa semana ele precisou ser levado a Salvador, pra uma perícia de trabalho. Fui em um dia e voltei no outro, pra minimizar o tempo em que ele ficaria em um lugar estranho.

Já no aeroporto vem aquela dificuldade, meu pai tem medo de ficar sozinho em qualquer ambiente, o que inclui banheiros de lugares públicos. Felizmente Lucas ficou com a gente até a hora do embarque e pôde servir de acompanhante.

Eu preciso ficar em estado de atenção constante, pra não perder de vista nem ele nem a mala. E tenho que acalmar ele no vôo o tempo todo, dizendo que estamos quase chegando.

Parece até que ele resolveu se vingar de quando eu também perguntava a mesma coisa, naquelas longas viagens de carro de quando eu era pequena.
No dia seguinte chegamos atrasados no lugar da perícia, porque é bem difícil ajudar meu pai a tomar banho e se vestir. Não que ele já esteja na fase de ficar totalmente dependente, mas um dos remédios que ele toma tem como efeito colateral rigidez nos membros.

Se Thaís não estivesse lá também pra dividir a tarefa comigo, acho que eu nunca teria conseguido sair daquele quarto de hotel.

Meu pai também é engraçado, e solta umas pérolas de vez em quando. Eu brinquei que a gente deveria se livrar de Thaís, e ele disse rindo que ela “poderia nos ser útil no futuro”. Ele usou aspas aéreas pra falar de uns colegas de trabalho que ele odiava.

Quando eu precisei ir no banheiro com urgência, deixando ele sentado sozinho numa cadeira de aeroporto, ele disse que tinham sido os minutos mais compridos da vida dele. Ele também me reprimiu quando eu quis comprar um beiju no aeroporto de Salvador, porque isso é comida de feira.

E ele sempre me estende a mão quando andamos juntos, já que só dedos bem entrelaçados trazem segurança. Se eu preciso soltar por algum motivo, ele fica lá, com a mão estendida, esperando eu pegar de volta. No tempo que ele passou aqui em casa eu colocava ele pra dormir todos os dias, e no dia em que ele lembrou de quando a mãe dele fazia a mesma coisa (com o bônus de obrigar a rezar), eu tive que ir pro outro quarto chorar.

Ao contrário do que acontece com as crianças, meu pai só vai piorar com o tempo, ficando cada vez mais dependente e vulnerável. Eu sei que vai chegar o dia em que ele não vai mais me reconhecer, nem vai conseguir fazer as coisas mais básicas sem ajuda. Ele vai seguir num caminho inverso, até voltar a ser um bebê de novo. E eu vou estar com ele até o fim, como não pude fazer pela minha mãe.
Enquanto provavelmente ouço que eu nunca vou saber o que é o amor verdadeiro, por não ter tido filhos.