Morte e vida da minha bisavó

Dindinha e eu

A primeira pessoa da minha família a morrer foi a minha bisavó. Quer dizer, outras pessoas até morreram antes, porque eu não pertenço a uma família de imortais, mas essa foi a primeira do meu tempo de vida. Ela se chamava Georgina, mas atendia mais frequentemente por Dona Nina. Pra família era Dindinha, até pra minha mãe (que deveria chamá-la de vó) e pra mim (que deveria chamá-la de bisa, sei lá). Só minha avó e os irmãos dela que quebravam o padrão, chamando de mãe.

Dindinha morava numa casa meio esquisita, em que você subia lances de escada, mas não havia andar de baixo. Era só um barranco mesmo. Lá em cima havia um jardinzinho, com as rosas que ela adorava. Quando eu tinha cinco anos sempre passava lá depois do curso de inglês, que ficava na mesma rua. Dindinha não era muito de conversar, mas fazia o esforço exigido pela minha condição de criança.

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Dindinha e meus pais

Eu não entendia muito bem como ela podia ser a mãe da minha avó Safira, se as duas pareciam igualmente velhas pra mim. Pior que a diferença de idade entre elas nem era tanta mesmo, Dindinha tinha sido uma dessas vítimas do costume antigo e caipira de casar as filhas poucos anos depois da puberdade. Ela ainda brincava de bonecas quando casou. Minha avó sempre me contava essas histórias quando eu era pequena, mas eu só fui compreender o horror delas muito tempo depois.

Dindinha era sergipana, e um dia resolveu ir pra Bahia com a minha avó, por não suportar mais viver com o marido. Minha avó ainda era pequena, e só foi registrada aos nove anos, em Ilhéus, sem o nome do pai. Lembrando que essa confusão toda aconteceu lá pelos anos 30–40.

Dindinha era triste, é o que eu mais me lembro. Em um dos seus aniversários eu cheguei na casa dela com as mãos cheias de bala, compradas com um troco que não devolvi pra Tia Norma (muito estresse nesse dia). Lá fui eu toda feliz, desejando parabéns e entregando as balas. E aí ela me responde “Camila, na minha idade a gente não comemora mais aniversário, a gente só vê os anos passarem”. Eu fiquei confusa e comi todas as balas. Eu devia ter uns 7 anos, e ela uns 80.

Eu gostava quando meus pais viajavam e eu ficava na casa dela, ao invés de ficar na casa da minha avó. Não que eu não gostasse de ficar com a minha avó, mas os níveis de permissividade na casa de Dindinha eram ainda mais impressionantes. E eu me divertia muito com a moça que fazia companhia a ela.

Em 94 Dindinha teve um derrame enquanto tomava banho. Ela sobreviveu, mas ficou bastante paralisada, só voltando a andar depois de muitos meses de dolorosa fisioterapia. E aí em dezembro do mesmo ano ela teve um enfarte e não resistiu.

Eu me lembro de estar em Salvador, porque minha família se preparava pra cirurgia cardíaca de Thaís (ela havia nascido com sopro e vivia doente). Aliás, foram férias bem movimentadas, com a morte de Dindinha, a cirurgia da minha irmã e o nascimento do meu primo Luís Eduardo (em Itabuna, enquanto o pai dele estava em Salvador doando sangue pra Thaís).

Minha mãe me deu a notícia logo de manhã, do jeito dela de dar notícias difíceis, agindo como se já estivesse tudo sob controle. Eu me lembro de ter chorado muito (acho que caiu até lágrima no café). Eu tinha 9 anos. Algumas horas mais tarde as vizinhas gêmeas do lado me chamaram pra brincar. Minha mãe disse que era pra ir e eu fui. Em pouco tempo eu já estava normal de novo.

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Minha avó Isaura (mãe do meu pai) e Dindinha, Natal de 89

O que me chateou foi que semanas depois eu fui chamar essas mesmas vizinhas pro play e elas se recusaram. Uma tia delas havia perdido o bebê, e elas estavam desanimadas demais pra qualquer coisa. Eu não insisti muito, mas fiquei revoltada. Por que elas faziam tanto caso por um bebê que nem tinha nascido, quando eu tinha perdido uma pessoa de verdade e havia brincado com elas mesmo assim?

Depois de Dindinha, a morte seguinte da minha família foi a da minha avó Safira, em 2003. Depois disso foi quase uma por ano, tia Lucineide em 2004, minha mãe em 2006, minha avó Isaura em 2008 e tio Geo em 2012. É tão esquisito que boa parte das pessoas que me viram crescer não existam mais. E eu nem estou contando a mãe biológica do meu pai (porque eu só a vi duas vezes), que morreu em 2005.

Agora eu fico achando que quando o Ney Matogrosso canta Sangue Latino, o verso “minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos” é pra mim. Eu tinha tanta gente, e de repente ficou tão pouco.

Mas elas existiram pra mim, e eu quero manter um pouco delas vivas enquanto eu ainda conseguir me lembrar.