Cara moça da recepção

Sabe, moça da recepção, esse nosso encontro é um dos momentos que eu mais temo na vida. Eu sei que você não tem nada a ver com isso, é só um formulário besta que eu tenho que preencher, são os ossos da burocracia, mas sente aqui meu coração como tá batendo rápido.

Tudo bem, o começo é tranquilo, “nome” (esse eu sei), “endereço”, “estado civil”, mas esse “profissão” aqui é que me pega. Moça, eu nem te conto como fico mal de responder isso aí. Aliás conto sim. Eu não trabalho, moça, eu tenho 30 anos e não trabalho, não desses trabalhos que dá pra colocar nesse papel aí.

Tudo bem, eu posso colocar “estudante”, que é o que eu geralmente coloco, até aparece essa opção naqueles formulários que a gente tem que preencher na internet, mas “estudante” é um negócio que começa a pesar na minha idade, você concorda?

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Não que eu tenha nada contra os estudantes (eu mesma sendo uma, na verdade). Meus planos são até de passar a vida inteira estudando tudo, acho o máximo. Se tivesse aí nesse seu papel “vocação”, ao invés de “profissão” eu preencheria com o maior prazer. Mas o buraco é mais embaixo, né, moça?

Aí você me pergunta “mas o que é que você faz, como você preenche esse horário de ouro entre as 8 da manhã e as 6 da tarde?” Na verdade, moça, eu confesso que não preencho assim, todo esse horário não, mas pego um bocado dele, às vezes à noite, ou de madrugada, quando eu não consigo dormir.

Mas você quer saber mesmo o que eu faço?

Moça, eu escrevo. Escrevo contos, crônicas, posts de blog, newsletters, diários, e mensagens de ânimo pra mim mesma. Eu posso até te dar o endereço de algumas dessas coisas aí pra provar. Quer assinar minha newsletter? Certo, eu paro, eu sei que eu fugi do assunto, não é isso que você quer ouvir, (ou ler).

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Mas isso aí é verdade moça, eu escrevo. Sabe aquela época em que você estava na alfabetização, reconhecendo com dificuldade aqueles símbolos estranhos? Era pra poder ler coisa que gente que nem eu faz.

Sabe Jane Austen, Virgina Woolf, Clarice Lispector? Elas também foram como eu, moça. elas também escreviam, no aconchego das suas casas, suando pra achar as palavras e morrendo de felicidade quando acabavam o negócio direitinho.

Eu faço do mesmo jeito, moça. Não, eu não estou dizendo que tenho o talento delas, eu só estou dizendo que um dia elas também “só” escreviam e nem viviam disso no começo (Jane Austen jamais viveu), mas as pessoas chamam essas mulheres de escritoras, porque eu não posso ser também, se eu faço o mesmo que elas?

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Eu sei, eu sei, Drummond era funcionário público, Hemingway era jornalista e Graciliano Ramos foi até prefeito. Eu sei que escrever não é desculpa pra não trabalhar assim, como todo mundo trabalha.

Mas moça, diga a verdade, você gosta de ser moça da recepção? Você gostaria de ter a oportunidade de fazer outra coisa e continuar vivendo? Pois eu tenho moça, não seria maluquice não fazer isso, se daqui a pouco vamos estar todos a sete palmos mesmo?

Sabe na fábula da cigarra e da formiga? Eu sou cigarra moça, não consigo fugir de ser cigarra, e eu sei que eu posso fazer as pessoas felizes com o que eu produzo, mesmo que não seja nada que saia de um escritório ou de uma fábrica. O quê? Você achou muito bem feito quando a cigarra morre no final da fábula?

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Então tá, moça, vamos falar de outra coisa então.
Eu sei, eu sei, é só um papel, e já tem gente esperando. Esse telefone tocando o tempo todo tá me deixando louca também, eu te entendo. Eu vou colocar qualquer coisa aqui, ninguém nem lê isso mesmo, né? É só formalidade, só porque sai no modelo.
Então lá vai, hein? 1-2-3 e já!
Profissão: escritora  estudante