A carta de suicídio fictícia que escrevi aos 12 anos

Vandinha

Eu sou muito dramática. Ao menos é o que meu marido diz, e como ele é muito bonzinho, deve ser verdade. Mas eu já fui bem pior. Quando eu tinha uns 12 anos eu entrei numa fase gótica.

Nada a ver com usar preto da cabeça aos pés, o que seria uma tortura em Itabuna. Eu gostava era da temática, esse lance dark, sombrio, fúnebre, etc. Frankenstein e O Morro dos Ventos Uivantes eram meus livros de cabeceira.

Daí que eu pensei em escrever a respeito. Planejei uma história gótica super novelesca na cabeça, mas acabei nunca concretizando. Uma pena, porque ela envolvia a rivalidade de duas irmãs por vários anos, e em certo momento uma delas servia os filhos da outra no jantar.

O que acabei fazendo mesmo foram as cartas de suicídio. E antes que você duvide da minha sanidade mental na época, deixa eu dizer logo que nenhuma era minha. Elas eram escritas como se fossem de personagens, a dona-de-casa, o industrial, e por aí vai.

A única que eu guardo até hoje é a do industrial, que deve ter sido escrita no segundo semestre de 97. Preste atenção no estilo metido e pomposo. E tanta esnobice nem impediu alguns erros de gramática.

Felizmente meus pais nunca encontraram isso aí, e eu passei minha adolescência longe de consultórios psiquiátricos.

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Tragédias são sempre muito bem escritas. Encerro agora uma que talvez seja a mais irônica, a mais deprimente de todas: a tragédia da minha vida. Uma tragédia sem moral ou sentido, uma tragédia digna de envergonhar o mais inculto dos autores. Mas essa grande falha que foi a minha existência chega ao fim por minhas próprias mãos.

Encarrego-me de consertar este erro que prejudicou tantas vidas. Sei que com minha morte os corvos apoderar-se-ão de tudo o que eu tenho. Ingratos. Aves de rapina as quais tanto protegi mostrarão suas garras. Estes carregam meu sangue em suas veias.

Fiz de tudo para uni-los, mas em vão. Se odiarão, tornar-se-ão rivais e tudo por causa do meu dinheiro. Dinheiro que lutei tanto para conseguir e que será motivo de terríveis inimizades. Passei minha vida construindo um patrimônio para aqueles a quem tanto amo e que será destruído por eles próprios. De que valem agora as lembranças dos tempos felizes se eles já não se lembram mais delas? De que valem os sonhos, as conquistas…

Tudo será esquecido para sempre, e em breve eu também serei. Malditos sejam todos aqueles que provocaram a minha desgraça. Meus inimigos rir-se-ão do meu triste destino e comentarão com ironia a minha covardia. Após anos de coragem, um minuto de covardia põe tudo a perder.

Em breve partirei desse mundo cruel e farei parte de um universo desconhecido onde esquecerei de toda a infelicidade que tive em vida. Agora é o momento. Despeço-me agora pela última vez desde mundo do qual não tirei proveito nenhum. Amaldiçoados sejam todos aqueles que conviveram comigo. Adeus.