Pequenas lembranças machistas de infância

A menina da propaganda do Lego posa de novo anos depois pra mostrar que a neutralidade de gênero do brinquedo já era.
A menina da propaganda do Lego posa de novo anos depois, mostrando que a neutralidade de gênero do brinquedo já era.

Eu tive uma infância feliz. Não perfeita, que eu acho que isso ninguém tem, mas cheia de bons momentos, com pais presentes e uma família que chegava a sufocar de tanto amor e comida. E eram os anos 90, aquela última época de inocência antes da escravidão pela internet.

Não quero ser a chata do “no meu tempo era bem melhor”, mas permitam-me só mais algumas linhas. Naquela época, Lego era só um brinquedo assexuado e colorido, o Kinder ovo vinha com a mesma surpresa pra meninos e meninas e eu costumava brincar igualmente com bonecas, Pense Bem, kit de escritório e  jogos de tabuleiro.

Não sei se dá pra julgar direito se era tudo era mais igualitário com base só na minha experiência, mas eu acho que o machismo que havia naquela época não foi muito danoso pra minha formação. Mesmo assim, alguns singelos episódios em que ele se manifestou ficaram bem marcados na minha memória:

Inaugurando a Marcha das Vadias girls shirtless

Eu estava na (antiga) segunda série, e lá onde eu estudava havia uma festinha tradicional no último dia de aula do ano. Nada de apresentação de Natal (que acontecia num dia separado) ou CD da Simone tocando (porque ele nem havia sido gravado ainda).

Era só uma anarquiazinha de estudantes brincando livres até os pais virem buscar. Nesse dia eu fui uma das últimas a sair, e o dia estava realmente muito quente. Quem já esteve em Itabuna no mês de dezembro sabe que a cidade não fica em nada devendo ao próprio inferno.

Daí que um dos meninos da minha turma teve a genial ideia de tirar a camisa. Como o clima já estava bem informal, e havia bem pouca gente, as tias da escola ficaram de boas. Já quando eu me animei e fiz exatamente a mesma coisa, uma delas ficou chocada e veio pessoalmente me reprimir:

“Camila, o que é isso? Você não pode tirar a blusa assim! Põe isso já!

“Mas fulano acabou de fazer e não aconteceu nada!”

“Fulano é menino!”

“E daí?”

“Meninos podem. Meninas têm seios, e não podem sair tirando a roupa assim”

“Eu não tenho seios. Eu tenho 7 anos”

“Mas vai ter”

“!?”

E tempos depois eu ainda me pergunto como alguém consegue chegar a um cargo alto numa escola se não consegue nem vencer uma discussão com uma criança de 7 anos.

Quem pede quem em casamento?

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Minha mãe nunca se declarou feminista, mas ela foi o maior exemplo de girl power que eu tive na infância. Ela tinha um emprego que adorava, pelo qual era reconhecida, e sempre reafirmou pra mim e pra minha irmã a importância de ser independente, realizada e ganhar o mundo.

Foi ela que me contou que homens e mulheres eram iguais perante a lei, e abriu a Constituição pra provar.

Só que em matéria de relacionamentos, ela era surpreendentemente retrógrada, o que viria a me dar algum trabalho na adolescência. Mas voltemos a esse dia. Eu havia apresentado pra ela uma situação hipotética rocambolesca:

“Mãe, imagina que existe um casal, que se ama muito, mas os dois são muito tímidos. Eles querem se casar, mas um fica esperando o outro pedir, e isso nunca acontece. Daí que eles acabam terminando, né? Porque um acha que o outro não gosta tanto.”

“Não Camila, a moça vai esperar o rapaz pedir, porque é o homem que pede.”

“Ué, mas por que?”

“Porque é assim”

“Mas se o rapaz não pedir nunca, porque ele é tímido,  a moça vai esperar pra sempre, porque ela não pode pedir?”

“É”

“Que merda, né?”

Tá, claro que eu não respondi à minha mãe com essas palavras, mas foi o que eu pensei. Me pareceu um arranjo sem sentido. Como parece até hoje.

Joaninha e Aranha ou Aranha e Joaninha? gibi-luluzinha_joaninha

Dessa vez eu confesso, a culpada fui eu mesma. Eu era muito fã das revistinhas da Luluzinha, e em uma das histórias ela criava um alter-ego, a “Joaninha”, pra confrontar o Bolinha, que era o “Aranha”.

Pra quem não sabe, ou não lembra, era como Aranha que o Bolinha bancava o detetive, e investigava pequenos delitos no bairro, sempre acusando o pai da Lulu de ser o culpado. Cansada disso ela resolve virar detetive também.

No fim da história, eles fazem as pazes e resolvem fazer uma sociedade, mas não conseguem chegar a um acordo sobre qual dos dois nomes deveria vir primeiro. Lembro de ter pensado que a briga não tinha razão de ser, porque lógico que o nome do homem vinha primeiro.

Nome de mulher vindo primeiro me parecia estranho, porque homem que era o mais forte (?). Não sei como uma leitora de Luluzinha chegou a ter essas ideias estapafúrdias, mas felizmente eu mudei de opinião algumas edições depois.

Bicicletas de menino e menina

Vada e Thomas J pedalando juntos em "Meu primeiro amor"
Vada e Thomas J pedalando juntos em “Meu primeiro amor”

Eu fui uma das últimas meninas da minha turma de amigas (ou de escola, ou de conhecidas, ou de qualquer lugar) a aprender a andar de bicicleta sem rodinhas. Muitas tentativas infrutíferas foram feitas só retirando as ditas cujas da minha primeira bicicleta, até meus pais decidirem que com uma bicicleta nova o efeito seria melhor.

E foi assim que, aos 8 anos, em 1993, eu ganhei a minha Caloi Ceci vermelha com cestinha na frente, linda, grande e pesada. Depois de alguns dias (ou semanas, eu realmente não me lembro) meu pai finalmente conseguiu me fazer perder o medo,  naquele momento emocionante de paternidade Gelol.

Tempos depois, quando eu já andava com facilidade, vi uma vizinha passar com uma daquelas bicicletas de milhões de marchas. Bateu aquele complexo de inferioridade quando olhei pra minha, que agora parecia tão simples. Comentei com a moça que tomava conta de mim e da minha irmã, e ela rebateu:

“Mas a sua bicicleta é que é a certa, bonita, de menina. A dela é feia e de menino.”

Até hoje eu não sei se ela disse isso porque acreditava mesmo ou só pra me consolar. Ela poderia ter usado outros argumentos. Como o fato de que eu só andava em lugares planos, o que tornava a cestinha mais útil que as marchas. Sem falar que eu pedalava pra me divertir, não pra praticar mountain bike.

Só sei que o que ficou mesmo na minha cabeça naquele momento foi “e por que as coisas de meninas têm que ser as mais bonitas e as piores?”

"Não subestime as meninas!" vídeo superdivertido de um kit de construir que chama as mocinhas pra brincar também.
“Não subestime as meninas!” vídeo superdivertido de um kit de construir que chama as mocinhas pra brincar também.

Pode parecer que isso tudo é exagero, ou que os adultos estavam certos de me mostrar como as coisas “realmente eram”. Mas será que elas eram assim mesmo? Como eu dizia antes, esses momentos foram pontuais na minha criação, acho que eu recebi bem mais estímulos positivos.

Eu fui educada pra acreditar na minha capacidade, e  não achar que podia menos por ser menina. Mas essas lições sexistas podem ter um impacto muito maior. Podem criar complexos e desencorajar sonhos, além de ajudar a manter a sociedade desigual pra sempre.

Aí escolhi esses vídeos bem legais pra encerrar o post. O primeiro é uma campanha do governo do Equador, mostrando que achar violência doméstica normal é algo que se aprende desde criança. E o segundo é uma propaganda sobre como a educação das meninas contribui pra afastar muitas delas das ciências exatas.