Somos todas Camilas

photo 1

Eu gosto muito do meu nome: acho bonito, distinto, sonoro e do tamanho certo. Pena que essa também foi a opinião de muitas mães dos anos 80, que infestaram as escolinhas com milhões de Camilas. Essas pobres meninas  que passaram a vida sendo chamadas pelos sobrenomes.

Se você também é Camila, sabe do que eu estou falando. É como no Morte e Vida Severina, em que há tantos Severinos que o sujeito lá que conta história tem que se identificar como “Severino da Maria do Zacarias, lá da serra da Costela, limites da Paraíba”. No meu caso, Camila Freire, “aquela de óculos, aparelho e cicatriz na testa”.

Minha mãe costumava se defender dizendo que quando eu nasci, nem havia tantas Camilas assim. Talvez ela até tivesse razão, porque a coisa piorou muito lá em 1987. Tinha a personagem da Maitê Proença em Sassaricando, mas esse foi sobretudo o ano do pesadelo de toda menina chamada Camila: a música do Nenhum de Nós.

A partir desse momento, todas fomos amaldiçoadas. Nenhum “oi tudo bem? meu nome é Camila” deixou de ser acompanhado por “Camila-ha ôooooo Camilaaaaa”. Ou então um “Camila como na música né? Camila-ha ôooooo Camilaaaa”.

Era muito constrangedor mesmo ter que ouvir isso de pessoas aleatórias pela rua. Anas Júlias, Carlas e Julianas, vocês têm o meu respeito. Uns vinte anos depois todo mundo esquece e as músicas vão fazendo novas vítimas, vocês vão ver.

Acabei me acostumando a ser mais uma Camila na escola. Trauma mesmo foi quando eu fui fazer o Enem pela primeira vez, em Salvador, lá no Convento da Lapa. Um andar inteirinho foi ocupado só com Camilas, muitas homônimas de sobrenome também. Isso deu algum trabalho pra o pessoal da identificação, já que nessa época o exame era com carteiras marcadas.

Eu me senti como o David de Inteligência Artificial, quando descobre que era só um robô feito em série, e não a criatura única que ele pensava ser. Mas eu me controlei e não saí quebrando o lugar todo, que isso ia ficar meio feio.

David-AI

Engraçada essa sensação que a gente tem de que o nome é algo particular, só nosso. E que um homônimo parece estar se apropriando de alguma coisa. Aí a gente lê esses significados de nomes, e nem parece que eles estão falando de muitas muitas criaturas, como os signos fazem também.

Aproveitando, Camila é um nome latino, usado pra denominar as moças que auxiliavam em cerimoniais pagãos na Roma Antiga. Meio besta, né? Mas em árabe existe Kamilah, que quer dizer “perfeita”. Muito mais próximo da realidade, na minha humilde opinião.

Por outro lado, uma vantagem de ter nome popular e mais ou menos no padrão internacional é que não dá trabalho quando você sai do país. Quando morei nos Estados Unidos todo mundo conhecia meu nome e sabia pronunciar na boa, só com a diferença do “i”do meio, que passava a ser mudo. Na escrita sempre saía um “l” a mais, a forma comum no inglês.

BAM04-2

Quando eu era pré-aborrecente achava o máximo esse Camilla, como dois “l” de pura chiqueza. Tipo a então Camilla Parker-Bowles, que não era grande coisa, mas tinha um nome fino. Hoje eu fico feliz de a minha mãe não ter se deixado levar por essa empolgação e enchido meu nome de penduricalhos que só servem pra dar trabalho.

Ainda convivo com algumas Camilas, a maioria da minha faixa etária, mas algumas mais novas. Acho que é um nome que nunca vai sair de moda totalmente, e nem deveria. Vai dizer que não é um dos mais legais disponíveis no mercado?

Enquanto isso, quero só observar a saga das portadoras dos nomes mais populares atualmente. Sofias, Julias, Alices, Anas Claras e Valentinas, muita sorte pra vocês.